Por que a TFP não manifestou maior alegria com a vinda de João Paulo II ao Brasil? – Fidelidade ao Papa e resistência à confusão

V Encontro de Correspondentes Esclarecedores da TFP, Buffet Umberto (São Paulo), 3 de agosto de 1985 – Perguntas e respostas

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

Montagem fotográfica: Plinio Corrêa de Oliveira oscula a imagem de São Pedro que se encontra na homônima basílica no Vaticano, por ocasião de sua última viagem a Europa, mais precisamente no dia 27 de setembro de 1988. E vista parcial do auditório no Buffet Umberto, na capital paulista, por ocasião de Encontro de Correspondentes e Esclarecedores da TFP.

…Minhas senhoras, meus senhores, senhores componentes da mesa.
Eu devo, antes de tudo, começar com uma explicação. Essa explicação, felizmente, é um louvor.
Eu toda a vida, em minha longa existência de professor, adotei uma regra na apreciação da eficácia das aulas que era a seguinte: na medida em que houvesse perguntas durante a aula, e mesmo objeções, nesta medida a aula estava sendo útil. Quando eu assistisse aulas onde os alunos não tinham nada que objetar, nada que perguntar, não queriam saber nada além do que tinha sido dito, e estavam contando as horas, para ver que horas podiam escapar – esta teria sido uma aula fracasso.
Considerando assim, não comparando os nossos contatos aqui a aulas, mas enfim, tem isso de análogo, que é um que fala e outros que ouvem – o aproveitamento dos senhores é este. [o SDP mostra o volume das perguntas]
Eu me lembro de ter lido há pouco tempo atrás, não propriamente uma biografia, mas em outro livro a citação de uma biografia de um santo canonizado no século passado, cujo nome eu não quero indicar, porque vai parecer o nome da Congregação. E aparece aí uma ligeira censura dele à própria Congregação. E isso eu não quereria. Faz provavelmente parte das memórias íntimas da Congregação, e eu não quereria que transparecesse em público.
Mas ele dizia para a Congregação dele – uma Congregação de uma alta finalidade, como não poderia deixar de ser uma [Congregação] fundada por um santo – ele dizia: “É pena que os senhores não me perguntem mais. Eu sou o fundador – dizia ele – eu é que, tendo as graças de fundador, posso dar explicação sobre a finalidade de nossa Congregação, os métodos etc., como ninguém podem dar”, dizia ele.
“Ora, os senhores me perguntam pouco. E eu morro, e eu levo embora comigo, coisas que Deus a outro não dará!”.
Os senhores entendem que, por esse critério, a magnífica quantidade de perguntas que me mandaram, suporia que eu tivesse o prazer, e os senhores tivessem a paciência, de passarmos um mês juntos. Em algum belo lugar, bem entendido com muitíssimos alojamentos, e eu quando falo coisas dessas, penso sempre em um lugar à beira mar… eu não posso compreender… – para mim, é uma coisa toda subjetiva – um bonito panorama em que o mar não esteja presente – um belo panorama de beira-mar, desses beira-mar vazios ainda do Brasil, e tão bonitos à espera de homens de bom gosto que os povoem e que saibam entender o que Deus pôs lá de maravilhas – então passarmos todos lá, conversando, conversando, conversando; a julgar pela ótima reatividade de alma que essas perguntas representam, quando terminasse esse mês, eu estaria me lamentando que não era possível passar outro mês, porque as perguntas teriam vindo ainda mais numerosas.
Fazendo sobre essas perguntas uma apreciação de conjunto, e mais profunda, que não se atenha apenas à consideração do número delas, a impressão é ainda mais favorável. Porque as perguntas são sobre os mais variados assuntos.
[…tomam profundamente a sério]: a ortodoxia, a verdadeira doutrina da verdadeira Igreja, como vem tradicionalmente sendo transmitida pela Sagrada Hierarquia, há dois mil anos.
