Sede São Milas, Santo do Dia, 17 de julho de 1971 – Sábado
A D V E R T Ê N C I A
O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.
Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.
Os senhores vão ter hoje um audiovisual que compara dois edifícios bastante dissemelhantes pela sua finalidade e pela sua história, e em função dos quais também se conhece um lance de alma interessante do povo polonês.
Em essência, trata-se do seguinte: a Polônia foi um reino eletivo, até o momento em que perdeu sua independência. Quer dizer, os reis da Polônia não eram hereditários, eram eleitos pela nobreza polonesa numa planície que há lá ─ aliás, a Polônia é uma terra de grandes planícies. Numa planície que há lá, histórica, e em que todo o sistema eleitoral era muito interessante, porque todos os nobres votavam, montados a cavalo. E, de espada, eles aclamavam o rei de sua preferência, e a votação era dada desembainhando a espada, de maneira que se sabia qual era o candidato vencedor não pelo número de votos, mas pelo número de espadas, que simbolizavam esses votos. Mas que numa época em que a espada ainda era uma arma de guerra, significava muito mais do que para hoje é a espada, que é quase ornamento.
Os reis da Polônia assim se mantiveram eletivos, até o momento em que, com a queda do império napoleônico, a Polônia foi definitivamente dividida entre três potências: a Áustria, a Alemanha e a Rússia.
E assim, ela permaneceu dividida, até o fim da I Guerra Mundial. Na I Guerra Mundial, com a derrota dos três impérios, o Império Russo derrotado, não porque tenha perdido a guerra ─ perdeu a guerra também; assinou um tratado de paz com a Alemanha ─, mas sobretudo derrotado porque ele foi minado pela revolução interna bolchevista.
Os impérios Austro-Húngaro e Alemão, derrotados na guerra e convertidos em repúblicas, as potências vencedoras, todas elas esquerdistas, mesmo a Inglaterra, que era a mais republicana das monarquias europeias da Belle Époque, elas impuseram a restauração da Polônia, mas sob forma de governo republicano.
A república não foi difícil de introduzir na Polônia, pelo próprio caráter eletivo da monarquia anterior. Não havia uma dinastia que pudesse pretender ao trono. Os reis da Polônia foram muitas vezes reis estrangeiros. Não havia, portanto, uma família na Polônia. Das famílias da nobreza da Polônia, não havia nenhuma que tivesse direito próprio e definido ao trono real.
Tudo isto contribuiu para que a República aí se implantasse, mas que ela se implantasse com um sentido nostálgico da Polônia antiga, de independência e da grandeza da Polônia antiga, e numa atmosfera de muita simpatia, pelas tradições régias da Polônia.

Aconteceu que, o Castelo Real da Polônia (em Varsóvia – foto acima; Jorge Seidl), o castelo onde tinham morado os antigos reis, foi tomado sempre pelos poloneses como símbolo da independência nacional, da soberania nacional. E mesmo quando Varsóvia, estava debaixo do poder dos russos, os poloneses olhavam com admiração e com simpatia para esse castelo real, que era o símbolo do tempo em que a Polônia tinha seus reis próprios, tinha, portanto, sua soberania política inteiramente definida.
Era um belo edifício, grande, imponente, mas era por causa disso também um alvo muito fácil para as bombas em caso de guerra.
Arrebenta a II Guerra Mundial, a Polônia foi devastada em todos os sentidos pelas tropas, primeiro nazistas e depois comunistas, que passaram de um lado para o outro. Conhece-se a resistência in extremis de um grupo brilhante de poloneses que resolveu defender Varsóvia contra os comunistas, como já a tinha defendido contra os nazistas, mas que foi traído pela Inglaterra e pelos Estados Unidos. De maneira que os comunistas puderam penetrar miseravelmente em Varsóvia, e durante vários bombardeios a que a cidade de Varsóvia foi submetida, o Castelo Real foi duramente atingido, e foi em grande parte destruído.
Estabelecem-se os comunistas na Polônia, e ali eles começam a dominar, a governar, debaixo de autoridades títeres, quer dizer, de presidentes da República Polonesa, que todo mundo sabe que não são outra coisa senão prepostos do governo comunista.
