Por que alguns padres tradicionalistas se opõem à TFP? Dom Antônio de Castro Mayer e a obediência

Auditório do Clube Espéria, Conferência no Encontro de Correspondentes Esclarecedores, 4 de agosto de 1985 (perguntas e respostas – continuação)

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

Passo daí a uma outra pergunta que é a seguinte: por que há uma divisão entre os padres tradicionalistas? Uns são a favor da TFP e outros são contra. Eu gostaria de saber.
Eu aprecio as perguntas embaraçosas. Esta é uma pergunta embaraçosa.
Mas, o que querem? Tanto eu vivi no meio dos embaraços e das lutas que acabou sendo para mim um hábito… Eu tenho a impressão que no dia em que eu tivesse uma vida sem embaraço e sem luta, eu perguntaria a Nossa Senhora porque é que eu estou na terra. Já de uma vez é melhor sair! Fazer o que?
Eu aprecio. A pergunta é embaraçosa, e eu respondo. É até agradável desatar um nó. Eu digo o seguinte: eu também não sei…  Como a objeção é deles para conosco e não nossa com eles, eu não estou autorizado a dizer. Perguntem a eles.
À distância as pessoas se fazem da TFP, e por concomitância, do presidente do Conselho Nacional dela, se faz uma ideia errada.
Eu acho que ninguém imagina que uma festa da TFP é como esta, por exemplo. Ou que um contato meu com os Correspondentes da TFP é como este. Tão cordial que eu estou conversando com a sala inteira e com as galerias, com as tribunas. Há uma conversa íntima com dois mil, conduzida assim à vontade, despreocupadamente. Tão despreocupadamente que ontem eu não perguntei bem quantos estavam na sala. Eu falei mil. Me disseram que eram mais ou menos dois mil. E retifico com alegria. Dois mil, está acabado, vamos continuar a conversar. É assim, uma conversa assim como o pai com os filhos, vamos falar… [aplausos]
Os Senhores devem estar pensando na partida dos ônibus, todos.
(Nããaãoo..!!!)
Por exemplo, está aí. Eu dizer uma coisa e o auditório responder “nãããoo”. Aí fora não se imagina. Acho que imaginam que eu estou sentado num trono, batendo murros, os Srs. apavorados e admirados… (risos) Risada, nunca na minha presença! Eu os fulminaria não sei com que poderes ignotos, eu os fulminaria.
O que é que poderia a conhecer?
Eu, mais de uma vez, eu mandei oferecer a eles… E há um personagem, cujo nome eu declino com todo respeito, me refiro com respeito a ele que o católico deve ao sacerdote, à Sua  Excelência Reverendíssima o Sr. Dom Antônio de Castro Mayer, eu mandei oferecer mais de um vez um contato pessoal, uma conversa.
Eu só pedi uma coisa: é que fosse uma conversa metódica, em que as teses pró e contra pudessem desenvolver-se com todo o método de uma exposição científica. E pedi também, isso eu pedi, que fosse gravado de parte a parte. Mais nada.
Apesar de minha evidente dificuldade de locomoção que me afeta desde desse desastre de automóvel [fevereiro de 1975], eu iria a Campos de boa vontade, na hora indicada, na data marcada e conversaria. E não teria vergonha, ao contrário do que muitos supõem, se me apontassem um erro, me convencessem de que esse erro é erro pela doutrina católica, segundo a doutrina católica, de voltar atrás.
O arquivo da TFP está cheio de minutas de livros meus, minutas de artigos meus, em que eu submetia à S. Excelência antes de publicar, e que tem correções dele. Os senhores vão ao livro e encontrarão que todas as correções foram atendidas. Eu agradecia de todas as vezes muito. E nunca ninguém me viu queixar de uma correção.
Mas ainda, quando se tratavam de coisas que não eram de doutrina, que eram de mera oportunidade etc., ele pedia modificações, discutia-as comigo com muita largueza, é verdade, mas a opinião dele prevalecia.
Eu me lembro de um comunicado que nós fizemos, da TFP, respondendo a um edital, era um comunicado também da CNBB reunida em São Paulo, contra nós, a propósito do divórcio ou da Reforma Agrária, já não me lembro bem. Eu publiquei uma resposta no “Estado de S. Paulo” de uma página inteira. E submeti a Dom Mayer, ao Sr. Dom Mayer o texto disso.
Ele leu e na hora em que combinamos o encontro na sede da TFP, ele estava hospedado em cima, desceu para falar comigo e me disse com muita amabilidade que ele tinha nada menos que quarenta correções a fazer. Eu disse: pois não, vejamos. Todas as correções eram expressões que ele queria atenuar, que ele queria arredondar, para tornar mais afável o comunicado. Em quase tudo eu atendi. E no que eu não atendi, não atendi porque ele concordou comigo. Não era questão de doutrina.
Mas o verdadeiro católico gosta de obedecer, o verdadeiro católico gosta de admirar, o verdadeiro católico gosta de sentir-se pequeno diante daquilo que é grande, sentir-me, portanto, pequeno diante da sabedoria eclesiástica, admirar o estado eclesiástico, admirar a condição sacerdotal, admirar a estrutura hierárquica dada à Igreja por Nosso Senhor Jesus Cristo, mas isso é a essência de nosso espírito! De nosso espírito católico, é o espírito que recebemos da Igreja.
Isto eu faria com naturalidade, com trasbordamento de satisfação, agradeceria: fui corrigido, graças a Deus, eu vou ainda na minha comunhão rezar pelo Sr. para agradecer o bem que me fez, abriu-me os olhos! Para isso Vossa Excelência é bispo, para isso o Sr. é padre, para isso eu isso eu sou leigo.
O primeiro livro que eu escrevi em minha vida foi para defender o Brasil católico contra os assaltos do progressismo nascente. O progressismo nascente, naquele tempo já, sustentava que padres e bispos não têm uma verdadeira função governante sobre a Ação Católica; só tem uma missão de conselheiros. Eu escrevi o livro contra isso! Lá está “Em defesa da Ação Católica”. Como é que eu haveria de, a esta idade, renunciar a um tão nobre ideal?! É um verdadeiro estapafúrdio!
Bem, eu mandei oferecer. Não quiseram.
Não pensem que, com isso, eu estou culpando a eles. O acontecer humano é cheio de refolhos, é cheio de incógnitas. Sei lá atrás disso o que é que há.
Eu quero supor que sejam coisas  muito razoáveis. Admito até que uma parte disso  já tenha sido publicado em nossos livros posteriormente. Mandei-lhes esses livros. Admito que alguma coisa, que não sei o que é, esteja para publicar. Mas o fato concreto é que eu não sei por que é.
Se os Senhores quiserem saber, perguntem a eles, mas não esqueçam de contar com que respeito e com que cordialidade o assunto foi tratado por mim.
Eu não quero senão a união. E para a verdadeira união tem que haver a verdadeira obediência. O que eu quero é a obediência. E por isso gosto de obedecer.

Nota: Para diversos documentos relativos àquele Prelado de Campos, clique aqui.

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