Monsieur Berthélemy: o nhonho diante da Revolução, cripto-herói a serviço da bagatela e um homem que não viu a História passar – A dureza de coração sob aparência inofensiva

Sede do Reino de Maria, 25 de novembro de 1973 – Domingo

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

Aqui estamos nós tratando da vida de um homem cujo nome poderia ser a tradução francesa da palavra nhonho [*]. Seria Monsieur Barthélemy.
Um lado interessante dessa biografia sobre ele, eu li há não sei quantos anos, no tempo feliz em que eu não conhecia o escritor G. Lenotre, porque foi uma infelicidade tê-lo conhecido… porque se fica privado da alegria de o conhecer mais uma vez! E estou privado dessa alegria. Mas enfim, no tempo saudoso em que lia o Lenotre, tomei conhecimento dessa biografia, de maneira que sei mais ou menos do que se trata, e os senhores devem saber também (cfr. “Vieilles maisons, vieux papiers”, G. Lenotre, 4ème série, Perrin et Cie., Paris, 1925).
Trata-se de um indivíduo, que se tinha instalado, por concessão da Ordem de Malta, na torre que era a única coisa que restava das velhas torres dos Templários, era a Torre do Templo. Ali ele tinha construído para si um apartamento adaptado para ele, em francês se poderia exprimir “coquet”. Mas, de repente, aparece o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta para ficarem presos lá, e assim começa o drama de seu imóvel. E ele então acompanha os acontecimentos preocupado apenas em saber o que poderia suceder com sua mobília…
Porque a vida do nhonho é ter seus móveis e seus apartamentos, o que lhe interessava incomparavelmente mais do que todos os danos possíveis que o rei, a rainha e a França pudessem sofrer.
Então os senhores vão ver levado até o incrível – e contado com a doçura do Lenotre – a evolução deste homem, do nhonho no centro do torvelinho revolucionário.
Em termos mais precisos, o homem banal, baixo, sem horizontes, vulgar, ignaro, que, colocado diante de uma tragédia sublime, em que o Céu e o inferno disputam a posse do homem, em que entra o Sangue precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, ele apenas vê seus móveis, seu confortinho…
Quer dizer, na hediondez de sua alma, o nhonho está retratado nesse fato.
Os comentários que pretendo fazer, à medida que for lendo, são então todos orientados em realçar esse aspecto da personalidade do nhonho.
Há um provérbio português que diz mais ou menos o seguinte: “de sábio e de louco, todo mundo tem um pouco”.
Então, se todo mundo tem um pouco de mestre, de artista, de sábio e de louco, é preciso dizer que todo mundo tem pelo menos um pouco de nhonho.
Não há um que não tenha tido na sua vida tentação de fazer poesia a respeito de si mesmo. Não dos outros, mas de si mesmo.
É dessas vergonhas da natureza humana por onde nós pagamos um tributo horrendo ao pecado original, mas a coisa é assim e não é de outro jeito a não ser assim. Como também a maior parte das pessoas emotivas se comove quando estão em jogo. Por exemplo, na hora de se despedir, quando vão fazer uma grande viagem, elas choram. Mas é menos de saudades dos outros do que ver que os outros estão com saudades dela… Então a pessoa se emociona.
Tenho um pequeno cabedal de observações a esse respeito que eu poderia eventualmente dar aos senhores um dia. É terrível!… A gente tem vergonha de ser homem.
De nhonho, pelo menos, um pouco todos nós temos.
Ainda hoje estive lendo um trecho anti-nhonho de São João Crisóstomo, mas maravilhoso. Um dia pretenderia – junto com os simpósios que nunca vão se realizar sobre Proust, as memórias de Saint Simon – fazer com os senhores um simpósio sobre São João Crisóstomo. No Reino de Maria quem sabe?… Dr. Rodrigues acabou de me dizer que há remédios extraordinários para prolongar a vida dos velhos. Se isto for verdade, Dr. Paulo e eu ainda vamos viver durante muito tempo. Então vamos ter a oportunidade de fazer esse simpósio no Reino de Maria… (risos)
Mas São João Crisóstomo é tão diferente dos pregadores de hoje, que não se pode imaginar! Por exemplo o seguinte: ele vai censurar as pessoas que prestam pouca atenção nos trechos da Escritura que lêem. Então vejam o voo dessa censura: “ó vós que prestais menos atenção no texto da Escritura do que numa prostituta que passa pela rua…”
A vergastada! Porque nhonho é propriamente assim.
