O que significa o uso das alabardas em cerimônias da TFP? Fátima e a coerência católica

V Encontro de Correspondentes Esclarecedores da TFP, Buffet Umberto (São Paulo), 3 de agosto de 1985, sábado – Perguntas e respostas (continuação)

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

Entre as várias perguntas que eu recebi, me pareceu interessante uma: “o que fazem nas mãos de nossos jovens, estas alabardas que eles manuseiam tão bem? Por que esta ponta? Porque, se não bastasse essa ponta, uma espécie de machadinha na base da ponta?” Eu estou ornando a pergunta: “por que passo tão firme? Por que uns vais-e-vens tão categóricos, o que é que exprime isto?”
Eu entraria por aí.
Os senhores, os meus caros amigos – eu seria mais veraz se eu dissesse: os meus filhos… [palmas] … que fizeram esta demonstração, que os senhores aplaudiram tanto… os senhores procurem agora fazer análise de si próprios. Porque é que aplaudiram?
Os senhores aplaudiram sobretudo porque gostaram da compenetração deles. Viram com que seriedade, com que coerência eles faziam isto, não era uma mera representação. Entrava alguma coisa da alma deles que estava presente nisso, e era a alma deles que bradava; era a alma deles que empunhava estas armas, era a alma deles que dava uma demonstração de energia e de vontade de lutar, que, por certo, não era contra esse auditório que forma um só com eles; não era – pelo menos eu creio que o Pe. Olavo, Pe. David e os outros componentes da mesa estão tão certos disso quanto eu – não era para derrubar a mesa também.
Era o que? Era para alguém. Porque? Que sentido tem isso? Vamos meter o dedo dentro da questão.
Evidentemente no espírito deles isto tem um sentido. E evidentemente esse sentido inspira a atitude deles. Este sentido, que relação tem com essa arma? Isto é uma arma. Qual é esta arma? É uma arma chamada alabarda. Esta é uma arma que se usou no período de transição entre as últimas armas brancas, e o começo das armas apenas de fogo.
Os senhores todos sabem que durante a Idade Média se usavam couraças, e se entre-degladiavam as pessoas, com armas brancas. Pelo fim da Idade Média, um tanto antes do fim da Idade Média, começaram a entrar as armas de fogo. E as armas de fogo tornaram inúteis as couraças. Houve um período de transição em que ainda se usava uma parte da couraça, era a parte que cobria o peito, e ainda se usava muita arma branca no combate. O século XVI foi assim. Até certo ponto mesmo, no século XVII, nas guerras dos brasileiros e dos portugueses contra holandeses e franceses calvinistas, ainda se combatia assim.
Bem, esta arma se usava como arma de combate muito eficaz. Porque quando o inimigo estava longe, espetava. E quando chegava mais perto, e não era possível ter contido longe, cortava. Isto em era uma alabarda. A guarda suíça do Papa – já digo aos senhores para tranquilizá-los – usa-se alabarda também.
E em vários outros cortejos, cerimoniais da Europa, cortejo do poder judiciário, do poder eclesiástico, organizações aristocráticas etc., usa-se a alabarda como símbolo de um passado glorioso. Um passado glorioso não significa um passado imaculado. Imaculada é só Nossa Senhora! Mas, é um passado digno de ser rememorado. E a arma, como os senhores viram, é uma bonita arma.
Bem, porque o uso de uma arma, porque esse símbolo aí?
Vem de que na jovem experiência deles, tomando contato com o mundo, tomando contato com a Revolução gnóstica e igualitária, que se despeja pelo mundo em torrentes, desde um determinado momento da Idade Média, ainda não fixado pelos historiadores, mas em que o gérmen de que nasceriam o Humanismo e o Protestantismo – e a Renascença começava a produzir-se seus frutos envenenados; então, nesse período começou a se espalhar pelo mundo uma forma mais radical, uma forma mais enérgica de mal, mais virulenta de mal, que produziu em série o Humanismo, a Renascença, o Protestantismo, a Revolução Francesa, a Revolução comunista, e as revoluções que já se veem por detrás da revolução comunista, a revolução anarquista, etc.
