O Sr. acredita que existe a possibilidade de o Brasil se tornar socialista através da via eleitoral?

Entrevista concedida pelo Prof. Plinio à TV Gazeta e levada ao ar a 14 de dezembro de 1988

 

A TV Gazeta levou ao ar, no dia 14 de dezembro de 1988, às 21:30 hs, uma entrevista do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira ao programa TV Mix, dirigido pelo jornalista Sérgio Groisman. Em vista do interesse que a entrevista causou, e atendendo à solicitação de telespectadores, a TV Gazeta a reapresentou no dia 29 de dezembro, no mesmo programa.

[transcrição abaixo]

TV Gazeta – Eu gostaria de saber, Dr. Plinio, se o Sr. acredita que existe a possibilidade de o Brasil se tornar socialista, através da via eleitoral.

Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (PCO) – Socialista, no sentido ideológico da palavra, eu acho que é remota a possibilidade de que haja uma maioria socialista no Brasil.
No sentido de que uma maioria possa vir a votar no socialismo, iludida pelo que a palavra socialismo tem de viscoso, de ambíguo, de escorregadio, isso eu acho que pode acontecer. Tanto mais que o socialismo tem a seu favor o apoio de certa esquerda católica, que constitui um contributo eleitoral não especificamente socialista, mas que pode influir ponderavelmente. Então, é possível que o socialismo venha a tomar conta do poder, por via eleitoral. Mas são os socialistas que tomarão. Não será a ideologia socialista que será sufragada pelo povo brasileiro.

TV Gazeta – Aqui no Brasil e na América Latina em geral, a Teologia da Libertação está presente. Gostaria de uma reflexão do Dr. Plinio a respeito da Teologia da Libertação.

(PCO) – A Teologia da Libertação é uma corrente ideológica que se compõe de vários filões, como acontece quase sempre com as correntes fortemente revolucionárias, fortemente tendentes ao estabelecimento da igualdade completa entre os homens.
Quer dizer, eles têm uma vanguarda que reivindica tudo quanto há de mais extremo nessa matéria. Depois eles têm uma retaguarda doutrinaria de matizes sucessivos, dos quais cada um é menos categórico do que outro. Não que seja mais moderado, mas é menos claro. De modo que, no extremo oposto do matiz mais categórico, a dosagem revolucionária é tão insensível que não se sabe bem o que é.
Avança primeiro, na opinião pública, o elemento aparentemente mais moderado, mais confuso, e com algumas idéias assim vagas, pelas quais certa parte do público tem alguma simpatia. E depois, por um processo de destilação, os elementos confiscados por essa corrente confusa, aparentemente moderada, vão sendo passados sucessivamente para posições mais radicais, até dar na radical de todo.
Vista na sua corrente mais radical, aquela que especificamente foi objeto de censura da Santa Sé, vista nessa corrente, a Teologia da Libertação se reduz ao seguinte: se trata de pessoas que querem estabelecer uma reforma no sentido de implantar a igualdade completa entre todos os homens. Abolição de todas as classes sociais, e um regime totalmente, e utopicamente, igualitário. Essas pessoas apresentam Nosso Senhor Jesus Cristo como tendo sido, não o Homem-Deus – e o Homem-Deus dotado de bondade e sabedoria infinitas, que o Evangelho nos descreve – mas figuram Nosso Senhor Jesus Cristo como tendo sido um revolucionário, um desordeiro, um mazorqueiro, do tempo em que ele viveu. Mazorqueiro e desordeiro contra a dominação romana, que a Teologia da Libertação apresenta como aliada das elites judaicas, para opressão do povo.
Uma acusação mais ou menos parecida com a que a Teologia da Libertação faz ao sistema sul-americano. Assim se sustenta, na Teologia da Libertação, que não tem autenticidade a hierarquia social na América do Sul, e que esta se apóia no capitalismo internacional, dominado pelos norte-americanos.
Para justificar uma aparência de apoio à posição deles, de uma revolução na América do Sul, eles montam este mito, deformando gravemente a realidade. A partir dessa deformação, a Teologia da Libertação procura então arrastar a opinião católica, na América do Sul.
Como essa figura de Nosso Senhor Jesus Cristo, que a Teologia da Libertação apresenta, é muito flagrantemente contrária ao que a doutrina católica ensina – religião seguida pela grande maioria dos brasileiros – essa gente afirma ora uma parte disso, outros afirmam tudo, outros não afirmam nada disso, mas também não afirmam o contrário disso.
Então essa máquina de sucção para a extrema-esquerda funciona de modo a levar todo mundo para os erros censurados pela Santa Sé.

TV Gazeta – Agora, eu gostaria que nós conversássemos um pouco sobre a questão da Reforma Agrária. Dr. Plinio, o Sr. tem esperança de que a Reforma Agrária, aprovada pela Constituinte e colocada no texto da nova Constituição, ela seja revogada, aqui no Brasil?

(PCO) – A sua pergunta tem para mim, como brasileiro, um sabor amargo. Porque ela equivale, na minha ótica, a perguntar se eu tenho esperança de que o Brasil sobreviva à Reforma Agrária.
A Reforma Agrária – segundo temos tratado em vários livros, publicações etc., sobre o assunto, durante vinte anos – a Reforma Agrária não faz outra coisa senão assolar a vida do campo, e empobrecer não só o empregador, mas o empregado, o fazendeiro e o trabalhador. Ela é nociva igualmente a ambas as classes sociais. E a experiência mostra – o nosso mensário “Catolicismo” já publicou expressivas reportagens de propriedades agrárias, por exemplo no Pontal do Paranapanema, em que mal a Reforma Agrária se instalou, já a miséria imperou, o favelamento entrou, a desolação entrou.
Se a Reforma Agrária se aplicar inteira no Brasil, o Brasil não sobreviverá. Então, como eu espero no Brasil, eu espero que em determinado momento, o bom senso do País imponha uma revogação da Reforma Agrária.

Nota: Para a íntegra da entrevista com a respectiva transcrição clique aqui.

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