Pugin e a alma católica da Inglaterra profunda. A arquitetura como expressão da fé em diferentes povos

Santo do Dia, 22 de abril de 1970

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

Augustus Welby Northmore Pugin (1812-1852)

Excelência (Dom Mayer) hoje faz o “Santo do dia”.

(Dom Mayer: Se for Santo, eu faço…)

(Dom Mayer faz a leitura de uma ficha cujos dados foram extraídos de um livro de Claude Williamson):

“Welby Pugin era filho de um arquiteto francês de origem nobre, emigrado para a Inglaterra durante a Revolução de 1789. Nasceu em Londres a 1º de Março de 1812. Revelou-se logo notável desenhista, seguindo a carreira do pai, embora um pouco tardiamente, pois também se sentia muito atraído pela vida do mar. Fez várias viagens ao continente, especialmente à França, para estudos e observação. Educado pela mãe inglesa num rígido calvinismo, a arte medieval o levou à conversão. Assim, em 1834, Pugin tomou uma decisão então quase inédita na Inglaterra: reingressou na Igreja Romana e escreveu o motivo: ‘Fiquei perfeitamente convencido de que a Igreja Católica, Apostólica, Romana é a única verdadeira. Aprendi as verdades da Igreja Católica nas criptas das velhas igrejas e catedrais europeias. Procurei verdades na moderna Igreja da Inglaterra e vim a descobrir que ela, desde que se separou do centro da unidade católica, tinha pouca verdade e nenhuma vida. Dessa maneira, e sem que tivesse conhecido um só sacerdote, ajudado apenas pela graça e misericórdia de Deus, resolvi entrar na sua Igreja’.

“Não foi fácil para um rapaz de dezenove anos e no início de uma brilhante carreira, adotar essa decisão. Sabia que isso significava perda de trabalho e posição social. Mas ele o quis realmente. Fez-se católico e dedicou-se então de corpo e alma ao renascimento do gótico na Inglaterra, pois, dizia ele, era a única arte que considerava realmente cristã. Ele o conseguiu, mas após sua morte, sua obra foi traída pelos protestantes. Muitos dos edifícios que construiu sofreram reformas que mudaram propositadamente o estilo original. E muitos notáveis tiveram seu nome apagado e substituído por nomes de arquitetos anglicanos. Um exemplo é o Parlamento de Westminster, do qual durante muito tempo julgou-se que somente alguns detalhes triviais eram de Pugin. Agora sabe-se com certeza que é dele toda a fachada que dá para o rio e a torre do relógio.”

Oh! Então, tudo!

(D. Mayer continua a leitura da ficha)

“Pugin não só se dedicou ao renascimento do gótico na arquitetura, mas também fazia questão que nas igrejas que construía as cerimônias sagradas fossem cheias de pompa e que só se usasse a música gregoriana. Por exemplo, uma testemunha que assistiu a Missa inaugural da capela de Oscott afirma que se sentia como num ambiente de sonho quando a luz do sol começou a jorrar através dos vitrais, fazendo as paredes resplandecerem em ouro e púrpura. Noutra ocasião, também na primeira Missa de uma igreja em Derby, o lorde que construiu o templo, por conselho de Pugin, negou-se a permitir que usassem magníficos paramentos de ouro que ele doara, a não ser que se dispensasse um enorme coro polifônico que incluía orquestra e mulheres, e se cantasse o gregoriano. Os paramentos não foram usados, porque o bispo de (?) que dirigia a cerimônia e que odiava Pugin e o gótico, negou-se a atender o pedido.

“Foi notável o trabalho desse homem, esquecido por mais de um século dos católicos ingleses. Aos 26 anos, nomeado professor de história Eclesiástica em Oscott, Pugin conciliou suas aulas com enorme quantidade de construções, desde simples capelas até igrejas de grande porte. Também restaurou grandes obras de arte mesmo na Bélgica. Compreendia profundamente o espírito de cada edifício. Assim, ao reerguer o antiquíssimo mosteiro cisterciense de (?) fê-lo voltar à antiga severidade de estilo. Outras igrejas, ao contrário, enchia-as do que ele chamava o ”luxo de Deus”; pois dizia: há muitas igrejas católicas inglesas que se assemelham a salões e capelas metodistas. E sentia profundamente quando não sabiam usar as construções convenientemente. Queixou-se certa ocasião de que tudo quanto fazia na Irlanda era destruído, pois o clero não sabia usar as igrejas corretamente para o culto. Esse homem que dizia que arquitetura e religião para ele eram uma só coisa, e que se orgulhava quando o chamavam “arquiteto católico” teve uma vida realmente curta, não atingindo aos 40 anos. Foi profundamente odiado pelos seus contemporâneos protestantes e não menor número de eclesiásticos católicos que o consideravam anti-moderno e de espírito medieval. Deixou magníficos desenhos, de estilo inconfundível, reveladores de sua arte e de seu gênio e comprovantes seguros de como sua obra posteriormente foi transformada”.