A peça de teatro que os senhores assistiram ontem à noite, ilustrou-os bastante a respeito disso. Aqui cabe a pergunta que está no fundo da questão. A pergunta é a seguinte: há gente que se deixou transviar por estes erros, e que se deixou, portanto, desviar do espírito católico, muitos permanecendo dentro da Igreja, não ousando romper com a Igreja, mas de fato perdendo o espírito dela – é um caminho –; outros, pelo contrário, saindo da Igreja. Eles, mudaram de espírito assim, por que? Porque foram persuadidos de que uma outra posição, a posição revolucionária, era mais verdadeira? Foram persuadidos através de argumentos mais bem feitos, produzidos, expandidos por pessoas muito capazes, superiores a eles em talento? Então, nesta luta desigual entre talento e talento, [uns se deixaram inocentemente… foi bem isso que se deu?]
Sem negar que em casos excepcionais possa ter entrado algo disso como atenuante do passo que se deu, pode se dar a seguinte resposta: ninguém abandona a Santa Igreja Católica Apostólica Romana sem pecado. Uma pessoa renegar a fé católica, sem com isso ter pecado, essa pessoa não pode. Porque se isso aconteceu, e se a pessoa abandonou a Igreja sem culpa, Deus abandonou a pessoa sem culpa. Porque Deus pode sempre atuar no interior de uma alma, e Ele pode sempre ajudar uma alma a ver mais claro; pode ajudar uma alma a discernir melhor. E Ele pode, assim como Ele dá à alma a graça de conhecer a Igreja Católica, quando essa alma ainda não é católica e entra em contato com um sacerdote católico; assim também Ele dá à alma, certamente, a graça de perceber o erro que alguém está disseminando, perceber que é contra a doutrina católica e perceber que não deve pensar desta maneira.
E isso Nosso Senhor deu a entender, por exemplo, quando Ele disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz”. Quer dizer, onde fala a Igreja, quem é ovelha dEle em espírito, tem graças para entender. Deus não abandona a pessoa à garra da heresia, à garra do ateísmo, à garra do comunismo, sem ajudar a pessoa. E se a pessoa caiu até lá, recusou a ajuda de Deus.
Se recusou a ajuda de Deus entrou nisso uma culpa. E se entrou nisso uma culpa, então a pessoa, necessariamente, tomou um apego a alguma coisa naquela doutrina que ela passou a aceitar. E esse apego que é o mau apego, vicia a alma.
Quando a alma adere à uma má doutrina, é porque gosta em algo dessa má doutrina. E ela fica habituada àquilo, e não quer deixar aquilo, porque gosta. E forma-se uma batalha entre a graça e o lado mau do homem, a graça e o demônio, em que o homem é o pêndulo que faz a coisa ir para um lado ou faz ir para outro lado. Ele é que tem a decisão, é o livre arbítrio do homem que diz “sim” para Deus ou diz “sim” para o demônio.
A consequência disso evidentemente é que, se alguém recalcitra e se emperra numa determinada posição, essa pessoa tem culpa desse recalcitramento. E um exemplo disso eram os judeus que aderiram ao deicídio no tempo de Nosso Senhor. Quer dizer, a recusa que os judeus fizeram de Nosso Senhor Jesus Cristo, foi uma recusa espantosamente característica do que eu estou dizendo.
O povo de Israel estava na decadência que os senhores sabem. Não por razões raciais – racismo não tem nada que ver com isso, é uma série de monstruosidades e de asneiras que não vale a pena a gente estar analisando aqui – não é, portanto, por razões raciais, mas por razões históricas: aquele povo decaiu, como outros podem decair ou decaíram. E vindo Nosso Senhor a eles, eles recusaram, grosso modo, o grosso deles recusou a pregação de Nosso Senhor. Não seguiu a pregação de Nosso Senhor.
Nosso Senhor, para chamá-los, multiplicou as provas de Sua bondade até o último; as provas de Sua sabedoria, as provas de Sua misericórdia até o último. O que Ele diz, até hoje empolga os homens, e empolgará até o fim do mundo.