Mas o vôo! Porque o homem que não presta atenção na Escritura fica reduzido a tão pouco, a um tal lixo, que não se pode “lixificar” pior alguém do que com isso. É uma palavra de passagem, a bofetada está dada, e o santo vai grandioso para maiores horizontes… E o nhonho fica no chão gemendo e deitando pus…
É um grande modo de dar a lancetada. Isso é propriamente classe!
(leitura do trecho de Lenotre sobre M. Barthélemy):
“As faces cheias e cuidadosamente feitas, a tez clara, o nariz acentuado dos “raffinés”, a boca pequena com lábios gulosos, os olhos e as sobrancelhas de um moreno que acentua a vizinhança do “frimas” – o branco, pó de arroz da peruca. Uma nota: um signalement de Berthélemy se encontra nos papéis conservados no museu Carnavalet, e existem retratos diferentes dele em várias idades. A que nós reproduzimos deve datar de 1785.”
Aí os senhores veem o nhonho perfeito do Ancién Régime. Ele tem um pouco de elegância de Ancién Régime, porque o nhonho se adapta a tudo, e numa época em que se devia ser elegante ele tem um pouco de elegância. E a elegância os senhores notam sobretudo no pescoço. Esse é um pescoço que só se tem numa sociedade aristocrática: um pescoço alto, feito como um mirante, do alto do qual aristocraticamente se olham as coisas.
Depois, corolário do pescoço, a impostação da cabeça. A cabeça não fica em cima do pescoço como uma trouxa de roupa. Mas toma uma posição que é feita para dar ao olhar uma atitude que é superior e elegante. Porque os olhos descem assim num oblíquo cheio de desdém e de repouso. E é o auge do desdém quando é repousável assim. Desdém com esforço é de vira-lata. Desdém sem esforço, isto é o verdadeiro desdém aristocrático.
Berthelémy era um plebeu, não era um aristocrata. Mas era a época em que os plebeus, antes de se igualarem aos aristocratas, estavam tendendo ao macaqueado. De maneira que ele aqui macaqueia – é uma forma de igualitarismo – macaqueia o aristocrático.
Acompanhem os olhos dele. O olho dele não tem desprezo nenhum. Não tem nada. É vazio como dois botões. E são olhos que poderiam ser fabricados numa fábrica de botões para pôr em cara de boneco. Não tem nada, nada, nada! Vazio, besta. Ele, por detrás do “facies” aristocrático, está apenas pensando em seu conforto. É propriamente um cretino.
Os senhores olhem a bochechinha, é um dos lados por onde melhor se analisa o que o homem sofreu na vida. Não sei se os médicos aqui presentes concordam com isso – mas psicologicamente eu diria isso, é esta parte do rosto. Sobretudo o modo pelo qual a carnatura cai aqui, indica o que o homem sofreu ou o que pensou. Porque se o homem não sofreu ou não pensou nada, exatamente aqui ele é maravilhosamente conservado. Ele tem o que os franceses na linguagem incomparável deles chamam “visage poupin”. A coisa é quase onomatopaica, ele tem o rostinho de criança. Esse Barthélemy não pensou em nada. Os senhores olhem a fronte: não foi tisnada de dentro para fora por pensamento nenhum. É a fronte despreocupada por excelência. Olho vazio, fronte lisa, e aqui essa parte do rosto “poupine”: os senhores têm o cretino, o Barthélemy.
Os senhores vão ver daí para diante a passagem da cretinice e é uma coisa extraordinária.