Nunca pensei que esse Claude Williamson tivesse capacidade de escrever uma coisa dessas. Eu tenho esse livro, nunca li. Mas é um maravilha de ficha!

(D. Mayer: Pois é.)

Eu acho que como Pugin foi perseguido por um bispo, ele merece ser elogiado por um bispo. De maneira que sou todo ouvidos [para os comentários de D. Mayer]… Espero a reparação da hierarquia…

(D. Mayer: Depois dessa ficha, eu não tenho nada que dizer. Que comentários que eu vou fazer? Vou dizer que agora nós estamos no tempo em que os Pugins estão sendo expulsos da Igreja? Quem não sabe disso? nem que nossas igrejas estão se transformando, como ele dizia aqui, em capelas metodistas, ou piores ainda do que isso? Verdadeiros salões de baile? Isso é uma coisa em si evidente. Essa ficha de um lado, é consoladora: porque mostra como uma pessoa pode, num ambiente hostil, terminar compenetrando-se profundamente do que é o sentido católico e, portanto, é uma coisa que nós, apesar de toda a miséria em que vivemos, pela misericórdia de Deus, podemos aspirar que virá, ou melhor, aspirar pedir a Deus Nosso Senhor uma compreensão igual.

(Outra coisa que demonstra essa ficha, é que na Igreja não há nada secundário. Muita gente poderia pensar que, afinal, uma igreja, tanto faz, desde que seja funcional e, portanto, todo mundo veja o padre no altar, todo mundo ouça o que padre diz, se é funcional isso de ter duas torres ou uma só, ou ser quadrada, ou ser redonda, isso é secundário. Está mostrando que não é secundário. O espírito católico se encarna de tal maneira nesses edifícios, que esse homem se converteu através do um edifício que tinha o espírito católico. Ele mesmo declara que se converteu porque viu a verdade católica numa igreja; na cripta das antigas catedrais góticas da Inglaterra. Depois, também nos mostra o seguinte: a verdadeira cristandade é a da Idade Média. Porque depois do estilo gótico, não há mais estilo católico. Uma pessoa, por exemplo, que vá a São Pedro; e é uma grandiosidade São Pedro. Quando eu cheguei a São Pedro, fiquei literalmente achatado, quando vi aquela enormidade, aquela grandiosidade. Mas aquilo não tem o espírito católico. Aquilo é uma coisa naturalista. Aliás, a decoração de São Pedro é uma decoração que reproduz bem o espírito em que foi concebida aquela igreja. Católica, portanto, é só a Idade Média).

Eu não tenho nada que dizer diante de seu comentário…

Não, não, não. Vossa Excelência não tem nada que dizer diante dele. Eu não tenho nada que dizer diante de seu comentário. É uma regra de dois: A está para B,  assim como B está para C.

(D. Mayer: …)

Bem, depois da obediência da hierarquia é razoável que venha a obediência do laicato. De maneira que vou dizer uma palavra a respeito disso.

 

Tony Moorey, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

Em primeiro lugar, uma reminiscência: quando estive em Londres, e que vi a fachada de Westinster, e depois vi a torre, também tive uma sensação – eu não sabia, pensei que aquilo fosse estritamente medieval – tive uma sensação um pouco parecida com que a que tive com a Sainte Chapelle. Um pouco parecida apenas, mas numa pessoa pouco própria a sensações como sou eu, este “pouco parecida” quer dizer qualquer coisa.

Pensei, vendo aquilo, o seguinte: se pode dizer que aqui a Igreja Católica deixou algumas das melhores marcas de seu próprio pensamento e de sua própria alma. De tal maneira aquilo me pareceu acertadamente católico. Retamente católico, acertadamente católico.