Isto tomam profundamente a sério, e notam discrepâncias, notam choques, notam diferenças. Algumas pessoas também – eu tive perguntas nesse sentido – notam similitudes, e me perguntam então por que nós falamos tão prevalentemente das discrepâncias e não falamos bastante das similitudes etc., etc. Mas, querem, com seriedade, situar-se em função do mundo contemporâneo, mas retilineamente, em harmonia com aquilo que é o verdadeiro foco da luz que Nosso Senhor Jesus Cristo deixou no mundo, a doutrina tradicional da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
Acontece que nós não queremos outra coisa. E que o denominador comum entre nós, fundamentalmente é o desejo de sermos católicos. Embora saibamos que — e nisso entra um grande número de perguntas, a questão dos métodos usados pela TFP – embora nós saibamos que se podem ter opiniões diferentes, a respeito de métodos, embora nós saibamos que pode-se ter, também, opiniões diferentes a respeito do modo de considerar esta ou aquela situação concreta dentro do mundo contemporâneo, nós temos a certeza de que a chave que nos une a todos, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a pedra de cúpula, pedra de base em função da qual todas as coisas se orientam. E nessa certeza, nós vamos tratando dos vários assuntos que temos que abordar.
Esse fato de serem esparsas por vários temas as perguntas, obrigou a um trabalho de classificação tão difícil, que eu levei umas duas horas, lendo e classificando isto que está aqui.
Quando eu li e classifiquei, chegou-me isto. [outro bloco] E eu resolvi trazer, para eu dizer aos que assinaram isto, muito obrigado. Pelo que mandaram e pela paciência que terão, porque eventualmente as suas respostas não figurarão aqui.
Aos que estão aqui: muito obrigado. Porque mandaram. Muito obrigado pela paciência que tenham em rever as suas próprias posições em função das explicações que eu dou no intuito de tornar cada vez mais profunda e íntima a compreensão entre nós.
Então, eu começo por tratar de temas diversos, antes de passar para temas que foram agrupados, segundo mais ou menos a natureza da meta da pergunta.
Então, há, desde logo, uma pergunta espinhosa. E a pergunta é a seguinte: “um Correspondente de Minas Gerais, que conhece a TFP desde 1964, disse que está muito confuso em relação a tudo. Porém, não entende bem qual é a atitude da TFP em relação ao Papa João Paulo II, e porque não foi mais calorosa a recepção da TFP a ele, quando veio ao Brasil”.
Tema espinhoso entre todos. Porque, dado que a TFP tem para com a Santa Sé, e, portanto, com o Santo Padre, a posição de devotamento e de entusiasmo que os senhores conhecem, pode-se perguntar se, estando ele no Brasil, o nosso recebimento correspondeu ao auge desse entusiasmo, ao auge desse devotamento. E eu estou aqui, com muito contentamento para expor o que é que, como eu explico, qual é a resposta que eu tenho que dar a essa pergunta; mas de outro lado de um modo mais ou menos breve, para não ter que tomar na explicação do assunto uma extensão de tempo verdadeiramente incalculável.
Quando o Papa, creio que Leão XIII, morreu, no século passado, portanto, ele foi substituído, pela eleição dos cardeais, por um novo papa italiano, o Conde Mastai-Ferretti, cardeal também, que tomou para si o nome de Pio IX.
Este cardeal era conhecido como uma pessoa simpática às correntes liberais do tempo dele. Ele entendia que essas correntes liberais eram constituídas por pessoas que tinham sido muito arduamente combatidas anteriormente pela Igreja, por causa das ideias maçônicas, ateias, voltairistas, materialistas, liberais no pior sentido da palavra imoral – pelos pontífices anteriores. E que as condenações anteriores tinham bastado para mostrar bem a esta gente que estavam erradas.
Mas que também havia na alma dessa gente um lado bom. Havia um lado de afeto, havia um lado sensível, que talvez se deixasse agradar por uma atitude de generosidade de um Pastor novo! Que depois de tanto esgrimirem eles com antecessores dele no trono de São Pedro, fossem tocados na sua alma pela bondade de um papa que, grande, lhes abrisse os braços, e lhes dissesse: “Vós sois ovelhas e eu sou Pastor, vinde, portanto, a mim!”