“Assim condicionada, l’avenant…”
Ah! Ah! Ah! Vou me abster de comentar o Lenotre, porque do contrário nós não chegamos ao fim hoje… “l’avenant” se diz por exemplo de doces de confeitaria que são expostos na vitrina. Os senhores percebem a malícia magnífica no adjetivo, não?
“L’avenant fisionomia de M. Berthélemy assinalava um homem que a vida acariciava e que, em contrapartida, professa por ela um inalterável apego. Sem grandes riquezas que causam preocupações, mas dotado de uma suficiência que afasta as preocupações…”
É primoroso, não? Esses piruetas só um francês sabe dar: síntese, graça, charme. Não é síntese apertada e exprimida não.
“… ele tinha cuidadosamente ajeitado sua existência a fim de a preservar como o objeto mais precioso dos golpes e das batidas do mau destino. Seus graus universitários conquistados, e seu nome inscrito, em 1770, no quadro dos senhores advogados do parlamento em Paris, ele se tinha posto à procura de uma sinecura honrosa.”
Quer dizer, um lugar onde se ganha e não se faz nada.
“E assim obteve um emprego de guarda dos arquivos que a Ordem de Malta conservava na Torre do Templo.”
É um lugar ideal para não fazer nada.
“Perto de 400 dossiers de títulos velhos de cinco séculos e de mais de 1.200 registros cuidadosamente classificados nos armários fechados à chave, dos quais ninguém tinha acesso, eis o que simplificava o trabalho. Instalado na rua de Bretagne, nas vizinhanças de seu tesouro, o arquivista, entretanto, não se julgava completamente satisfeito.
“Encostado no enorme donjon do templo, ele encontrava, se encaixava numa construção desabitada que se chamava Pequena Torre. O senhor Príncipe de Conti, de amorosa memória…”
Era um “fassur” [depravado] libertino.
“…tinha outrora instalado ali uma sala de espetáculo onde, para ele só e alguns íntimos, algumas belas atrizes representavam coisas diferentes do que tragédias. Depois da morte do galante príncipe, a pequena torre ficou desocupada, e cada vez que, pela escada de pedra do velho donjon, bifurcando a meia altura no teatro abandonado, M. Barthélemy chegava a seu escritório. Ele pensava que um celibatário se talharia nessas grandes peças desertas um apartamento bem agradável. De antemão ele arranjava a distribuição…”
É um nhonho. Entra numa torre gótica e pensa num apartamento…
“…calculava a altura do teto, elevava tabiques, abria janelas. Ele levou 8 anos a fazer o seu sonho. – cuidadosamente seu apartamentinho – mas enfim ele se abriu a respeito do projeto com um grande bailio da Ordem, M. do Crussol.
“O modo de rejeitar o requerimento de um funcionário sorridente e zeloso, fazendo valer quantos perigos resultavam para os preciosos e inabordáveis arquivos de uma falta de vigilância constante, M. de Crussol consultou, portanto, o conselho da Ordem e este concedeu a Pequena Torre a Barthélemy, durante toda a sua vida, gratificando com seis mil libras para que ele se instalasse confortavelmente.”
Estava o senhor nhonho feito! O pézinho posto para entrar dentro do chinelo. Os senhores viram que alegou que ele ali protegia, pela sua presença, os preciosos arquivos… como se um animal desses protegesse qualquer coisa.
“A isto o arquivista se consagrou com amor. Ao mesmo tempo que ele pressionava os operários, ele corria pelos leilões procurando móveis. Bonitos móveis abundantes, cheios de incrustações de madeira, cheias de luzes, ou de lacas brancas, de formas frágeis, segundo o último gosto. Na casa de Yarcossin ele comprou tapeçaria, e ele fixou maduramente seu gosto sobre sedas doces ao tocar e lampas aux cassures opulentes. Ele pôs 10 mil libras do seu dinheiro nisso, e em menos de um ano seu ninho esteve pronto: bem fechado, acolhedor, cheio de plumagens, tão cheio de plumagens quanto se poderia desejar, e deleitável, o grande escritório no primeiro andar, perto da biblioteca, está forrado de seda amarela com bordaduras vermelhas. No salão em baixo, toda tapeçada de azul, poltronas à la reine, com lampas azul e branco, tamboretes em forma de coração – imagine, tamborete em forma de coração para ele sentar – cadeiras revestidas de “petit point”, “bergères” – que são aquelas cadeiras altas com orelheiras para as pessoas se apoiarem, então – chemillés cor de ameixas de Monsieur. ­(Monsieur era o título para o irmão do Rei). Para o quarto de dormir junto, uma larga cama revestida de um tecido de fundo branco, brochada com flores, escrivaninha de Boule, bureau de laca, secretaria “bois de rose” (um vermelho muito delicado) na parede, estampas picantes e imorais.”