Stalin, para agradar os poloneses e para adormecer o instinto de independência sempre muito vivo na Polônia, com o intuito também de firmar com um punhal na terra da Polônia a cultura comunista, mandou edificar, como uma liberalidade do comunismo russo, um palácio da cultura em Varsóvia. Então, um palácio enorme, de grandes proporções, muito alto, uma espécie de arranha-céu, mas com um estilo um tanto oriental, euro-oriental e capaz de agradar, portanto, a sensibilidade dos poloneses.
Este edifício é odiado pelos poloneses, porque ele é o ponto de partida da propaganda comunista. A cultura para os comunistas, sabe-se que não é outra coisa senão propaganda. E que eles se utilizam dos estudos exclusivamente como meio de fazer propaganda da ideologia do partido e auxiliar a comunistização dos países onde eles se cravam. É, portanto, se se pode dizer assim, o palácio da propaganda comunista.
* A reconstrução de um palácio de reis aplaca a ira de operários descontentes
Estavam as coisas nessa situação em Varsóvia, quando se pronunciaram os levantes recentes que nós copiosamente comentamos em reuniões, quer dizer, operários se levantam em Varsóvia, sobretudo em Dantzig, hoje chamada de Gdantzk, antiga cidade livre do Sacro Império Romano-Alemão. Mas também, em outras cidades, poloneses se levantam contra a miséria a que eles estavam sujeitos.
E o levante tomou rapidamente aspectos muito graves. Gomulka, que era um títere de Moscou, foi deposto. Subiu um outro governo e esse governo quis então agradar a população. Notem os senhores que é um governo comunista à procura dos meios de agradar uma população que está sujeita ao jugo comunista há bem mais de vinte anos. Vai fazer vinte e cinco anos mais ou menos.
Chamou a atenção de todos os estrangeiros que no momento em que o governo estava lutando para conseguir um pouco de folga orçamentária, para aumentar os salários dos operários ─ os senhores sabem que a Polônia sendo comunista, todo mundo é empregado, e o patrão de todo mundo é o Estado e, portanto, um aumento de salários pesa diretamente sobre os cofres do Estado, como aqui entre nós um aumento do funcionalismo público.
Então, quando estava o governo se forcejando para aumentar os salários dos operários, e por amortecer assim o surto da revolução, de repente se vê no orçamento novo da Polônia votada uma soma pesada e importante para a reconstrução do antigo palácio real, que ainda estava em ruínas.
Interrogadas as autoridades comunistas de Varsóvia, pela imprensa, sob a razão desta reconstrução, que parecia o tipo de coisa adiável ─ primeiro salários, depois castelos ─ eles explicaram que a nostalgia que os poloneses têm de sua independência e o amor que eles têm a esse símbolo da antiga Polônia Real, era tão grande que esta reconstrução do Palácio Real de Varsóvia era feita para amortecer a indignação dos operários.
Quer dizer, os peritos de opinião pública do partido comunista chegaram à conclusão de que uma reconstrução desse palácio de reis, aplacaria a ira dos operários descontentes. E isto depois de 25 anos de regime comunista, quer dizer, de um regime que naturalmente há de ter falado tudo contra o passado da Polônia, há de ter forçado o mais possível a propaganda igualitária, de maneira que os poloneses odiassem o seu passado, as suas tradições.
Então nós temos esta situação inesperada: na Polônia, um operariado que prefere não receber um tão grande aumento de salários, mas ver reconstruído o palácio de seus antigos reis. Um operariado, portanto, cujo sentido da tradição está debaixo da opressão comunista, mais ou menos como a natureza por debaixo da neve, quando há inverno na Polônia. Quer dizer com uma camada grossa de neve, dir-se-ia que toda a natureza vegetal está morta, que um sudário foi estendido sobre a face da terra, e que debaixo daquilo tudo não há senão morte. Mas, quando vem a primavera, e que derrete aquelas neves, percebe-se que por debaixo da neve, houvera uma germinação e que a natureza está pronta a renascer. Há na primavera uma verdadeira explosão de… vegetal, quando a neve se desfaz.