Ele subiu ao trono pontifício e inaugurou um regime, que feitos os descontos, as analogias etc., etc., nós hoje chamaríamos de “abertura”, nós hoje chamaríamos de “distensão”. Ele mandou soltar vários presos políticos; deu uma tal ou qual liberdade de propaganda às idéias liberais, ele tomou algumas atitudes que significavam que em algum modo ele considerava que essas pessoas tinham grandes qualidades, que deviam ser olhadas assim também.
Em breve, para lhes dizer, que não sobrou muito tempo depois de ele ter subido ao trono pontifício – ele era de tal maneira ovacionado por todos os inimigos da Igreja, ele era de tal maneira aplaudido por todos os inimigos da Igreja, que fazendo ele uma excursão pelos Estados Pontifícios, numa prisão pública de Roma – o Papa era naquele tempo o rei de Roma e dos territórios vizinhos; além de Sumo Pontífice, ele era rei no sentido temporal da palavra. E, portanto, eram os juízes do Papa que tinham mandado prender aquela gente.
Quando ele passou, os prisioneiros obtiveram licença de colocar no alto da prisão, um enorme letreiro: “Viva Pio IX!” Quer dizer, entusiasmados com aquele homem que estava governando a Igreja.
Esta liberdade tocou essa gente? Esta estrategia deu resultado? Não vou eu fazer aqui o julgamento dessa estrategia. Eu digo o que se passou e depois qual foi a atitude que ele tomou.
O que é que se passou? É que essa gente, com os cotovelos livres e com a possibilidade de conspirar à vontade, conspirou. E armou nada mais nem menos do que uma enorme revolução republicana em Roma, tendente a que Roma se proclamasse independente do Papa, como Estado pontifício, constituísse uma república, como acabo de dizer, e o Papa ficasse mais ou menos escorraçado de Roma, ou de todo escorraçado de Roma. O programa deles não era inteiramente definido.
O fato é que, aproveitando ainda a liberdade que eles tinham obtido, eles mandaram vir armas, mandaram vir bandidos, sicários, de outros lugares da Itália, e fizeram a revolução, começando por atacar o Quirinal, que era o palácio onde naquele tempo residiam os papas.
Pio IX teve que fugir em condições dramáticas, numa carruagem particular, com uns óculos escuros – naquele tempo ainda se usava pouco óculos escuros, isto dava para disfarçar uma pessoa – e com dificuldades extraordinárias, ele atingiu a fronteira dos Estados Pontifícios com o reino de Nápoles. Ali o encontrou o rei de Nápoles, muito cortesmente, deu-lhe hospedagem, mandou fazer uma barragem de tropas entre os Estados Pontifícios e Nápoles, para que a pessoa do Papa não sofresse nenhum atentado, e de lá Pio IX começou a dirigir, ele, a contra Revolução.
Quando as tropas dele venceram, como psicologia era um outro homem que entrava em Roma. Notem bem, não quero dizer como doutrina, digo como psicologia, como mentalidade. Não quero dizer no modo de interpretar a Escritura, mas no modo de interpretar os acontecimentos do tempo dele; no modo de considerar a psicologia dos homens com que ele tinha que agir. E ele foi depois um dos pontífices mais contra-revolucionários, mais estritos, aliás, mais gloriosos de toda História.
Eu termino contando o seguinte: o processo de beatificação dele está em curso, e há dias atrás, eu vi no “Osservatore Romano” o decreto da Congregação que cuida das beatificações e das canonizações de santos, afirmando, proclamando a heroicidade de virtudes dele.
Quer dizer, a Santa Sé declara oficialmente que ele praticou em vida todas as virtudes características de um santo. Ainda não é canonização, mas é um grande passo para a canonização.
Não se pode pôr em dúvida que ele tenha sido um grande papa, não se pode pôr em dúvida que ele tenha feito um grande bem à Igreja para celebrar o seu pontificado – aliás, dos mais longos da História [1846-1878] – para celebrar o seu pontificado basta lembrar duas glórias desse pontificado: ele foi quem definiu o dogma da Imaculada Conceição. Ele foi quem definiu o dogma da Infalibilidade Papal.