É o interior perfeito para nhonho morar sozinho lá e se escarrapachar quanto mais e ficar mudando de cadeira, tranquilo, porque ali não era incomodado por ninguém, não havia risco, protegido pela vasta torre, e a sua vida passava nas delicias desse apartamento. É a nhonhozeira com as elegâncias do século XVIII, é a nhonhozeira perfeita. Não se pode ser mais nhonho.
(…) Atraio a atenção dos senhores para a graça com que o Lenotre conta isso. Ele vai alinhando e deixando falar os fatos, uma verdadeira maravilha.
M. Barthélemy colecionava todas as felicidades.”
Essa a definição do nhonho: um colecionador mediano de felicidade medianas… Os senhores me diriam: “não, Dr. Plínio, uma delícia!” Para aquele tempo, não. Para hoje é um trenzinho. Para quem mora em São Paulo, por exemplo, na rua Alagoas 350, isto é um trenzinho. Mas para aquele tempo isto era super mediano. Pensem em Versalhes e os senhores podem compreender como isto era mediano.
(…)
Agora começa a “Bagarre” do nhonho. O Lenotre, com uma arte consumada, ele pôs todas as delicias do Barthélemy e mostra como nada fazia esperar o que vinha. Que todos, para a vida dos Barthélemy, consta em épocas que nada pode alterar o rumo, e depois de repente o ruim acontece fazendo uma cara medonha… quando Deus quer salvar a alma dos Barthélemys, porque do contrário ele vai para o inferno sem isso.
(…) “No dia 10 de Agosto de 1792, ele tinha ouvido troar os canhões, bem longe, para o lado dos Campos Elíseos. O povo, soube-se durante o dia, tinha atacado as Tulherias, e Luís XVI se tinha refugiado com a Rainha na Assembléia Nacional.”
Era um dia de tragédia, a queda das Tulherias! Um dos dias mais trágicos da História. Ele descreve como é o que Barthélemy sentiu o fato. Ele ouviu boatos pela rua, ele não se incomodou com a coisa.
“No dia seguinte, leu-se nas folhas que a família real não voltaria ao castelo, inabitável desde o assalto. E se dispunha, havia a intenção de alojá-los no Palácio de Luxemburgo, vago desde que o Conde de Provence, irmão do rei, tinha emigrado para o exterior.
“No dia seguinte, um rumor diferente teve curso. Não era mais o Luxemburgo, mas a Chancellerie, na praça Vendôme, que ia ser habitado pela família real. Essas novidades, certamente, eram interessantes, mas como nada dentro ameaçava seu bem estar, Barthélemy com certeza não se emocionou.”
É o Barthélemy, indiferente à Revolução, indiferente a qualquer coisa outra, desde que seu cuidadinho não estivesse afetado.
Aqui os senhores veem nhonho durante a “Bagarre”, achando que não tem nada enquanto não cair uma pedra em cima da casa dele. Enquanto se entrar um monstro no quarto dele, e ir sem deixar rastro, também não tem importância. Se deitar na cama dele também não tem, a não ser na hora dele dormir. Aí é que começa a “Bagarre”: na hora de ele entrar na cama e estiver o monstro. Aí é que começa a bagarre.
“Entretanto, na Segunda-feira, dia 13, depois das 8 da noite, um movimento insólito se fez no interior do Palácio do Templo. Os altos salões, desabitados depois de três anos, se iluminavam com o fogo dos lustres. Uma multidão de funcionários e operários se acotovelavam uns aos outros, e soube-se depois no quarteirão que a assembleia, tendo confiado a guarda da família real à Comuna de Paris, esta designava o Templo para residência do rei deposto.