Por causa do que? O que tinha aquilo de especial? Não era, por exemplo, o que tem de especial a catedral de Colônia. A catedral de Colônia tem qualquer coisa assim de feérico, é uma espécie de explosão de pedra, de uma grandeza extraordinária, onde a razão não está propriamente tão presente quanto a imaginação, e a imaginação germânica no que ela tem de categórico. Não é uma imaginação suave, poética no sentido oco da palavra, mas é uma imaginação de grandeza, de uma pessoa que queria construir uma epopéia grandiosa e por algo de grandioso marcar todos os séculos com uma nota de grandeza que fosse mais do Céu do que da terra; e onde portanto, também as harmonias, as simetrias e as ordens que na terra são perceptíveis não estivessem presentes. Não é dizer que a catedral de Colônia seja assimétrica. Não é dizer que ela tenha algum defeito nesse ponto. Mas é fazer outra coisa: essa não é a nota saliente dela. A nota saliente dela é qualquer coisa de fantástico, de fantasioso, de imaginativo, que o espírito possante conseguiu realizar.

Na catedral de Notre-Dame nós encontramos exatamente a conjugação da fantasia com a razão. A gente diria que a fantasia imaginou qualquer coisa de extraordinário e que depois a razão colocou em ordem. E que a razão introduziu simetrias, introduziu bons sensos, harmonias quase clássicas ali dentro, sem tirar nada que o medieval tinha de extraordinário.

A fachada de Westminister e a torre o que representam dentro desse conjunto?

É uma coisa diferente. Não é a afirmação predominante da fantasia, nem a afirmação predominante da razão, mas é uma conjugação de dois outros valores que estão numa outra ordem de idéias: a força e a delicadeza.

Há muita delicadeza naquela fachada. Ela é toda feita de linhas longas que se repetem, e de um grande desdobramento, grande amplitude de horizonte, mas que não tem bem o élan de Colônia, nem a espécie de harmonia superlativa de Paris, mas que tem a categoria própria: uma grande dignidade, uma grande elevação, uma grande nobreza, mas com alguma coisa de sereno, de senhor de si e de afável, ao mesmo tempo de sacral e de sério, que reúne extremos opostos. E toda obra de arte precisamente quando reúne extremos opostos e que até um espírito comum poderia pensar que são contraditórios, quando reúne isso numa fusão, realiza algo de supremo no seu próprio gênero. E é o que a fachada de Westminister, a meu ver, realiza.

A ideia de grandeza é mais da grandeza estável, da grandeza que não vai mais empreender nada, mas que não começou a decair e que se senta sobre seu próprio poder e se põe a meditar. É uma grandeza diferente da grandeza que a história da Inglaterra realizou depois.

A mesma coisa é a torre de Londres. Não a torre museu, torre de Londres, mas a torre do Parlamento, que é uma verdadeira maravilha e que merece ser justaposta a esse edifício. A ter uma torre, deveria ser daquele jeito: tão coerente, tão lógica, tão bela, mas com essa doçura, essa suavidade dos ingleses, que o gênio católico colocou ali pela mão desse homem que soube interpretar os edifícios nos seus planos originais e soube comunicar um sopro católico aquilo tudo.

Os senhores observem alguns aspectos dessa realidade.

A primeira é a seguinte: como isso é diferente da imagem da Inglaterra que se apresentou depois. Essa Inglaterra não é a Inglaterra de Westminister. Essa Inglaterra não é a Inglaterra nem da fachada, nem da torre. É uma Inglaterra que o protestantismo deformou porque nela o senso monetário dominou completamente. E a gente vê que o que tem no espírito inglês de antes do protestantismo é exatamente a ausência desse espírito monetário. É uma Inglaterra feita para conquista de ordem cultural e muito menos para conquistas de ordem material. As conquistas na ordem material, Deus, na ordem da Providência, tinha dado a dois outros povos que se tornaram conquistadores para a fé, antes de se tornarem conquistadores para o dinheiro e que foram a Espanha e Portugal.

A expansão missionária da Europa deveria caber normalmente à Espanha e Portugal. E a “grandeza” dessa outra Inglaterra consistiu em absorver o império colonial desses dois países e de os reduzir absolutamente a nada. Mas essa já não é a Inglaterra do Parlamento; essa não é a Inglaterra de Westminister. É uma outra Inglaterra…

Os senhores veem, de outro lado, a luz primordial e o pecado capital dos povos como coexistem.