Havia naquele tempo uma situação interna na Igreja que não deixava de ter analogias com a situação interna da Igreja nos nossos dias.
Quer dizer, esta corrente liberal que era claramente ateia e revolucionária, coexistia – e coexistia bastante amavelmente – com uma corrente dentro da Igreja que, sem negar formalmente a doutrina da Igreja, tinha simpatias por esses revolucionários. E que constituíam alguma coisa parecida com o que hoje se chama o progressismo. O progressismo, a esquerda católica está em relação ao comunismo, numa relação parecida com essa, em que os liberais católicos do século passado estavam em relação aos liberais não católicos.
Se quiserem, era uma versão dos liberais não católicos com água benta em cima. Uma água benta não muito eficaz, em cima.
Esses dois dogmas que Pio IX promulgou, eram dogmas que contundiam a opinião dos liberais. Eles eram contra a Imaculada Conceição. Porque lhes parecia um privilégio, uma desigualdade antipática, talvez até odiosa, que uma só pessoa tivesse sido concebida sem pecado original, e que todos os outros homens tivessem sido concebidos em pecado original. Só uma Virgem, uma frágil Virgem em toda a História tivesse sido concebida sem pecado original.
Passando por cima de uma polêmica que durou séculos, em que muitos dos que eram contra a Imaculada Conceição não eram liberais, mas é que os estudos a respeito desse dogma não tinham adiantado suficientemente, foram maturando com o tempo etc., a discussão entre os teólogos etc., etc. Bem, Pio IX formou o seu juízo. E gozando do carisma da infalibilidade papal, ele primeiro consultou privadamente todos os bispos; depois ele reuniu, convidou para estar em Roma os bispos que quisessem. E com o comparecimento de grande número de bispos, numa alegria geral de toda a Cristandade, ele definiu o dogma da Imaculada Conceição. “Sim! Esta Virgem tinha esse privilégio único. A Ela Deus deu, porque podia dar, porque queria dar. Nós homens, com base no que nos ensina a Revelação e a Tradição podemos até compreender por que deu, as razões excelentes pelas quais Ele fez, a Ela Ele deu o dom, a graça de ser preservada do pecado original desde o primeiro instante de seu ser. Nunca Ela esteve em pecado original, existiu já fora do pecado original.
Bem, a infalibilidade papal ainda era mais contestada pelos liberais. Como é isso? Se cada homem é senhor de sua razão, como é que tem um infalível? E ele diz e todo mundo tem que baixar a cabeça? Não!
Pio IX reuniu um Concílio, e depois de muitos debates nesse concílio, numa atmosfera de tempestade, quando os raios caíam sobre o Vaticano, numa atmosfera de tragédia, ele se levantou e definiu, com o assentimento do Concílio inteiro, ele definiu a infalibilidade papal.
Para os senhores verem as dificuldades, havia… isto é uma história bastante antiga, e a gente pode contá-la hoje sem faltar com o respeito a ninguém. Havia um bispo chamado Mons. Strauss Meyer, que era um bispo que era patriarca de um dos ritos do Oriente. Mas, bispo católico apostólico romano, patriarca de um dos ritos do Oriente, que fazia parte do Concílio. Ele tinha uma ascendência alemã, por isso o nome alemão dele Strauss Meyer. Ele, quando chegou a ocasião de votar no Concílio, quando ele viu que a maioria era a favor, e que a infalibilidade papal ia vencer, ele não votou, e eclipsou-se.
Terminado o concílio, Pio IX mandou chamá-lo. Disse a ele: “O senhor, no concílio tinha direito de estar em desacordo com a infalibilidade papal, era objeto da discussão, tinha o direito de estar em desacordo. Agora, o concílio decretou, e decretou em grau de infalibilidade. Quer dizer, não há possibilidade de dúvida, não é pastoral nem nada, é infalível. E, ou o senhor assina um documento aqui, agora, dizendo que aceita a infalibilidade papal, ou o senhor perde o seu cargo e sai da Igreja!”