“Em grande tumulto, e à noite fechada, os carros da Corte chegaram ao Palácio. Luís XVI, a Rainha, seus dois filhos e Mme Elisabeth, acompanhados de uma dúzia de servidores, penetraram à luz das tochas, nos apartamentos do palácio. O corpo municipal se tinha gabado de elegância: um jantar de gala foi servido no salão central. Enquanto durou a refeição, Manuel, procurador da comuna se manteve respeitosamente em pé ao lado cadeira do Rei.”
É incrível! Proclamada a República, em pleno calor da Revolução, ainda um jantar de gala, que eu acho que Luís XVI, pomposamente nhonho, porque ele era nhonho coroado, comeu com o pior dos carrascos ao lado…
“Todo o exterior do palácio estava iluminado. Era aprovar-se geralmente a escolha dessa residência. Luís XVI ele mesmo se declarava satisfeito.
“Ainda, assim, antes do jantar que tardava, ele tinha percorrido os apartamentos e já combinado a distribuição.”
A França caindo, a preocupação de Luís XVI era quem dorme lá, quem dorme cá, naturalmente ele para dormir bem à noite.
“M. Berthélemy, se bem que a Revolução se aproximasse demais, não estava descontente ele também. Pois, em matéria de regozijo, ele tinha iluminado sua torre em honra dos hóspedes que eram recebidos no Templo.”
Lembram-se que a Torre era anexa ao Templo. A psicologia do nhonho está finamente descrita aqui. Quer dizer, ele está achando que a coisa está meio perto. Mas procura tirar seu partido divertindo-se.
“Durante a noite, uma linha de lampiões iluminou as ameias do donjon. Temendo acotovelamentos, o arquivista se tinha recolhido no seu oásis, quando às 10 horas da noite ele ouviu um grande barulho na escada”.
Acho que está magnífico! Vamos dizer que está quase sádico em relação ao Barthélemy. Mas está perfeito.
“Em um instante seu salão se encheu de gente.
“O que é que há? Resposta: é preciso mudar. Mudar?! A família Capeto vai se instalar aqui. Por uma noite? Não, para sempre: prisão perpétua. Mas, e o palácio do Templo? – O palácio não é seguro. A comuna deu a ordem de alojar os prisioneiros na pequena torre. – Na Pequena Torre? – E depressa. É preciso que o local esteja abandonado dentro de uma hora.”
A Revolução entrou na vidinha do nhonho. Acabou! Porque aqui não tem mais saída. O resto vai ser um drama para recompor a nhonhozeira perdida. Assim como Proust escreveu “À la recherche du temps perdu”, aqui se poderia dizer “À la recherche de Berthelemey perdu ».
“Uma cratera de chamas e de lavas estourando sob os passos de Barthélemey teria causado ao infeliz menos emoções e estupor.”
Quer dizer, os senhores estão vendo o imprevidente: não tinha pensado em nada.
“Divagando, em lágrimas, ele suplica aos intrusos pedindo um prazo um pouco maior. Um dia somente, um dia para fazer valer seus direitos. A casa era bem dele, ela lhe tinha sido concedida durante a vida inteira…”
Como se direitos adquiridos valessem nessa emergência… Mas isso é bem o nhonho! Ele tira uma escritura pública: “Olha aqui a escritura…”
“Quem o ouve? Já as peças estão invadidas. As botas cheias de lama dos comissários enlameiam os tapetes; as pesadas espadas dos oficiais sacodem, esbarrando nos móveis. Os operários carregam sobre os ombros os canapés de coisas delicadas e as engolfam, chocando os canapés em todos os ângulos, no dédalo sonoro da escadaria, obstruída de pessoas ocupadas e repercutindo chamadas e blasfêmias.
“Aonde ir? Sob que teto a essa hora, num dia de motim encontrar refúgio? Ele mesmo pouco se importa consigo. Mas seus móveis!”
