São João Evangelista: o martírio de desejo, sua confiança inabalável em Nossa Senhora e as visões do Apocalipse

Santo do Dia, 5 de maio de 1966

 

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

Nós temos amanhã a festa em que se comemora o martírio de São João. Costuma-se chamar São João de Porta Latina (no calendário litúrgico atualmente em vigor, sua festa é comemorada a 27 de dezembro).
Dom Guéranger a respeito diz o seguinte:
“Em sua ambição materna, Salomé…”
Evidentemente não se trata da Salomé que foi a causa da morte de São João Batista.
“… Salomé havia apresentado seus dois filhos a Jesus pedindo para eles dois os primeiros lugares em seu Reino.
“O Salvador falou então do cálice que deviam beber e predisse que um dia esses dois discípulos beberiam por sua vez. O mais velho, Tiago o Maior, um dos apóstolos, deu primeiro ao seu Mestre o sinal de seu amor.
“João, o mais jovem, foi chamado também para mostrar, com sua vida, seu testemunho sobre a divindade de Jesus, mas era preciso pelo martírio de um tal apóstolo um teatro digno dele. A Ásia Menor evangelizada por seus cuidados não era um lugar bastante ilustre para a glória de um tal combatente. Roma, somente Roma onde Pedro estabelecera sua sede e derramara o seu sangue, onde Paulo curvara a sua cabeça sobre o gládio, merecia a honra de ver em seus muros o augusto ancião, o discípulo que Jesus amou. O único sobrevivente do Colégio Apostólico dirigir-se ao martírio.”
Os senhores sabem que São João morreu extremamente idoso. Há quem afirme que ele morreu com cem anos. Na ocasião em que foi levado para Roma, portanto, ele já era muito idoso, então por isso que se diz que era um venerando ancião que ia para Roma para sofrer o martírio.
“João compareceu em presença da Justiça romana no ano de 95. Era acusado de ter propagado numa vasta província do Império o culto de um judeu crucificado sob Pôncio Pilatos. Ele deve perecer e a sentença conclui que um suplício vergonhoso e cruel desembaraçará a Ásia de um velho e supersticioso rebelde.”
Os senhores sabem que das piores queimaduras que há é o azeite fervendo.
“O pregador de Cristo deve aí ser mergulhado. Chegou o momento em que o filho de Salomé vai participar do cálice de seu Mestre. O coração de João alegra-se. Após lhe terem infligido uma cruel flagelação, os carrascos colocam o ancião no lugar do suplício. Mas – ó prodígio! – o azeite fervente perdeu o seu calor, nenhum sofrimento afeta os membros do Apóstolo.”
Os senhores estão vendo um verdadeiro milagre! Nenhum sofrimento afetou os membros do apóstolo.
“Mas quando ele é retirado dessa tortura, recobrou todo o vigor que os anos lhe haviam arrebatado.”
Os senhores imaginem que cena linda: um velho com o semblante venerando e ao mesmo tempo virginalmente puro como era o de São João, um espírito altamente contemplativo que depois foi, como veremos daqui a pouco para Patmos, para ter as visões do Apocalipse, com sua barba branca, seu cabelo branco, seu ar ao mesmo tempo varonil e angelical entrar todo recurvado e todo alquebrado pelos anos, dentro de um caldeirão de azeite.
Os senhores podem imaginar em volta, as pessoas em expectativa: “Agora acaba mesmo com o velho! Ele se desintegrará lá dentro”.
O azeite para de ferver, aquele barulho da trepidação do azeite, das bolhas que se formam cessa, o Apóstolo sai de dentro e é um homem igualmente de cabelo branco, igualmente com alguns traços da velhice, mas que desce do caldeirão, sai e vai andando com passo altaneiro.
Ele remoçou, teve todo vigor da juventude no esplendor da idade madura e da ancianidade. Os senhores podem imaginar a cena…
Então, a atitude estarrecida de todo o mundo diante desse fato. Quer dizer, aquilo que os imperadores não conseguiam e nunca ninguém conseguiu, que foi de voltar anos atrás no calendário, isto consegue aquele velho conservando a venerabilidade da juventude, e vai embora…
Naturalmente, os soldados o prendem e depois começa a andar com eles, em passo marcial, ele acompanha a marcha e vai assim até o cárcere deixando todo mundo estarrecido atrás de si. Vitória espetacular, lapidar, completa!