Ele ficou muito surpreso, e querendo tergiversar quanto possível, ele puxou uma caneta do bolso – naquele tempo ainda não havia caneta tinteiro, eram canetas assim com aquela pena de aço, que eu peguei, talvez um ou outro tenha pego aqui, a minha difícil caligrafia foi aprendida com essa caneta de pena de aço. Eu nunca tive boa caligrafia, hoje menos que nunca – mas tirou de um estojo, porque se guardava num estojo, era uma coisa cerimoniosa. Bem, tirou do estojo, pôs a caneta num tinteiro para molhar, para escrever, e não sei o que ele fez na caneta, que ele disse:
“Santo Padre, eu não posso assinar isto hoje, porque minha caneta está quebrada”.
O Papa passou por cima desse obstáculo – tinha passado por cima de muito maiores – pegou a dele, molhou e disse: “Agora, aqui, escreva!”.
Bem, ele escreveu. E foi para o lugar dele e começou a governar. Acabou-se, a história está encerrada.
Agora, os senhores aplaudiram vivamente que o papa tenha feito isto. E considerando este episódio da vida dele – é um dos episódios conhecidos da vida dele – os senhores, a Congregação que examinou a heroicidade das virtudes dele, considerou que ele, com esse gesto de autoridade, deu provas da virtude de fortaleza, uma das quatro virtudes cardeais, sem cuja perfeição de prática, ninguém atinge a heroicidade das virtudes. E por isso declarou: ele praticou a virtude heroica.
Se o desfecho da história fosse outro, e o desfecho da história fosse ele dizer: “Bom, meu bom monsenhor, volte para a sua diocese e ainda pense nisso… e quando algum dia tiver formado um juízo, mande-me dizer…” E deixasse o homem viver… os senhores não bateriam palma. Nem estão batendo agora que eu falo.
Eu estava, quando vinha de automóvel, eu estava falando com um amigo que chegou há pouco da Europa, e que está presente nesta sala, comentávamos mais ou menos isto: que a Europa é aquela maravilha que nós sabemos. Mas, que quando a gente está lá, e a gente é sul-americano – no nosso caso a gente é brasileiro – a gente tem saudades da pátria natal. Tem saudades, por exemplo, das mil doçuras da amabilidade brasileira. Aqui foi uma dessas doçuras [referindo-se ao fato de que o auditório bateu palmas ao conferencista concluir a frase acima].
Há um objeto indispensável à vida, mas que não conhece doçuras. Este objeto se chama relógio. Eu sou obrigado a desenvolver o meu tema.
* * *
Existia nesse tempo um santo, um grande santo. Um santo ao qual, por exemplo, eu tenho uma devoção muito especial, os senhores todos já ouviram falar dele: São João Bosco, o fundador dos Salesianos.
Bem, os liberais, no período em que Pio IX tinha ilusões quanto à corrente liberal, quanto às intenções dos homens da corrente liberal, nesse tempo eles davam “vivas” a Pio XI como brado revolucionário. Eles queriam derrubar – a Itália naquele tempo era dividida em uma porção de pequenos estados, algumas repúblicas, outras monarquias. República de Veneza era uma república aristocrática; Gênova era uma república mais bem burguesa com traços aristocráticos, mas os outros estados italianos eram monarquias.
Eles queriam derrubar todas as monarquias e todas as aristocracias. E faziam do brado “Viva Pio IX”, o brado de coligação dos revolucionários para começarem uma revolta em todos os Estados da Itália. Porque era um modo de atrair os católicos para essa revolução, de iludir os católicos e levá-los para uma revolução que no fim, na última perspectiva, era comunista. Na última perspectiva. Esse liberalismo era o avô do comunismo.
Houve um santo, e este santo foi São João Bosco, que deu a seguinte estranha proibição aos seus alunos e aos seus padres, em toda a Itália. Era nunca bradarem “viva Pio IX”. Bradarem sempre “viva o Papa!”