Dentro dessa Inglaterra, entretanto, há um respeito à outra Inglaterra primeira, uma nostalgia da outra Inglaterra primeira. E uma idéia de que não era preciso romper inteiramente com aquilo, é a Inglaterra que a alma desse homem soube compreender e representar. É um filão que ainda está vivo na Inglaterra de hoje e onde uma TFP poderia realizar verdadeiras maravilhas.

Mas o que uma TFP precisaria para realizar essas maravilhas?

Era preciso compreender, como Pugin o fez, a alma inglesa, e que soubesse tocar esses pontos da alma inglesa com uma propaganda bem jogada. Não era apenas ter a tática da propaganda, mas é compreender a luz primordial; e através de sua luz primordial, que não abandonou esse povo, quais são os pontos de sensibilidade que devem ser tocados, os pontos em que essas almas são sensíveis e dóceis para o bem, que são aproveitáveis por uma propaganda. E isso é – em matéria de opinião pública – o mais alto dos mais altos conhecimentos. O resto é propriamente uma técnica. Mas o supra sumo e que exige um espírito profundamente católico por onde a pessoa se torna capaz de discernir em cada povo qual é a característica que ele tem. E, na sua característica, a luz primordial e o pecado capital. Isso é o ponto de partida para a atuação quer sobre os indivíduos, quer sobre os grupos humanos, quer sobre as coletividades e as grandes nações.

O assunto da luz primordial é tão delicado, que até cada bairro tem sua luz primordial. Cada bairro, que é uma especificação da luz primordial da cidade, que é uma especificação da luz primordial do país. Há uma luz primordial desse bairro, como existe também um pecado capital desse bairro.

E para obter essa compreensão, isto exige apenas uma coisa: uma enorme vontade de ser fiel a uma grande devoção à Nossa Senhora. Com isso a gente consegue. Mas é questão de a gente querer mesmo! Querer isso mais do que tudo na vida. Querer isso mais do que o mando, mais do que a glória, querer isso mais do que toda coisa que não seja a nossa própria santificação. E ver nisso um modo de realizar nossa própria santificação. Aí eu acredito que todos os senhores terão essas graças.

Os senhores estão vendo em Pugin um homem que soube tocar, por meios simbólicos, a alma de seu país. Os senhores viram que ele soube realizar monumentos que muitos até protestantes admiraram. Ele tanto soube tocar, que foi odiado. E um indivíduo nunca pode ter a certeza de que ele está acertando, enquanto não ouviu o gemido ou uma imprecação do adversário que é sempre tão sensível. Ele tem que estar com o ouvido pronto para ver o que os filhos das trevas – tão mais espertos, infelizmente, do que os filhos da luz – costumam dizer. Então, através disso, esse homem poderia saber se ele estava acertando ou não.

Ele foi odiado por alguns protestantes, foi odiado por muitos católicos, sobretudo pelos católicos irlandeses.

Bem, para terminar eu creio que o nosso grande escavador de assuntos chave da história e, portanto, de assuntos chave da cultura, Dr. Fernando, se der com os olhos em algo sobre esse homem seria muito interessante que nos indicasse.

Acho que devemos tomar desde já uma resolução: mandar vir da Inglaterra os desenhos que Pugin deixou e que parece que são de obras não realizadas. Seria uma glória nós – algum dia – mandarmos construir uma coisa que ele sonhou e que não chegou a realizar. Seria a mais alta homenagem a um homem tão católico; seria digno da TFP retomar esse fio que caiu cortado no chão, mas a partir do qual se pode ainda tecer um grande futuro. De maneira que eu pediria para ver como poderíamos fazer, numa reunião da Comissão do Exterior, para encontrar esse fio e publicar, divulgar isso e eventualmente construir alguma coisa nesse sentido.

Por exemplo, como seria bonito, senhor Caio Xavier, se encontrássemos dele uma planta ou um desenho que pudesse inspirar nosso auditório. Nós teríamos então realizado um verdadeiro sonho. Quem não procura de vez em quando realizar coisas sonhadas pela fé, esses não são homens.

Vamos pedir a Nossa Senhora que nos ajude neste empreendimento. Vamos pedir a Sua Excelência o favor de encerrar.

Clique na imagem acima e contemple mais de 200 trabalhos realizados por Pugin

(no site https://www.meisterdrucke.it/artista/Augustus-Welby-Northmore-Pugin.html#alle-werke, visto em 17-8-2026)

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