Nós vamos acompanhando a vida dEle. Ele teve três anos de pregação pública. No primeiro ano Ele era aplaudido por todo mundo. No segundo ano começam a se rarefazer as amizades, e fazer um clã que não O segue. No terceiro ano, o grosso do povo oscilava entre uma admiração enorme a Ele, e nas mesmas pessoas uma objeção muito grande contra Ele. Ele multiplica os milagres dEle; Ele faz esta maravilha que é a ressurreição de Lázaro.
No momento em que Ele faz esta coisa incrível: arranca das mãos frias, inertes e inexoráveis da morte, Lázaro que tinha morrido – naquele momento em que Lázaro sai da sepultura, o Evangelho conta que uns disseram para outros: “É preciso matá-lo!”
Como estava a alma desses pobres coitados, no momento em que, vendo que alguém ressuscita outro, tira daí a conclusão que é preciso matar quem ressuscitou?! Como estava essa alma?
Quer dizer, Nosso Senhor pedia a eles sacrifícios morais; pedia a eles uma forma de ascese, uma forma de generosidade, de renúncia, que eles não queriam fazer. E porque não queriam fazer, eles ficavam indignados, porque Nosso Senhor lhes ensinava isso, eles viam que Nosso Senhor tinha razão, mas não queriam abrir mão.
Resultado: para recuperar aquele mau equilíbrio interior de alma que eles tinham, para recuperar este mau equilíbrio interior de alma, eles vendo a ressurreição de Lázaro, pensaram: “Este homem não nos deixa em paz, vamos matá-lo!”
Quer dizer, levaram a dureza a um grau inimaginável. Como se não bastasse, Nosso Senhor é preso – eles têm a vileza de contratar um discípulo de Nosso Senhor, que o Evangelho diz expressamente, Judas era ladrão. Judas recebia as esmolas que os Apóstolos coletavam, Judas era o tesoureiro, ele recebia as esmolas e era incumbido de distribuir para os pobres etc. Roubava para o bolso dele. Bom, que ele tinha ganância por dinheiro, é coisa que ninguém duvida.
Eles veem a miséria desse homem e oferecem trinta dinheiros, para entregar a Nosso Senhor. Judas aceita, eles prendem Nosso Senhor.
Para abreviar, Nosso Senhor vai diante de Pôncio Pilatos para ser julgado, era o procônsul romano. Pôncio Pilatos vendo que Ele não tinha culpa, mas tendo medo de enfrentar aquele populacho – ele foi um poltrão! –, tendo medo de enfrentar aquele populacho, ele vendo que o populacho queria que Nosso Senhor fosse morto, e temendo uma revolução, ele primeiro mandou flagelar Nosso Senhor, para apresentar e dizer “eis o Homem”, para ver se dava pena. Não tiveram pena. Vejam bem que esta atitude era em face de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não tiveram pena!
Aí Pilatos, para ver se de algum modo empurrava um julgamento a favor de Nosso Senhor, mandou vir um bandido, Barrabás. Esse bandido estava condenado a morrer. Um bandido naquele tempo, em que a polícia não era coisa organizada, era um perigo individual para todo mundo. Porque entrava numa casa, arrombava, matava, era a catástrofe que entrava com o bandido. Portanto, ele apresentou um homem-catástrofe, para a pequena Jerusalém daquele tempo. E disse: “qual dos dois preferem que morra?”. Contando que o povo diria: “preferimos que morra o bandido que nos ameaça, do que Aquele que, pelo contrário, nos dá segurança, nos dá cura e dá vida”.
Eles berraram que queriam que Nosso Senhor morresse e que soltasse Barrabás.
Nosso Senhor morreu, e muitos acompanharam a Nosso Senhor até o alto do Calvário. E ali ainda houve mulheres que gritaram: “Que o sangue dEle caia sobre nós e nossos filhos!” Está no Evangelho. Eu não estou inventando nada. Está no Evangelho.
Assim se descrevem os abismos de maldade que podem caber no coração humano.