“Viva o Papa”, dizia ele, porque ele é papa, e meu brado “viva o Papa” atinge aquele homem, mas o atinge enquanto Vigário de Cristo. Mas, vocês, liberais, nunca gritam “viva o Papa”, porque vocês querem ver nele uma coisa diferente. É alguém que não teria a mentalidade de um Vigário de Cristo; alguém que teria uma outra mentalidade, que seria outra pessoa. Vocês fazem a distinção para jogar de lado o papa e ficar com a pessoa. É isto que vocês querem fazer. Com isso eu não concordo! Então, eu mando bradar “viva o papa” quanto quiserem, e puxo a fila. Mas, “viva Pio IX”, enquanto vocês bradarem, eu não brado.
Quando João Paulo II, Sua Santidade o Papa João Paulo II esteve no Brasil, estava na primeira fase de seu pontificado. E não deixava de ter uma certa analogia nesse ponto, com o pontificado de Pio IX no começo, na primeira fase. E por toda parte, se dava muito “viva” a João Paulo II, quase como se ele fosse o símbolo e o portador de uma religião nova, de uma religião que era mais um dom pessoal dele de trazer alegria, de trazer saúde, de fazer com que tudo dê certo, de fazer com todo mundo concordasse com ele, do que propriamente o Vigário augusto de Cristo que ensina, governa e santifica; e a quem os outros devem obedecer, devem seguir e devem deixar se santificar.
Era recebimentos que eram muito mais de uma glória de um grande homem, do que uma glória de algo que vai acima de qualquer grande homem, a anos luz em perpendicular: é a glória de um papa, ainda mesmo quando ele não é um grande homem! É a glória do Vigário de Cristo!
A este gênero de palmas a TFP não quis se associar. Aí, a pessoa que fez essa pergunta, eu não tenho o nome dela aqui, aliás eu não vou ler o nome dos consulentes, para os deixar à vontade, a pessoa que me fez esta pergunta, fica vendo que as perguntas mesmo espinhosas, são bem recebidas, e como com calma tudo se explica.
A TFP nunca viveu de encobrir problemas. Eu costumo dizer aos meus amigos o seguinte: quando algo na Igreja nos parece esquisito ou feio, não fujamos. Fiquemos ali e procuremos entender, porque olhando descobriremos uma maravilha.
Como o tema é muito delicado, e eu não queria deixar de tratar dele, tomando o tema – não comparando o meu consulente ou a minha consulente com um touro na praça de touros que se pega pelo chifre, mas tomando o tema como um touro que se pega pelo chifre, eu quis descer à arena e pegar o touro pelo chifre.
Meu auditório é um auditório prevalentemente brasileiro. Eu sou todo brasileiro. Eu não tenho no meu sangue uma gota que não seja brasileira. Eu compreendo bem que uma explicação assim deve começar com um caso concreto, e depois deve passar para a doutrina. Sem um caso concreto, que faça apalpar a questão antes de tratar, ainda mais quando é um auditório ornamentado pela presença de várias ouvintes, convém começar pelo fato concreto.
O fato concreto foi dado, e foi dado nos seus pormenores, etc., eu não fiz senão preparar o enunciado do tema, porque agora o tema vai para frente. O tema não é só este. Isto, vamos dizer, que é a parte florida da matéria. Agora, vai o tronco e vai a raiz.
O geral das pessoas se faz uma confusão a respeito do que seja a infalibilidade papal. Eles confundem dois problemas: o que é a infalibilidade papal com o que é a posição que um católico deve tomar diante de um pronunciamento qualquer de um papa. São duas coisas distintas.
Um papa é infalível em tudo quanto ele ensina?
Eu não vou dar a minha opinião pessoal. Eu vou dar a doutrina da Igreja. É o que Ela diz sobre si mesma, e sobre os poderes de seu Chefe.
O que ela definiu, quando ela definiu a infalibilidade papal no Concílio Vaticano, ela definiu as condições em que essa infalibilidade se exerce. Ela não soltou isto no ar: “o papa é infalível”, e acabou-se. Essa não é a Igreja. A Igreja é circunspecta, ela é cuidadosa, ela é sábia. Num certo sentido da palavra, ela tem suas nascentes na eternidade, e é um rio caudaloso, que num certo outro sentido da palavra, desemboca na eternidade. A Igreja não tem pressa, portanto. Nós somos obrigados a ter pressa.