Isto exatamente, é o que se dá com o senso tradicional da Polônia. Quer dizer, esse senso tradicional está encoberto por uma espessa camada de jugo comunista, que enregela a Polônia. Mas, por debaixo desse jugo, a gente vê a natureza que se prepara, os espíritos que se preparam para o rejuvenescimento. E então, os senhores têm esta maravilha de sentido histórico: uma população que acaba de se revoltar, que acaba, portanto, de expor sua vida, contra um poder tirânico que lhe nega salários, se deixa adormecer na sua pobreza, na sua cólera, pelo fato de estarem reconstruindo o palácio real.
* O homem só tem noção de quanto valem as coisas verdadeiramente grandes, quando ele as perde
Se os senhores comparam esta mentalidade, com a mentalidade do Ocidente, que diferença! Os senhores veem na Inglaterra, onde a monarquia está viva, e ainda se estadeando com toda a beleza e toda a pompa de suas tradições e de seu cerimonial, os senhores veem na Inglaterra, a rainha declarar que a ajuda de custos que o parlamento lhe deu, e que foi votada em 1952 ─ portanto há 20 anos atrás ─ pela depreciação da moeda, já não é bastante para manter as despesas da corte real.
E os senhores veem uma atonia do Parlamento em atender esse justíssimo desejo da rainha, enquanto do partido trabalhista, vozes se levantam dizendo que ela deve aplicar o seu patrimônio particular para manter as despesas da coroa. Uma coisa que é mais ou menos tão absurda como se o Presidente Médici se queixasse de que sua verba de representação não basta, e alguém dissesse: – “Venda suas casas, seu patrimônio e entre com o dinheiro. Se é para você aparecer, entre com o dinheiro, pague sua própria representação”.
Todo mundo consideraria isso um absurdo, porque a representação do chefe de Estado é uma despesa de Estado.
Na Inglaterra, entretanto, com esta bobeira, com essa moleza, com esta atonia, com esta falta de senso moral que se vai generalizando miseravelmente pelo Ocidente, os senhores estão vendo uma espécie de indiferença diante das necessidades da rainha. O que é mais flagrante é que o Duque de Edinburgh, esposo da rainha, já teve a oportunidade de informar que o patrimônio pessoal da rainha não rende o suficiente para cobrir estas despesas.
Todo mundo conhece, na Inglaterra, qual é o patrimônio da rainha. E realmente é um patrimônio bem pequeno para a situação política e para a representação que ela é capaz de cobrir. De maneira que por indiferença, por espírito igualitário, por impregnação já de algum aroma do comunismo, a Inglaterra deixa a monarquia cambalear por falta de ar, enquanto na Polônia comunista, o governo é obrigado a restaurar as tradições da era da monarquia para apaziguar o povo.
Aí nós temos um contraste, e este contraste pede um comentário de ordem política e de ordem psicológica.
Nós vemos que todas as coisas verdadeiramente grandes e úteis para o homem, ele só tem noção de quanto elas valem, quando ele as perde.
Para nós, há cem coisas na vida que nós consideramos que não constituem a felicidade, constituem apenas um modesto pressuposto da felicidade. Uma delas, é a saúde. Outra delas é a consideração dos outros. Outras delas são esses mil pequenos esforços de que nos cercamos todos os dias.
Um exemplo prosaico me ocorre, talvez até um pouco prosaico demais para a reunião, mas que diz tudo: nenhum de nós ao se levantar, se regala com o bem estar que vai sentir porque vai escovar os dentes. É um pressuposto do bem estar durante o dia, escovar os dentes de manhã. Mas os senhores já pensaram qual seria o mal-estar de uma pessoa que passasse um mês sem escovar os dentes? Quer dizer, são as coisas fundamentais às quais a gente não dá importância e que a gente só sente quanto valem, quando a gente as perdeu.
O Ocidente enlouquecido, deteriorado por toda espécie de manobras da Revolução gnóstica e igualitária, deteriorado no que ele tem de mais precioso, que é a sua mentalidade, o Ocidente perdeu a noção do valor que têm os vestígios da velha civilização cristã, que têm as suas tradições. O Ocidente se volta apenas para as coisas do progresso, ele está narcotizado pela hipnose do progresso.
