Os 40 Mártires do Brasil (festa: 17 de julho) e a aurora católica de uma nação. O que custa a grandeza de um povo

Auditório São Miguel, 3 de abril de 1981, sexta-feira – Santo do Dia

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

Bom, meus caros, vamos então tratar do Bem-aventurado Inácio de Azevedo e dos 40 mártires.
Isso é tirado do livro “Inácio de Azevedo, o homem e sua época”, de Gonçalves Costas, editado em Braga. E também de um folheto distribuído pelos jesuítas de Braga.
“Inácio…”
Vejam… eu vou dando os comentários sobre os vários aspectos da coisa. Alguns são puramente sociológicos, outros hagiográficos, quer dizer, dizem respeito propriamente aos santos.
Esse Inácio de Azevedo era de muito boa família. Mas há em todos os lugares onde há uma certa estratificação social, os nomes das famílias mais tradicionais acabam tomando muitas vezes uma sonoridade em que a gente tem a impressão que vê a pessoa. E vê a pessoa com o estilo da nação a que a pessoa pertence.
Aqui está um nome tradicional, bonito e muito português. Quer dizer, alguns desse nomes nem se usam no Brasil, ou serão tão raros que eu não me lembro ter encontrado no Brasil. Mas vejam a sonoridade bonita que dá a impressão da prataria portuguesa. Não sei se os senhores já viram prataria portuguesa. É muita bonita, mas ela é… – o que? – cheia vamos dizer. São objetos que levam muita prata tendente ao nobremente bojudo e seguro de si.
Esse nome é um pouco de prataria. Ele chamava Inácio de Azevedo de Atayde de Abreu e Malafaia… Tem um pulchrum próprio que não saberia definir. O nome Malafaia no Brasil não conheço, em Portugal talvez seja corrente, talvez o nome tenha desaparecido da circulação. Mas eu leio de novo para os senhores vêem a sonoridade que tem. Quando a gente pensa que acabou, tem mais um nome não é?
Então, Inácio de Azevedo de Atayde de Abreu e Malafaia. Uma coisa… quer dizer algo! Bem.
“Ingressou na Companhia de Jesus em 1548, sendo anotado a seu respeito no livro da ordem os seguintes dizeres: Tem pais vivos, o pai tem benefícios eclesiásticos e suficiências de bens. A mãe é freira num convento do Porto.”
Os senhores estão vendo como era, isso era século XVI, a Renascença já arrebentou, a Revolução já está em curso, mas como a Igreja estava entranhada na sociedade. Quer dizer, é uma família nobre – não era grande nobreza, era uma tal ou qual nobreza -, o pai vivia de rendas eclesiásticas e tinha dado licença à mãe para ir ser freira, e o filho ficou padre.
Os senhores estão vendo a impregnação de vida eclesiástica que há nessa sociedade ainda, e como isso é bonito. Bem.
O filho é muito mais do que isso. Fez-se jesuíta – que era naquele tempo a ponta de lança da Contra-Revolução – e Bem-aventurado… Hoje, um dos padroeiros do Brasil.
“Em carta ao padre geral, o padre Inácio [o nosso bem-aventurado] pediu para ser enviado a pontos remotos, pois não queria ficar no mesmo ambiente que seus pais.”
“Esse Bem-aventurado Inácio havia sido pajem do Rei Dom João III e descendia pelo lado materno de Santa Isabel, Rainha de Portugal.”
Os senhores estão vendo portanto que ele frequentou a corte do Rei, foi pajem do Rei, esteve no que a corte tem de melhor. Esse homem era mandado para a então bragada do Brasil.
Os senhores podem imaginar da corte do Rei da Portugal, naquele tempo marcadamente um potentado pelo tamanho do império colonial português, para índios com flechas atravessada no nariz, argola, canibais, com hálito cheirando o álcool e que álcool! Ordinário, mascado de cana fermentada, coisa horrorosa, os senhores podem imaginar a diferença. Era o que ele queria… Os senhores estão vendo o heroísmo que está presente nele.
É bonito notar a descendência de Santa Isabel a Rainha de Portugal.
“Do Brasil chegavam cartas dos padre Nobrega e Anchieta relatando as esperanças e as dificuldades das missões. Dois noviços jesuítas haviam sido repatriados para Portugal por não se adaptarem às novas terras. Enquanto outros retornavam por contra própria.”
Os senhores estão vendo que era duro aguentar, portanto.
“São Francisco de Borja, recém eleito geral da Companhia, conhecia as especiais virtudes do Padre Inácio. E o indicou para visitador Apostólico nas terras do Brasil.”