Mas, a Igreja, quando definiu a infalibilidade papal, ela definiu bem quais são as condições que precisa ter o pronunciamento do papa, para que ele esteja, naquela ocasião em que ele fez o pronunciamento, ele tenha feito uso do carisma da infalibilidade. O papa não é infalível por sua natureza. Nem Mons. Wojtila, nem o anterior Mons. Montini, nem todos, remontando até São Pedro, eram, por talento individual, infalíveis. Eram infalíveis por uma assistência que Deus lhes dava. E esta assistência não é uma assistência que eles têm a todo momento e para qualquer bagatela, para saber se esse inalador convém ou não convém, quando uma pessoa está com medo de resfriado. Não é isso.
É só quando fala “ex catedra”, sobre matéria de Fé e de costumes, com as condições de solenidade requeridas, é que ele é infalível.
Bem, e um documento, uma encíclica comum, quando o papa não invoca a sua própria infalibilidade, ele é infalível? Não é. Numa encíclica comum, ele tem uma autoridade enorme, do bispo de Roma, dos príncipes dos bispos, de um homem, portanto, que sem ser propriamente infalível, tem as graças que tem o mais eminente de todos os bispos, para ensinar. A sua opinião deve ser tomada com muito respeito, com muito acatamento. E, salvo razões gravíssimas, que uma pessoa muito conhecedora de um assunto possa ter, quando o pronunciamento não é infalível, a pessoa não cai em heresia negando aquilo. Deve negá-lo com respeito, com veneração, não deve fazer campanha contra aquilo; deve portar-se, portanto, com muita compostura, muito acatamento, mas pode e deve até, ao seu próprio bispo, ou ao Papa mesmo, qualquer coisa, externar com respeito a dificuldade que tem. Para a Santa Sé estudar e para ver o que faz etc.
Mas, isto é matéria de doutrina. Em matéria de apreciação de situações, de fato, a coisa é diferente. Como é a psicologia de tal corrente de opinião; tal corrente de opinião vai se deixar mover por tal tática ou não vai deixar se mover por essa tática, ou aquela tática; é oportuno fazer isto em vista de uma configuração geral de toda a situação no mundo ou não é oportuno – todas essas coisas dependem muito de apreciação individual e de observação dos fatos. E esta observação dos fatos não tem raiz na Revelação. É toda contingente, é de cada época, de cada circunstância concreta.
De maneira que, quanto à oportunidade de uma medida, quanto ao acerto de uma medida, do ponto de vista prático etc., é legítimo discordar. Com o devido respeito e com a devida veneração, mas é legítimo.
E nós vemos, em uma determinada emergência que os senhores conhecem, o próprio São Paulo discordar de São Pedro, de frente, sobre uma medida que São Pedro tomou ou que ia tomar, a respeito do modo de regular a vida dos judeus que entravam para a Igreja Católica, e o que deveria ficar de tradição judaica na liturgia da Igreja Católica nascente. São Pedro tinha uma tendência, São Paulo tinha outra. Reuniu-se o Concílio de Jerusalém, e nesse Concílio – pelo que está numa das epístolas de São Paulo – ele resistiu a São Pedro “de frente”.
Quer dizer, resistir de frente é: ter o respeito de ser franco, e dizer: eu não estou de acordo. São Pedro deu razão a São Paulo.
Quer dizer, nós não devemos, portanto, nos encher a cabeça de teias de aranha com isso. Devemos ter idéias positivas e claras.
Os senhores têm um belo exemplo no pontificado de Paulo VI. Paulo VI fez esta “détente” com os países comunistas. Por ocasião dessa détente, ele cessou os ataques sistemáticos ao comunismo, a ponto de que, sendo o comunismo o maior inimigo da Igreja em nossos dias, e tendo Paulo VI – já antes João XXIII – e depois Paulo VI, tendo convocado um Concílio universal, o Concílio mais numeroso de bispos da História, para tratar de vários assuntos concernentes à Igreja, apesar da petição de cerca de 800 bispos, durante o Concílio não se fez uma crítica direta ao regime comunista.
