A propósito de arte figurativa
Catolicismo, Campos (RJ), nº 23 — novembro de 1952, pag. 4
Mons. Celso Costantini
Transcrevemos hoje do “Osservatore Romano” mais um dos excelentes artigos de Monsenhor Celso Costantini sobre a recente Instrução em que o Santo Ofício traçou normas para a arte sacra:

Dante Alighieri
(Luca Signorelli, afresco, 1499-1502, particolar, capela de San Brizio, Duomo di Orvieto – Opera propria Georges Jansoone (JoJan) Scattata il 30 aprile 2008, CC BY-SA 3.0, Wikipedia)
Os cânones citados na Instrução do Santo Ofício prescrevem que, para a dignidade e pureza do culto, não se exponham nas igrejas imagens insólitas, em contraste com o caráter venerável próprio às imagens sacras. Já falei disto em artigos precedentes. E não me repetirei aqui.
Com Dante direi aos artistas que a academia do disforme “lhes arrebatou o mundo celeste e os lançou nesta confusão: o que seja esta, não o digo com mais palavras“ (Inferno, VII, 57).
Entretanto acrescentarei ad abundantiam três observações que reforçam as normas da Instrução contra as deformações e a alteração da figura humana, especialmente quando se trata de arte sacra:
1) Certas populações da África e da Oceania utilizam-se de máscaras monstruosas com que pretendem evocar os antepassados e os bons espíritos e aplacar os espíritos malignos. Esta religião é essencialmente uma magia trágica, que se exprime por figuras grotescas e assustadoras. Devem nossos artistas cristãos inspirar-se nesses selvagens?
2) Exaltam-se as representações nas quais faltam o desenho e o relevo e onde se manifesta uma deficiência pictórica infantil. Os “ex-voto” de nossos santuários, confeccionados por bons artífices locais, são obras-primas desta estranha escola. Os “ex-voto” precederam Picasso e Matisse.
3) São conhecidas as deformações e mutilações do corpo humano que eram praticadas — e ainda o são frequentemente — entre os povos primitivos.
Sabe-se também do costume da China antiga onde, com faixas apertadas, se atrofiavam e deformavam os pés das mulheres.
Na tribo Sara do Sudão uma deformação impressionante é a dos lábios, que são alargados em forma de discos. Mas a mais famosa de todas as deformações é a dos crânios, praticada principalmente entre selvagens da América do Sul. Assegura um antropólogo que as sepulturas dos índios contêm 90% de crânios deformados, alongados, cilíndricos etc. (Enciclopédia Italiana, v. Deformação).
Ora, estamos assistindo ao fato espantoso de que certa arte parece ter sofrido a fascinação dessas deformações bárbaras. O que repugna e não é admitido em nossa civilização é celebrado e exaltado na arte. Dir-se-ia que alguns estendem a mão aos selvagens antigos.
Pobre arte, que nos põe, no plano ideal, ao nível dos selvagens!
Mais pobre ainda e mais repugnante é essa pretensa arte que profana o Corpo de Jesus Cristo, da Virgem e dos Santos!
Ó Senhor, vós imprimistes em nós a luz de Vossa face, diz o Salmista (Ps. 4, 3). Parece, em contraposição, que certos artistas procuram imprimir na face dos Santos um sinal das trevas infernais.
* * *
Nas normas citadas, relembra-se, outrossim, a proibição de expor na igreja ou nos outros lugares sagrados, imagens que não apresentem a decência e a honestidade devidas.
Os artistas têm frequentemente concepções muito largas no que se refere ao nu. Mas devem persuadir-se de que, quando trabalham para a arte litúrgica, são chamados a servir, e não a dar livre curso a seu talento. É inútil invocar o nome de Miguel Ângelo, G. Della Porta (Monumento a Paulo III) e outros exemplos, como o de G. Pillon, que representou Henrique II e Catarina de Medicis nus sobre o leito funerário na catedral de Saint-Denis.
É preciso que os artistas modernos saibam que a Igreja não tolera mais semelhantes liberdades.
Jacques Maritain escreve que a maioria dos homens não sendo dotada de cultura artística (há um número infinito de cristãos com mau gosto) a prudência tem razão de temer para a multidão a visão de muitas obras artísticas. E o Catolicismo, que sabe que o mal se encontra ut in pluribus na natureza humana e que, de outro lado, é obrigado a zelar pelo bem das multidões, deve, em certos casos, recusar à arte, em nome dos interesses essenciais ao homem, a liberdade de que o artista é cioso (Cf. Art et scolastique, Rouart, Paris, 1935, 3ª edição, pp. 178 e 296).