E nós somos propensos a não ter isso em vista, quando nós analisamos os fenômenos da História. Não ter em vista que estas coisas são possíveis. E que, portanto, nós nos devemos perguntar se em tal ou tal situação, elas não estão presentes.
Se é possível, porque não é possível agora? Eu não posso dizer que o que é possível em qualquer tempo, e que foi possível quando Nosso Senhor esteve em vida, não é possível quando um Plinio Corrêa de Oliveira qualquer está na vida. Onde é possível com Ele, todo o resto é possível. É evidente!
Se este mal não só resistiu a Ele, mas se tornou mais coriáceo, mais córneo e mais duro diante dEle; por que é que não pode existir também em nossos dias? É uma pergunta. E é uma pergunta que é impossível que um espírito lógico não ponha diante de si.
Posto isto, aparece então outra pergunta. Se isto é possível, que relação tem isso com algumas grandes punições que os homens têm sofrido ao longo da história, por exemplo, o Dilúvio.
Teria Deus, infinitamente misericordioso, lançado os homens em uma tão terrível punição, se não fosse o fato de que esses homens tinham caído muito baixo? Mais ainda: quanto Deus terá feito de bondade para eles, de bondade delicada, de bondade paterna, agindo no íntimo da alma deles, de mil modos, antes de fazer cair esse Dilúvio?
Nós temos gente sentimental que, quando lê o Dilúvio, fica com pena dos que morreram. Eu compreendo. Mas, essas pessoas não se lembram que Deus é melhor do que elas… É, é, é… e que se elas têm pena, Deus tem que ter tido muito mais pena! E tem que ter feito muito mais do que elas quereriam fazer. Elas pensam o que? Que Deus estava assistindo o Dilúvio de braços cruzados, e que elas é que têm pena. Elas são melhores do que Deus!
Onde pode uma cabeça estar, para chegar a pensar uma coisa dessas? Que obliteração pode entrar numa cabeça, quando pensa uma coisa dessas? É extraordinário. Mas é extraordinário! Não sei se estou sendo claro no que diz…
(Sr. –: Simmm!!)
Bem, vamos para frente, porque é preciso ir para frente. As senhoras pediram o tríplice tema, os senhores também, vamos andando.
Acontece, acontece que caiu o Dilúvio. Que caiu o Dilúvio, e que São Pedro, séculos depois, nos faz esta revelação: o Dilúvio foi uma obra de misericórdia. Espantoso! Foi. Porque, como aquelas águas iam subindo, à medida que as águas subiam, as pessoas iam subindo em árvores, em casas, em montanhas, mas iam compreendendo que ia chegar um momento em que não tinha mais onde subir. Quer dizer, momento em que iam morrer. E quando chegasse esse momento de morrer, as pessoas já tinham compreendido a cólera de Deus. Tinham compreendido quanto Deus estava irado com os pecados delas, e tinham um meio de se arrepender.
E São Pedro disse formalmente que muitas pessoas se salvaram, que não se teriam salvo se não fosse o Dilúvio.
Como são admiráveis e profundos os caminhos de Deus! E como na manifestação da cólera, de dentro da manifestação da cólera, se evola de repente, com o comentário de São Pedro, um perfume de bondade. Perfumes admiráveis do dilúvio.
Agora, meus caros, chegou a vez de nós tratarmos de Fátima. Não tem remédio…
Fátima, é preciso dizer antes de tudo, é uma revelação privada. Tudo quando estou dizendo do Dilúvio concerne à Revelação oficial, que todo católico deve crer sob pena de cair em heresia.
Fátima não, Fátima é uma revelação privada. E um católico não é obrigado a crer nas revelações de Fátima sob pena de heresia. Simplesmente ele deve fazer uso de sua razão, iluminada, ilustrada pela Fé, para analisar as narrações e se perguntar se ele tem motivos para crer naquilo. E as narrações são – a pergunta é: se os fatos contados em Fátima se deram; depois, se os fatos contados em Fátima tiveram uma origem sobrenatural.