Porque – está nos documentos todos do tempo – o governo comunista tinha autorizado bispos da igreja greco-cismática, com sede em Moscou, em São Petersburg, Leningrado hoje em dia, a irem ao Concílio, com a condição de que o Concílio não atacaria o comunismo. Eu vi bispos desses andando em Roma a caminho do Concílio.
Paulo VI achou isto vantajoso para a Igreja. Ele teve esperança de desarmar a ferocidade do comunismo com esse ato de brandura. Bem, o Concílio não atacou o comunismo. Esta détente, esta distensão com o comunismo continuou pelo pontificado de Paulo VI adentro, e em alguma medida do próprio pontificado de João Paulo II.
A TFP teve medo disso. E teve medo de que o comunismo começasse a avançar cada vez mais, que essa medida fosse desastrosa face ao comunismo, como certas medidas de Pio IX o foram face ao liberalismo, e que depois deram no que os senhores viram.
A TFP fez um manifesto em que declarou, era uma mensagem ao Papa Paulo VI, em que declarou tudo isso. Explicou etc., e foi publicada em dezenas de vários jornais cotidianos de várias capitais da Europa [A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas. Para a TFP: omitir-se? ou resistir? – abril de 1974].
Não recebeu da Santa Sé a mínima reprovação, a mínima censura, de nenhum arcebispo e nem de nenhum bispo. Tal era o respeito e a ortodoxia com que essa mensagem foi escrita. Quer dizer, estava inteiramente na linha.
E eu me lembro que em um dos trechos a mensagem dizia: “Santo Padre, nosso coração é vosso, nós somos vossos, nós somos feitos para vos obedecer. Só não nos mandeis uma coisa: que cruzemos os braços diante do lobo que avança!” [Sr. Dr. Plínio disse: “… pastor que avança…”]. Os senhores bem entenderam que eu tive um lapso de língua. Está escrito que não cruzemos os braços diante do lobo ou do urso, não me lembro bem, que avança.
Eu queria, tinha querido pôr no texto que “avança contra vós…” Seria até mais afetuoso, mas seria um pouco sensacional demais. E me parecia que era menos respeitoso. E eu queria levar o respeito até o último ponto possível. Então não pus isso.
Então, os senhores compreendem que, à vista disso, o grau de nosso entusiasmo, de nosso fervor, nossa devoção pelo papado não pode variar. Até encontra uma espécie de alegria, nesta forma especial de obediência: que é a de obedecer e de ser fiel em circunstâncias em que nosso modo de entender faz ver as coisas de modo diferente, em matéria em que não está ligada à Revelação.
Mas, mas… mesmo assim, nós multiplicamos os atos externos e internos de nossa adesão: adesão é isto!
Agora, é claro que uma coisa é adesão, outra coisa é entusiasmo. Diante de um pontífice que faz como Pio IX, os Srs. bateram palmas. Se um pontífice fizesse o contrário do que Pio IX fez os senhores não bateriam palmas…
Havia um antigo provérbio que dizia: “O silêncio dos povos, é a lição dos reis”. Não era lícito vaiar o rei. Era mais do que lícito bater palmas ao rei. Era lícito não bater palmas ao rei? Era… nossas palmas foram módicas. Elas estão explicadas.
Os senhores veem um ponto como leva longe, e o relógio correu.

Nota: A respeito do primeiro período do pontificado de Pio IX, citado pelo Prof. Plinio, destacamos uma passagem do livro “I sogni di Don Bosco”, escrito por Eugenio Pilla, editora Cantagalli, Siena, 2004, 4a. edicao, pag. 104: “Ele (Mazzini, que dirigia o laicismo e era inimigo do clero) fingia exaltar o Papado quando louvava Pio IX. Isto também porque o Papa, a 15 de março, havia concedido uma ilimitada liberdade de imprensa, da qual se abusou publicando em Roma ao menos cinquenta jornais corruptores do espírito e, pois, detestáveis. Enquanto na Urbe (Roma) se gritava “Viva Pio IX!”, Dom Bosco em Turim fazia seus jovens bradarem “Viva o Papa!”. Indagado qual o motivo dessa diferença, o Santo respondeu: ‘onde está Pedro, aí está a Igreja!’”.

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