Os senhores vejam o cuidado da Companhia de Jesus naquele tempo! Quer dizer, eram poucos no Brasil, já mandava visitador apostólico aqui para visitar os jesuítas daqui, mas incumbido com poderes da Santa Sé para visitar a Igreja no Brasil e ver se nessa Igreja nascente ia tudo bem.
Os senhores estão vendo o rigor da ortodoxia, da disciplina, o método, a desconfiança, o contrário do permissivismo. Os senhores vêem que beleza imaginar um São Francisco de Borges Geral da Companhia de Jesus. Portanto, um santo autêntico tendo o leme da Contra-Revolução na mão. É uma verdadeira beleza!
Os senhores vêem também que ele escolhe um futuro mártir para vir para o Brasil. E um descendente da Rainha Santa Isabel. Os santos se encontram nessa história. Como é diferente isso de um país onde não há santos canonizados – a não ser o Bem-aventurado Padre [José de] Anchieta.
“Em Julho de 1566, o colégio jesuíta de Salvador na Bahia, tendo à frente o padre José Anchieta, o padre Manoel da Nobrega, recebeu festivamente o emissário de São Francisco de Borja numa visita que se estenderia por dois anos.”
Dois anos visitando o Brasil! É preciso dizer que as distâncias enormes e que se percorriam portanto devagar. Mas é qualquer coisa.
“E ao longo da qual o Bem-aventurado Inácio de Azevedo percorreria as principais vilas nascente do litoral brasileiro. Acompanhou no Rio de Janeiro a expulsão dos calvinistas em 1567.”
Que bonita nota deveria ser dada nas narrações dessas nossas histórias do Brasil, nesses manuaizinhos aqui quando dão a expulsão dos franceses, acrescentar:
A esta expulsão, verdadeira vitória de cruzada, a ela esteve presente com seu ardor, um futuro mártir: o Bem-aventurado Inácio de Azevedo.
Dava outro colorido a narração. Mas… isso são tido como pormenores secundários. A luz dos olhos de um futuro mártir não ilumina para essa gente a narração histórica…
“Em carta que lhe dirigiu de Salvador ao Geral da Companhia ele assim relaciona as suas observações e pondera: Também servirão além dos padres solicitados (quer dizer, é bom que mandem) os irmãos oficiais, como pedreiros e todos os demais. Porque há na terra muita falta deles, e custa muito fazer as coisas. Por esse motivo, em todas as partes onde residem os homens, ouço dizer que há falta de edifícios, e abundância de materiais com o que se pode construir.”
Isso é dessas frases do português antigo que tem um sabor…! É como aquela frase do Pedro Vaz de Caminha “a terra dadivosa e boa, em nelas se plantando tudo dá”. Aqui também “há falta de edifícios, mas abundância de material”.
Parece que a gente vê as cidadezinhas pequeninhas implorando que as florestas e as pedras sejam utilizadas para serem transformadas em cidades. É uma coisa épica, tem algo de bonito.
“Muito me consolo nestas partes, e consolar-me-ia nelas toda a minha vida, ainda que importaria ir a Portugal para ajudá-la mais trazendo gente e oficiais”
“Ir a Portugal buscar gente e oficiais, eis o plano do Padre Inácio de Azevedo.”
Quer dizer, ele esteve no Brasil e viu que era preciso trazer gente para cá. Oficiais o que era? Ele queria padres e irmãos coadjutores, ele queria também pedreiros, carpinteiros, gente que exercesse esses oficiais. Eles chamavam naquele tempo essas profissões de ofícios. De onde haver aqui um estabelecimento chamado Liceu de Artes e Ofícios. É exatamente esse tipo de profissão.
É muito bonito a gente ver aí, ainda mais tomando em consideração, o tamanhão de hoje do Brasil, a Igreja Católica por mãos dos jesuítas, tomando a primeira argamassa da sociedade temporal e modelando-a. Fazendo quase como Deus que fez primeiro o boneco de barro para depois…
Assim, para poder fundar aqui uma realidade eclesiástica grande, a Igreja modelando a realidade civil na qual essa realidade eclesiástica tinha que ser insuflada. E cuidando, portanto, de construções, cuidando do progresso temporal, para poder inserir ali o progresso espiritual.
Há qualquer coisa de atmosfera do Brasil primevíssimo que se respira com isso. Quando nós pensamos que esse Brasil poderia um dia ser o ponto de irradiação da Contra-Revolução, [a gente] compreende os desígnios e os intuitos da Providência.
O Bem-aventurado Inácio de Azevedo não sabia disso, mas trabalhava com ânimo.
Ele então foi a Portugal. Por que ele foi a Portugal? Não podia ele pedir aos jesuítas que mandassem vir?