Se tiveram uma origem sobrenatural, do que cada um pode certificar-se de acordo com o emprego das boas regras do raciocínio etc., há livros que tratam disso — a TFP tem um livro excelente escrito por Dr. Antônio Augusto Borelli Machado, e que trata muito bem do assunto Fátima — se a pessoa se certificar disso, por garantia ela andará muito bem, deverá mesmo fazer isso, se se perguntar qual é a atitude da autoridade eclesiástica face à Fátima.
Se os resultados são todos positivos, a pessoa chega à conclusão que aqueles fatos de Fátima se deram; em segundo lugar, que aquilo foi Nossa Senhora que falou, que é sobrenatural mesmo.
A pessoa tira depois a certeza de que a Igreja, sem mandar crer naquilo, porque não é Revelação oficial, entretanto prestigia de todas as maneiras aquilo, a autoridade eclesiástica prestigia de todas as maneiras aquilo, ela pode crer com toda tranquilidade. E se seu intelecto se encaminhou nessa direção, ela deve crer.
Esta é a atitude perante Fátima.
Acontece que, eu não tenho tempo aqui de dar a demonstração de que os fatos de Fátima se deram, nem de que eles tenham uma origem sobrenatural. Isso levaria uma conferência ou duas. Mas, eu vou tratar apenas dessa questão: o que é que a Igreja fez, as autoridades eclesiásticas fizeram em face de três partorezinhos, que vieram dar essa revelação de que aconteceu aquilo em Fátima, e que Nossa Senhora mandou tal mensagem assim. Depois vamos analisar a mensagem.
As autoridades eclesiásticas tomaram antes, e isto é quase um reflexo, uma atitude de muita cautela. Examinar bem e ver no que é que correm as coisas.
À medida que pelo exame elas foram deduzindo que havia razões para crer etc., etc., na medida que foi havendo isto, para admitir etc., fazendo análise teológica de todo o conteúdo da mensagem etc. etc., foram observando a vida dos pastorezinhos, para ver se eles se conduziam como pessoas que de fato tinham recebido uma insigne graça de Nossa Senhora. Tudo foi positivo.
Então começaram a permitir e depois a apoiar a revelação de Fátima. E esse apoio chegou a um tal grau que hoje, pelo mundo inteiro, há igrejas de Fátima. O que é que significa Igreja Nossa Senhora de Fátima? É um ato de fé de que Nossa Senhora apareceu em Fátima, e que Ela disse aquelas coisas que estão lá e que aquelas coisas são boas. Porque do contrário não tem sentido.
Fátima o que é? Fátima é o nome, ao que parece, de uma princesa maometana, num lugar de Fátima, no tempo em que quase todo Portugal e Espanha estavam ocupados pelos mouros. E essa mulher, essa princesa deixou o nome ligado ao lugar. É um nome árabe, evidente.
Bem, no lugar chamado Cova da Iria, um lugarejo, apareceu Nossa Senhora e disse isso aos pastorezinhos. Está muito bem. Agora, só por isso, de tal maneira prestigiar? Não. Era preciso que a mensagem fosse muito boa. E sobre a mensagem, sobre a importância que a Igreja dá a essa mensagem, a gente vê qual é, pelo terceiro segredo.
Se a Igreja, se o Papa, recebendo o segredo, desse risada: “Eu vou dizer o que é, não é nada, ha-ha-ha, olha aqui!”. E não fosse nada; ou se o papa não desse nenhuma importância aos partorezinhos: “Bom, esses meninos mandam dizer uma coisa admirável ou terrível, isto assim. Mas acredite quem quiser acreditar nessa criançada, eram uns pirralhos!”, se ele pensasse assim, era o que faria.
Vários papas se sucederam. Esses papas todos conheceram o segredo, e dizem que conheceram. Não contam a ninguém. Porque é que não contam a ninguém, se isso era babujem de criança? Há um modo mais claro de dar a entender que eles dão importância a essa mensagem? É impossível!