Mas, pelo contrário, os poloneses que perderam tudo, estes realmente são capazes de compreender o que essas coisas significam. E eles que foram privados do direito de saborear todas as suas tradições que, no sentido próprio da palavra, foram alienados em benefício de uma cultura que não era deles, eles compreendem melhor o que essas coisas significam.
De onde então, eles terem um senso da tradição, que nós vemos que no Ocidente não existe mais.
* A misericórdia virá em maior abundância sobre os povos comunistas que têm fome de suas tradições do que sobre os ocidentais que desprezam as suas
Há uma frase da Escritura, creio que do Apocalipse, mas não tenho certeza, que diz isso ─ que prevê os pecadores: “Tornar-se-ão tão miseráveis e tão famintos, que eles são como cães famintos…”, cães no último da subnutrição, andando no lado de fora da cidade, e não podendo penetrar, até que para eles, a misericórdia faça abrir as portas da cidade.
Esta é uma reminiscência dos tempos da Escritura, em que as cidades eram fortificadas. Tinham em torno de si muralhas, e em que do lado de fora da cidade, muitas vezes vagueavam cães, que ninguém queria, e que punha para fora, e que do lado de fora da cidade, não tinham do que se alimentar. Então, ficavam vagueando à espreita de uma pequena abertura da muralha para poderem entrar na cidade para comer alguma coisa. Era o próprio símbolo da fome.
Assim são esses povos que sofrem o jugo do comunismo. São como cães, que estão do lado de fora da cidade: mortos de fome, enquanto dentro da cidade, os que estão lá, não sabem saborear a vantagem que há de morar dentro dela. Mas, diz a Escritura, a misericórdia se fará para os cães e não se dará para os homens. E aqueles que estão na opulência, não terão a misericórdia que os famintos têm. Quer dizer, aqueles que estão, como os povos debaixo do domínio comunista, na fome, na sede dos tesouros perdidos, esses poderão encontrar misericórdia. Muito mais difícil será que se faça misericórdia, para aquele que desdenha os dons que Deus benignamente ainda permitiu que ficasse em suas mãos.
Isto representa para nós uma grave advertência. Representa uma advertência sobre o papel importantíssimo da TFP, colocando em realce a Tradição como valor fundamental das civilizações. Nós despertamos exatamente um sentido que está se amortecendo, nós despertamos um valor que é co-idêntico com a própria fibra de um povo.
* Um povo que não tem amor às suas tradições é um povo morto
Quando um povo tem amor às suas tradições, ele é um povo vivo. Quando ele perde o amor às suas tradições, ele é um povo morto.
Os senhores encontram ao longo da História, povos que enfrentam as circunstâncias mais terríveis, mas que sobrevivem porque têm amor às suas tradições. Os senhores encontram povos que vivem nas circunstâncias mais favoráveis, mas morrem, porque não têm amor às suas tradições.
Nós queremos e admiramos os países de onde provimos. E conservamos com cuidado, como fatores constitutivos de nossa cultura, os vestígios históricos que eles aqui deixaram. Houve um período de desavisados, de mal entendidos, mas, logo depois, foi fechando-se a brecha aberta, a tal ponto que muito recentemente Portugal concedeu a cidadania a todos os brasileiros. Quer dizer, todo brasileiro goza de quase todos os direitos de cidadão português, desde que ele se encontre em Portugal. Creio que até mesmo está feito com os cidadãos portugueses residentes no Brasil, porque isso deve ser recíproco.
Não estou informado, mas creio que há algo de análogo nas relações entre a Espanha e as nações de origem espanhola. E é o mesmo fenômeno que se opera.
Os senhores notam uma coisa curiosa: a Inglaterra vai envelhecendo com dignidade, como uma velha de cujo corpo a vida vai saindo lentamente, mas que conserva, até o fim, algumas rendas, algumas joias e um gato. Pode até o fim conservar a sua linha e seu estilo.
Tudo isso nos leva a apreciar a tradição e a compreender então o lindo exemplo que o povo polonês nos dá.