A gente compreende bem. É que com certeza o pessoal tinha medo de vir ao Brasil: tão distante, tão remoto, tão vago, tão ameaçador, deixar o Portugal a duras penas  conquistado aos árabes, deixar esse Portugal e ir… – Portugal aconchegado, bonito, saboroso, cantante… e vir para o Brasil abandonado, misterioso, desolado, uivante… Que diferença!
Naquele tempo não havia fotografias, não havia slides, não havia audiovisuais, não havia filmes, não havia televisão. Eles queriam conversar com a pessoa que vinha do lugar para depois resolver se vinham ou não vinham.
Muitos de nós, eu me glorio de estar entre eles, somos descendentes de portugueses. E sabemos o temperamento português como é cauto. Eles dão passos arriscados, mas depois de saber bem… a coisa como é não é. E os senhores sabem como é que eles deram a volta na África, não é?
Eles tinham no promontório de Sagres, no sul de Portugal, uma escola de navegação. Eles cada ano desciam um tanto no litoral da África e faziam mais uma parte do mapa e voltavam para dar informações à escola. Assim foram roendo a África…  porque já a navegação seguinte era mais afoita, até darem a volta no cabo da Boa Esperança.
Ali, tinham consigo um homem genial, um herói, que bateu reto. Aí já é uma outra coisa.
Mas aí os senhores compreendem que eles também haveriam de querer apalpar isso. Então a gente está vendo o passo do Padre Inácio de Azevedo chegando em Portugal e procurando este, aquele… evitando naturalmente gente moloide. E ele dizia: Não, mas homem! Fui eu que estive lá, é assim…
– Mas deveras, estivestes lá? Contai-me…
Vinha a narração e ele pegava a ganchos os que tinham que vir.
Me parece que tudo isso faz sentir a respiração da antiga história do Brasil de um modo pitoresco e muito honroso para a Igreja. De maneira que eu me detenho um pouco nesse comentário.
Enfim, o seguinte:
“De volta a Portugal em 1568, Padre Inácio dirigiu-se para Almeirim, a fim de encontrar-se com o Rei D. Sebastião.”
Os senhores estão vendo que ele ia direto ao ponto fundamental. Desceu e foi falar com o Rei. Porque de um impulso do Rei dependia muito todo o andamento das coisas.
E os reis eram muito desejosos de receberem notícias diretas das pessoas que tinham estado nas terras. É evidente. Exatamente porque não tinham os meios de comunicação que há hoje.
“Este ouviu com interesse as notícias que o missionário trazia do Brasil, dando todo o apoio a campanha de recrutamento proposta.
“O padre Inácio deu logo início a empresa, através de sermões e visitas, exímio como era na arte de conversar.”
Aqui fica um traço curioso do novo santo: “exímio na arte de conversar”. Daria um coletor de donativos, um vendedor de livros, um elemento de campanha, de primeiríssima ordem.
“Seu contemporâneo, Padre Maurício Cerpo contou a esse respeito: “Tanto que chegou a este reino, foi coisa para dar graças a Deus, ver quanta gente se moveu para ir ao Brasil. Não falo já de nós da Companhia porque esses todos queriam ir com ele, mas os de fora. Onde quer que chegava, logo se moviam de maneira que se alvoroçava a terra e uns se moviam a ir com ele, outros falavam isso com grande novidade muito para ser desejada.”
Quer dizer, ele produzia um alvoroço geral. Agora, os senhores vejam o que custa a grandeza de um povo. D. Sebastião e o Bem-aventurado Inácio de Azevedo conversam; um estava fadado – não há fados – era o futuro de um que ele morresse no mistério e na tragédia da África; era futuro do outro morrer na tragédia e no martírio em pleno mar. Os dois estão conversando, estão tecendo a grandeza de Portugal!
Mas com que gente essa grandeza se tece. É gente que tinha conhecimento dos riscos que a vida cotidiana traz. É o contrário do espírito securitário. Essa é uma nação que está no seu apogeu.
“De Portugal seguiu para Roma para pedir ao Papa São Pio V”…
Outras coisas! outras coisas! Que encanto! que maravilha! que deslumbramento!
“…sua benção para a empresa do Brasil. O Pontífice quis ouvir com uma descrição minuciosa desse novo mundo, onde a fé cristã começava a iluminar a noite indefinida do paganismo. E além dos privilégios pontifícios para o Brasil, e mão livre para arregimentar pessoal seleto, o santo pontífice concedeu indulgência plenária a todos os que acompanhassem, e muitas relíquias, e terços, Agnus Dei, e outros objetos devotos.”