Agora, vamos para frente. Isto sendo assim, como eles mandaram legados à Fátima para coroar a imagem; o Papa Paulo VI esteve lá pessoalmente, teve uma longa conversa com a Irmã Lúcia; a Irmã Lúcia ficou freira, carmelita, a Igreja, portanto, lhe deu o manto de esposa de Cristo, enquanto ela o tempo inteiro sustentava e sustenta que ela viu aquilo, que a mensagem é verdadeira. E um legado que esteve em Fátima, levou uma coroa de ouro, se não me engano do Papa Pio XII, para a imagem de Nossa Senhora de Fátima.
Construiu-se uma colossal basílica, ali são distribuídos os sacramentos, ali é rezado o Santo Sacrifício da Missa, mas a todo momento etc., nos dias de peregrinação e tal. A Igreja trabalha à uma para prestigiar a mensagem de Fátima, e nós vamos pôr em dúvida essa mensagem? Quer dizer, o mínimo que se pode dizer é que o católico que acredita firmemente nessa mensagem, é digno do respeito e do acatamento dos outros católicos.
Isto bem posto, vamos ver agora o que Nossa Senhora disse em Fátima.
Nossa Senhora pintou um quadro do mundo. Um Papa pintando a situação psicológica ou moral do mundo em determinada época, ele pode errar. O mundo pode estar de um jeito, ele vê de outro jeito. Não na doutrina, mas na descrição do fato concreto. Mas, Nossa Senhora não pode errar. Aí não tem conversa! E se eu acredito que Ela pintou a situação do mundo de um determinado modo, eu devo crer que aquilo Ela disse mesmo, porque Nossa Senhora não pode se enganar. Ela, no alto do Céu, como Mãe de Deus, banhada na glória celeste, é impossível que Ela aparece aos homens para dizer uma mentira; é impossível que Ela apresente como mensagem de Deus uma coisa em que Ela esteja enganada! Ou aquilo não vem de Deus, ou aquilo é inteiramente verdadeiro. E é para ser tomado em bloco.
Bem, em 1917… notem que o comunismo ainda não tinha subido ao poder na Rússia. Em 1917 Nossa Senhora descreve a situação do mundo da seguinte maneira: que o mundo tinha afundado num tal abismo de imoralidade, que Ela dava ao mundo uma oportunidade. Se o mundo recusasse essa oportunidade, o mundo passaria pelos castigos que Ela dizia.
Quais eram os pecados?
Ela fala diretamente das modas imorais. Agora, quem fala das modas imorais, fala do conjunto da imoralidade humana, naquele tempo, não só da moda, é uma coisa evidente.
A moda imoral de que Ela fala, era o conjunto das imoralidades daquele tempo. Vamos comparar a moda daquele tempo com a moda de hoje… o que é que Nossa Senhora, se falasse aos homens hoje, diria sobre as modas de hoje? Não era de pasmar?! Os modos de hoje…
Eu estava lendo outro dia, um relato de umas instituições sociológicas etc., de estudo de opinião pública aqui em São Paulo. Eu não trouxe a nota porque não imaginei que fosse falar disso. Mas essas instituições são muito credenciadas, não me lembro do nome delas, mas são muito credenciadas. Elas chegaram à seguinte conclusão:
Que no Brasil, presentemente, está havendo uma transição na família moderna. E a transição é assim. Não me lembro bem se há 10 ou 20 anos atrás – eles põem um limite – o tipo ideal da família era família monogâmica (quer dizer, uma só mulher e um só marido), indissolúvel, (não pode divorciar depois); os filhos dependentes dos pais; as moças levando ao altar, mais do que o ornamento do seu véu, o ornamento da ideal e sublime virtude que o véu representa… não fala dos jovens, porque os homens há muito tempo tinham perdido o hábito de conservar a castidade até o altar.
E depois diz que os esposos deveriam continuar fiéis, tanto o marido quanto a mulher, mesmo depois do desquite. E que a moça e o moço deveriam conservar-se íntegros até o momento do casamento. Então, diziam que era o padrão da família há 20 anos atrás.