“A crueldade do Pretório é vencida e João, mártir de desejo…”
Ele havia desejado ardentemente o martírio, tinha tido toda coragem do martírio e, sem ser martirizado, saiu de lá de dentro com a coroa do martírio.
“… João, mártir de desejo, conservou-se para a Igreja alguns anos ainda. Um decreto imperial o exilou para a Ilha de Patmos onde o Céu lhe deve manifestar o destino futuro do Cristianismo até o fim dos tempos.”
* São João foi dos maiores devotos que Nossa Senhora teve em todos os tempos: foi dado como filho a Nossa Senhora e Nossa Senhora foi dada como Mãe a ele
Imaginem São João que chega a Patmos, uma ilhota no meio do Mediterrâneo, uma espécie de Xiririca marítima, quer dizer, completamente isolado, num lugarejo etc. – não sei se há alguém de Xiririca aqui, que me perdoe, então direi que é uma grande capital e direi que São João foi parar numa “reles” Paris… Mas enfim, São João fica lá e sua vida chega ao verdadeiro apogeu. É o Céu que se abre e começam todas as visões do Apocalipse. Quer dizer, é o último fim da união desta alma extraordinária com Deus.
Podemos de aí tirar alguma coisa. É mais do que lícito imaginar o seguinte: São João foi dos maiores devotos que Nossa Senhora teve em todos os tempos porque ele foi dado como filho a Nossa Senhora e Nossa Senhora foi dada como Mãe a ele, e é impossível conceber que isso se tivesse dado sem que ele conhecesse nessa ocasião a forma especial de devoção de São Luiz Grignion de Montfort e que, portanto, em todos os transes de sua vida, ele tenha conservado com Nossa Senhora uma união intimíssima. De maneira que tudo leva a crer que quando foi mergulhado nessa caldeira de azeite, ele tivesse os olhos e o pensamento postos em Nossa Senhora.
Quem sabe se quando o azeite deixou de trepidar, Nossa Senhora apareceu no Céu sorrindo para ele. Em todo o caso, é certo que como o rejuvenescimento foi uma graça que recebeu, isto lhe veio pelas mãos de Maria. E, com isso, abria caminho para uma graça incomparavelmente maior que era a de completar a sua vida de contemplativo recebendo as grandes visões de Patmos.
Podemos imaginá-lo indo pelo Mediterrâneo, numa pequena nau, acompanhado pelos soldados que o cercavam até a essa ilha, lá descendo e começando ali novamente a rezar a Nossa Senhora e por Sua intercessão, recebendo aquelas revelações maravilhosas.
Como entre essas revelações existem as relativas aos últimos tempos, sobre a história da Igreja, é bem provável que os dias contemporâneos tenham sido postos ante seus olhos.
Nossa Senhora foi dada por Mãe a São João porque era o discípulo casto, o discípulo a quem Nosso Senhor amava, mas também porque foi o único fiel que estava ao pé da Cruz quando nenhum outro Apóstolo estava presente.
Nesta época em que tantos apóstolos estão ausentes ao pé da Cruz, é natural que Nossa Senhora seja dada de novo por Mãe aos que ali estão. Estar ao pé da Cruz é ser ortodoxo, é ser contra-revolucionário, é ser escravo de Nossa Senhora nos dias de hoje, em que todo o mundo não quer mais saber nem de escravidão, nem de dedicação, nem de fidelidade, nem de pureza, nem de amor, nem de nada disso e até às vezes quer saber das coisas da Revolução.
Isto posto, nosso pensamento se volta com reverência, com confiança, com amor a São João Evangelista podendo-se acrescentar mais uma reflexão.
São João Evangelista, que ainda tinha uma missão para cumprir e que, portanto, era natural, de um lado, que quisesse morrer, mas, de outro lado, não quisesse morrer, com São João Evangelista a confiança se revelou esplendidamente! Colocado num perigo tremendo, ele entra confiante. Opera-se o milagre, ele sai para o cumprimento de sua missão, ao mesmo tempo que teve a glória do martírio de desejo.
Que Nossa Senhora nos dê esta confiança cega nEla, de tal maneira que possamos ver sempre – se uma graça nos é necessária – que pedindo por meio dEla obteremos, ainda que seja o apaziguamento do azeite ardente das tribulações, das contrariedades e das provações das quais toda alma sai com o apoio de Nossa Senhora. Essas são as considerações para a noite de hoje.

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