Não consta que ele tenha ido visitar banqueiros, ele foi visitar pontífice e reis… Não consta que ele tenha trazido dinheiro, ele trouxe Agnus Dei, trouxe bênçãos, trouxe relíquias, com isso ele esperava fazer o seu caminho.
O tempos! Ó coisas diferentes…
“São Francisco de Borja, entrementes, desejava agradecer a D. Catarina, Rainha de Portugal, valiosa ajuda que ela concedera ao colégio romano, e quis enviar-lhe uma reprodução da celebre imagem de Nossa Senhora conhecida como pintada por São Lucas, venerada na basílica da Santa Maria Maior em Roma. E incumbiu o Padre Inácio de ser o portador do quadro.
Como geral da Companhia, São Francisco de Borja morava em Roma. Sabendo que o Bem-aventurado Inácio ia para Portugal, ele quis que ele fosse portador do quadro.
“A partir de então, a devoção ao quadro de Nossa Senhora e de São Lucas, ficaria intimamente associada ao missionário.”
Quer dizer, ele veio trazendo o quadro com sua devoção, etc., e o quadro representou um papel na vida dele.
“Em julho de 1569, o Padre Inácio partiu para Portugal passando por Madri. Em Madri, João de Mayorca, foi um dos primeiros espanhóis a aderir”.
Veio, portanto, para o Brasil.
“E como era pintor, este novo missionário aproveitou para fazer várias reproduções do quadro da Virgem destinadas um deles ao colégio da Bahia.”
Quer dizer, portanto, copiou do quadro que era para a Rainha, tirou várias cópias. Essas cópias é que vão ter, uma dessas cópias, é que vai ter muito papel na vida do Bem-aventurado Inácio de Azevedo.
“Afonso”…. (o nome não é muito estimulante) “Afonso Fernandes Cansado associou-se à empresa em Portugal, e fez questão de substituir o sobrenome, pois segundo explicava, para tal tarefa o nome Cansado não lhe caía bem…
“Francisco Perez de Godói, canonista formado em Salamanca” (alta universidade espanhola) “também se ajuntou ao Padre Inácio. Esse Perez de Godoy era primo de Santa Teresa de Jesus, que no tomar conhecimento de sua adesão, ficou muito alegre.”
Santa Teresa a grande, soube portanto que havia um Brasil. E soube que um primo dela vinha para o Brasil, e ela ficou muito alegre com isso. Os senhores vão ver daqui a pouco o papel de Santa Teresa nesse fato.
Mas vejam a constelação de santos que se move. Aí os senhores medem em que noite a Revolução projetou o mundo. O que é isto!
“Ferreiros, marceneiros, pedreiros e tecelões também acertavam detalhes para sua viagem no Brasil. No total, entre religiosos e artesãos, haviam sido reunidos 90 elementos, que foram conduzidos para uma chácara da Companhia no Vale do Rosal”…
Também nome bonito: Vale do Rosal.
“…a fim de aguardar a partida dos navios para a América. Porém, foram cinco meses de espera.”
Aqui não está contado inteiro. É claro que foi um vasto simpósio a la Companhia de Jesus preparando para a ida para o Brasil: direção espiritual, etc., e trabalho. Enfim, uma adaptação completa. Muito bem feita!
Por que cinco meses? Porque não havia companhia de navegação regular para o Brasil. Isso aparece no século passado. De vez em quando aparecia alguém que tinha um navio que vinha para o Brasil, o rei mandava, alguma coisa assim, a Companhia das Índias… Coisa rara.
“Em maio de 1570, partiram os religiosos na esquadra do Governador Geral, D. Luiz de Vasconcelos. O Bem-aventurado Inácio de Azevedo com mais de 39 companheiros, viajava na nau Santiago. Fizeram escala na ilha da Madeira, onde o Governador muito vagaroso quis prolongar a estadia, enquanto o comandante da nau Santiago trazia a bordo mercadorias cuja entrega na ilha de Las Palmas, era urgente.”
Quer dizer, esse homem aproveitou o navio para transportar mercadoria de uma ilha para outra, pela raridade dos navios naquele tempo, e fez devagar.
Esse homem tem responsabilidade no martírio, porque foi por causa desse atraso que eles cruzaram no caminho com a nau calvinista francesa, que agrediu o navio e que provocou o martírio.
“Sujeitando-se ao risco de ficar a mercê dos ataques dos piratas, esta nau poderia partir sozinha até las Palmas, aguardando ali o restante da esquadra. A proposta foi levada a D. Luiz, tendo a ela dado seu assentimento o Padre Inácio de Azevedo.”