Bem, como é que descrevem o padrão da família hoje? Dizem eles que entrou quase completamente esse padrão, não inteiramente ainda. É uma evolução. A moça pode não estar íntegra quando se casa, não tem importância. O homem nem se fala. O divórcio entrou e tornou legítimo, dizem eles, o casamento sucessivo, várias vezes. Por outro lado, também é verdade, que a fidelidade conjugal, mesmo não havendo divórcio, é como queira. E, em última análise, casa quem quiser, não precisa casar. Esta é a família de hoje.
Alguém dirá: “Exagero desse instituto”. Bem, língua não tem osso, mas se é exagero, é um exagero pequeno.
Bem, o que é que diria Nossa Senhora, que tomava a família de 1917 e disse o que disse, o que Ela diria da família de hoje? Não sei se está claro o que eu estou dizendo?
(Sr. –: Sim!)
Alguém dirá: “Mas eu não gosto disso”. Está bem, isto é outra questão. Mas, eu não quero me pautar pelo gostar do senhor ou da senhora, eu quero me pautar pelo gostar de Nossa Senhora.
Nossa Senhora julgou necessário – julgou e era; porque se julgou, era, porque Ela não erra – Ela julgou necessário fazer conhecer aos homens esse castigo, precisamente para que os homens abrissem os olhos, para não ter que castigar.
Quem lembra esse castigo, não está torcendo para que ele aconteça. Está trabalhando para que ele não aconteça. Imita o papel de Nossa Senhora. Nossa Senhora revelou, não é como quem aparece assim: “Olha, vai agora aparecer um castigo… vocês vão ver!”.
Não é isso. Ela revelou para que não aconteça. Ela deu essas condições e deu outras.
O Santo Padre deveria consagrar a Rússia e o mundo ao Imaculado Coração de Maria — creio que também ao Sagrado Coração de Jesus — com os bispos todos juntos, não no mesmo lugar, mas na mesma ocasião, no mesmo momento, deveriam fazer essa consagração. E prometeu uma coisa que naquele tempo, antes do comunismo, não se podia saber o que significava: é que a Rússia se converteria, e haveria paz para o mundo.
Depois veio a explicação: se a Rússia se converter, não haverá guerra mundial, não haverá bomba atômica… a alternativa “red or dead”, vermelho ou morto, tem um terceiro elemento: Fátima, vermelho ou morto!
Então, “vermelho ou morto” é uma alternativa falsa. Se não se converterem, cairão nos abismos da morte, ou cairão nos abismos do comunismo. Não se trata de perguntar o que é pior ou o é melhor. Trata-se de fazer o que é bom, e fazer o que é bom é seguir Nossa Senhora. É uma coisa tão evidente!
Bom, Nossa Senhora fez mais.
Ela fez aparecer as almas caindo no Inferno, para que as pessoas compreendessem do que é que estão ameaçadas com essa vida que levam.
E mais ainda. Eu não conheço um caso – talvez os sacerdotes aqui presentes conheçam – eu não conheço uma revelação de Nossa Senhora, em que Nossa Senhora tenha aparecido, fazendo o que fez em Fátima: é o sol que despenca sobre a multidão, que foge espavorida. Para compreenderem a realidade dos castigos que Ela está ameaçando.
Mas, Ela está ameaçando para salvar. Ela não está ameaçando como quem diz: “Que bom, agora chegou a hora de esganar vocês!” Ameaça como Mãe.
Eu vejo jornaizinhos falarem aí que nós falamos da Bagarre como se nós estivéssemos assim: “ihhh, e agora, chegou a hora…” Nós estamos repetindo a mensagem, estamos nos reportando à Mensagem, estamos dizendo que leiam a Mensagem. O que é que estamos fazendo, outra coisa senão servir de ecos despretensiosos da mensagem?!
Bem, é natural então, é natural que nós falamos a respeito disso, e é nossa obrigação.
O que é que fez o mundo de 1917, vamos dizer, para arredondar as contas, até 1987 – 70 anos! Quase um século. O que é que fez o mundo durante este tempo? Não foram feitas as consagrações! Não se trata de indagar por que não estão feitas. Um amigo meu ouviu da própria irmã Lúcia, que não estão feitas as consagrações, não têm as condições pedidas por Nossa Senhora, não são válidas. Portanto, não estão feitas as consagrações, e melhorar, nada melhorou.