Acho que não seria supérfluo demais, como complemento do Santo do Dia alusivo à tradição, que se projetassem então esses dois panoramas:
* Comentários so Palácio da Cultura: uma garra de Stalin fincada em Varsóvia
Os senhores têm aí uma vista de Varsóvia. E este rio é o Vístula, que banha Varsóvia. Os senhores estão notando ali uma vasta torre, que domina toda a cidade. É o tal palácio da cultura, mandado construir por Stalin. Os senhores notem que o edifício, como verão daqui a pouco, visto de perto, é atarracado. Visto de longe, entretanto, é um edifício que tem algo de esbelto e de esguio com aquele cone muito elevado e que não tem, portanto, o caráter “chatarrão”, pesado, inumano que têm em geral os edifícios comunistas. Já é uma concessão provavelmente ao espírito polonês. Mas os senhores notam, de outro lado, que de vez em quando ─ é raro, é raro, mas acontece ─ o demônio pisa na própria cauda.
Faltou a Stalin, tato. Ninguém vai fazer um presente desses que lembra um déspota estrangeiro, como está este aqui dominando a cidade de toda a altura, porque evoca a ideia de domínio. E mais parece uma garra de Stalin fincada em Varsóvia, um corpo deitado, onde um monstro deixou uma garra encravada, do que qualquer outra coisa.
Os senhores podem imaginar a raiva dos varsovianos abrindo a janela em qualquer direção e encontrando o Palácio da Cultura no fim de todos os horizontes. É um coisa verdadeiramente pavorosa.
Aí está a linda e triste cidade de Varsóvia.

O Palácio da Cultura em Varsóvia (foto Jorge Seidl)
Aqui é o Palácio de perto. Toda a comparação é perigosa, mas a mim me lembra um pouquinho ─ não sei se lembra aos senhores, edifícios do tipo Banco do Estado ou do Martineli. A meu ver, mais o Martineli do que o Banco do Estado, Ministério da Guerra no Rio também, exatamente.
Os senhores notarão que a massa brutal que está aí, houve a preocupação em disfarçar a brutalidade dela por meio de uma porção de precauções. Poucas coisas indicam mais a brutalidade de certas massas arquitetônicas, do que o contato direto com o solo. Quer dizer, quando o arranha-céu é perpendicular e dá no gramado raso ou na rua rasa, os senhores têm a feiura inexorável… Aqui eles procuraram disfarçar isto por meio dos corpos de edifícios sucessivamente mais baixos. Os senhores estão vendo um grande corpo central, e depois dois corpos que o flanqueiam, nos quatro lados.
E depois, ainda mais para baixo, outras construções menores. Depois, mais para o alto, os senhores notam bem no topo do edifício uma série de construções que terminam numa espécie de lança enorme que dá a impressão assim de ponta de capacete de um soldado alemão do tempo do Kaiser, ou de uma lança cravada na Polônia, como quem diz: “quem domina sou eu, e quem manda sou eu”.
É engraçado que para conciliar-se com o gosto polonês, eles foram obrigados a, de algum modo, admitir o princípio de hierarquia dentro desse edifício. Porque há uma série de degraus. Há um degrau mais baixo, que são esses edifícios com colunatas, há depois essas meias-torres nos flancos, depois há o grande edifício central e mais ainda no alto, os senhores notam um polígono vagamente lembrando uma esfera. E depois, a ponta e a ponta da ponta. Quase que se diria que o princípio monárquico está tosca e cafajestemente expresso no edifício.
Este é o Palácio da Cultura, que apesar de tantas precauções, os poloneses odeiam. Os senhores vejam a precaução da propaganda comunista mais recente: para dar a ideia de uma vida idílica no regime comunista. Então, em vez de eles colocarem aí, por exemplo, o lugar vazio ou gente trabalhando que passa de um lugar para outro, está um casal fazendo romance. A mulher ainda tem um espécie de maxi-saia, ou ao menos uma midi-saia, que seria edificante para grande número de burguesas do Ocidente.
Castelo Real, em Varsóvia (foto de Jorge Seidl)