Quer dizer, para andar mais depressa, acharam que a nau poderia ir sozinha. E o Bem-aventurado concordou com isso. Então tocou. Aí iam encontrar os piratas.
“A nau Santiago seguia avante. Em 15 de julho, já próxima da ilha de Las Palmas, defrontou-se com navios dos terríveis calvinistas franceses.
“Efetivamente, esses atacaram e abarroaram a nau Santiago com forte impacto. Os atacantes atingiam a corveia, tinir de espadas, bravos de fidelidade a Cristo e à Igreja, mesclados aos berros e blasfêmias dos hereges, as primeiras gotas de sangue começam a tingir o chão.
O Bem-aventurado Inácio de Azevedo, que se encontrava junto ao mastro central, segurando nas mãos o quadro da Virgem de São Lucas, recebeu na cabeça o primeiro golpe, sendo jogado no mar agonizante e segurando o quadro que ninguém lhe conseguira tirar das mãos.”
Por isso ele é representado habitualmente, nas estampas etc., vitrais, flutuando já meio agonizante nas águas, mas seguro ao quadro. Porque é muito digno de nota, que ele estando agonizante e com a gesticulação de quem naufraga e que procura mover os braços para não afundar, já não tendo provavelmente consciência de si, apesar disso ele segurasse o quadro.
É bem claro que a quem de tal maneira segura uma imagem de Nossa Senhora, Nossa Senhora do Céu está segurando a alma dele! É bem evidente!
“O olhar marcado dos tripulantes portugueses continuava a fixar-se nos vultos” (foram vários que eles foram jogando. Foram 40 mártires nessa ocasião) “que foram em seguida jogados também ao mar, entre os quais, sobressaia a figura imóvel de Azevedo.
“Na Espanha, Santa Teresa de Jesus teve revelação do fato e afirmou que vira os 40 mártires de coroas na cabeça subindo triunfantes ao Céu.”
Os senhores estão vendo que coisa linda da história do Brasil! Enquanto tem propósito nós acrescentarmos essa invocação a eles – que é claro que esse sangue foi derramado para que o Brasil fosse católico. Era a razão pela qual eles estavam dando a sua vida etc., etc., era esta!
“Somente o João Sanchez, não foi morto pelos piratas. Era cozinheiro, e esses resolveram tirar proveito de seus serviços. Foi ele que, retornando depois à Espanha, contou que pormenores todo o ocorrido. Infelizmente, mais tarde apostatou da Companhia de Jesus”…
Esta é a criatura humana!!! Esta é a criatura humana! Esse homem deveria não sei, tinha obrigação de ser Bem-aventurado ele também. Não diz que tenha se desligado do sacerdócio porque não era sacerdote, era irmão. Desligou-se da Companhia e voltou ao estado laical.
“O culto dos 40 mártires foi autorizado em 1854 pela Papa Pio IX”.
Outro grande Papa cujo processo de beatificação está introduzido.
Bem, aqui vem, aqui já interessa menos, mas enfim, vamos terminar. Diz:
“Na atual catedral basílica de Salvador na Bahia, conserva-se…”
Eu vou dizer numa palavra.
Conserva-se uma imagem pintada que se diz que é a dele. Mas o autor diz que ele acha que não é porque não teria resistido ao estrago do naufrago, enfim, que, portanto, ele não dá crédito que seja essa imagem.
Não há nenhuma prova de que a imagem tenha escapado das mãos do Bem-aventurado Inácio de Azevedo e tenha chegado à Bahia. Se houvesse, eu piamente creria, e teria um gosto enorme em que isto tivesse sido assim.
Mas, o não ter sido assim, não tolda em nada o verdadeiramente essencial. Os senhores perceberam que na previsão do muito batalhar que haveria a favor do ortodoxia, numa nação que em certo momento da história da Igreja, seria a nação de maior população católica do mundo, logo no início, para irrigar isso, a Providência dispôs que houvesse 40 mártires que nem chegassem aqui.
Inácio de Azevedo esteve dois anos aqui, não conseguiu chegar até o Brasil. Mas cujo sangue foi vertido e o mar dispersou. Não foi vertido no Brasil, mas foi vertido com a intenção de servir a causa católica no Brasil. E aí os senhores compreendem que esse sangue subiu ao Céu em odor de santidade, em odor de suavidade quero dizer. E que reza continuamente por nós.
No Brasil ficava o Bem-aventurado Anchieta esperando e rezando, e fazendo seus feitos para que algum dia esta nação fosse uma grande nação católica.
Os senhores percebem por aí quanto é bom, quanto é adequado que nós tenhamos esse culto.
Meus caros, com isso teremos terminado nosso Santo do Dia, e podemos nos retirar.

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