Eu vou pedir licença aos padres que estão aqui, às senhoras, eu tenho em vista quanto este lugar é respeitável pela presença dessa coroa de Nossa Senhora, mas não me levem a mal eu dizer: eu omiti uma coisa quando eu falei dos tais padrões da família moderna.
Entre os padrões que esses institutos declaram aceitos pela família moderna, estão – é preciso dizer – a homossexualidade, o aborto, e, portanto, também todas as formas de evitar nascimento, de limitar a multiplicação da prole.
Ora, constituem pecados contra a natureza. Alguns deles “bradam ao céu e clamam a Deus por vingança”. E isso entra nos costumes! E o hábito de insultar a Deus assim, normalmente, é tido com indiferença?!
Alguém dirá: “Está vendo? Percebe-se que o senhor se encoleriza!”. Eu diria: “É fato. Tal seria!”. Tal seria, tal seria que coisas que em vários episódios do Antigo Testamento despertaram a cólera de Deus, que não despertem a minha. Deus me livre de não me encolerizar! [palmas]
É preciso que, se apesar de tudo, essa cólera despencar sobre os homens, Deus encontre adoradores nessa terra. Que dobrem os joelhos, e transidos de admiração lhe digam: “Senhor, nós adoramos a vossa divina Justiça. Senhor, nós adoramos vossa divina intransigência. E ainda que as fagulhas de vossa intransigência e de vossa justiça tenham que me atingir também a mim, Senhor, ainda assim eu Vos adoro!”. [palmas]
Há uma frase latina, que os meus amigos mais jovens não gostam de ouvir, mas que é preciso pronunciar: “Fugite irreparabile tempus”! Foge, foge, foge… está fugindo.
Bem, eu preciso concluir. Por um recado que recebi estou dispondo de quinze minutos para concluir. E então eu preciso ir até à conclusão.
Por isso é que esses jovens desfilam assim. E por isso que eles levantam estas lanças; é por isso que eles têm essa intransigência!
Há uma mensagem a dizer ao mundo contemporâneo, que não exclui a permanente mensagem da misericórdia da Igreja, que é um eco dessa mensagem, porque é um eco da voz de Nossa Senhora, e que é esse: é preciso ter misericórdia, mas quando Deus julga que chegou o momento de ter um limite para essa misericórdia e haver a hora da justiça, é preciso dizer: “Vinde, ó justiça de Deus!”
É bem verdade, entretanto, que estes rapazes que os senhores viram aí, esses rapazes que quando se encontram diante de fórmulas muito recalcitrantes de Revolução, mostram o seu desagrado, sabendo que pode cair em cima deles até a incompreensão daqueles que manejam os meios de comunicação social, e que podem querer colocá-los mal diante da opinião pública, eles dizem “é assim!”, esses são dos que – não os que – mas dos que trabalham para que esse castigo não venha.
Porque, porque… quanto tem feito eles, e já há vinte anos, quando eles estavam brincando de bola, outros já faziam isto, quanto tem feito eles para manter a moralidade entre os jovens; quanto tem feito eles para difundir a fé católica; quanto tem feito eles para lutar contra o divórcio; quanto tem feito eles para lutar contra a reforma agrária que deixaria o Brasil a dois passos do comunismo – e a comunistização do Brasil arrastaria a América do Sul, e seria de um peso fatal para o mundo.
Quanto tem feito eles, para de todos os modos estaquear isto que está para cair! É ou não é trabalhar para que o castigo não seja merecido, para que ainda haja tempo para a misericórdia? Eles trabalham para que haja tempo para a misericórdia, contendo o pecado, mas ao mesmo tempo avisando: “Não pequem!”
Mas, ao mesmo tempo dizendo: “se pecarem, preparai vossas almas para a humildade durante o castigo; compreendei o castigo e amai-o, vós ainda podeis vos salvar”.

Nota: Consulte a coletânea ESPECIAL de documentos relativos à Fatima, clicando aqui.

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