Aqui está bem o Barthélemy! Quer dizer, a psicologia é primorosa, como nhonho perfeito!
“Do lado de fora, em volta da porta baixa, o movimento de uma colmeia no trabalho. De uma carretinha, os tapeceiros descarregam as camas trazidas do Templo. Catástrofe! Há mais! Choveu. O solo está úmido, o céu cheio de nuvens. A luz balançada das lanternas, as poltronas cor de botão de ouro e as cadeiras em lira, parecem, postas lá, ou com os pés na lama, minados, ridículas”.
Os senhores podem imaginar na lama cadeirinhas em forma de lira. É uma coisa atroz. Os senhores vêem o que é que é arte de contar…
(…) “Em volta de Barthélemy, lamentando, os vizinhos, cheios de caridade se apressam. Alguém lhe sopra uma ideia. A Igreja do Templo está desafetada, é próxima. Pode ali levar seu mobiliário. Darque, o antigo bedel, entrega as chaves. Através dos pátios a cadeia se organiza como em um incêndio. E Barthélemey vai de um a outro, corre à igreja e volta à sua casa invadida e saqueada. As pessoas o sacodem. As camas são levantadas por toda a parte, mesmo na cozinha. São necessárias 16 camas. O valet de chambre do rei está lá, com uma vela na mão, tomando posses consternado com a desordem. Enquanto se tira da cozinha os velhos vinhos do arquivista, que ele quer antes de tudo salvar do assustador desastre, enquanto se empilham sem nenhuma atenção nem nenhum respeito as garrafas cheias de pó, ele vê passar na noite, como lamentável cortejo a família real: o Delfim antes, titubeando de sono, depois o rei, num passo calmo, a rainha, num frêmito, que é escoltada pelo resto da corte; algumas damas, alguns lacaios e alguns valet de chambre e uma multidão de funcionários de penachos na cabeça com as cores tricolores.
“Todos, carrascos e prisioneiros, entram e se enfurnam na porta, montando em longa fila a escada de pedra. Barthélemy vai seguir: alto! não pode passar! Ele se esforça para explicar. A sua mudança está apenas começada. Ele tem recomendações a fazer. Uma fila de gendarmes empurra os curiosos, esvazia o jardim, os pátios, ele é acotovelado, rolado, mandado embora, ele na rua, perdido no meio da multidão em rumor. As portas se fecham.”
Não saberia contar melhor! O infeliz, que acha que um filme tem mais vida do que isto, é um precursor da civilização da imagem… Isto tem muito mais vida do que um filme. Isto é vida! O resto… a rigor dos rigores, um bicho, pode ver TV também. Eu não sei quais seriam as reações de um macaco diante da TV. Isto aqui é inteiramente impermeável para o macaco. Isto é o habitat próprio do homem.
Reação do Barthélemy:
“Ele não se afasta, incrédulo ainda do seu infortúnio, rondando em torno do recinto dominado por sua querida Torre, cuja coroa de lampiões se apaga durante a noite…”
É maravilhoso. Aos poucos, na noite, os lampiões da festa dele vão se apagando. Ele sozinho, em volta, rondando.
“Na aurora, ele está colado às grades, mas as recomendações são inflexíveis: toda uma guarnição ocupa o Templo; há canhões na Corte e patrulhas circulam na praça de guerra. De uma porta a outra, expondo que seus móveis estão ali; que não lhe deram tempo para mudar, nem sequer o primeiro andar; duas salas entre vinte. Ele está sem asilo, sem outra roupa senão aquele que ele tem sobre o corpo. Por toda a parte o mandam embora, ninguém consente em ouvi-lo.”
Os senhores estão vendo ao mesmo tempo o castigo e a mesquinharia do personagem. Quer dizer, ele não tem uma preocupação com a civilização cristã que vai embora. Ele não tem uma preocupação com os direitos da Igreja Católica conspurcados nesse modo de esmagar a Ordem de Malta. Ele não tem a menor preocupação com uma dinastia de mais de mil anos que rui. Ele nem tem sequer essa misericórdia minor e humanitária em relação a uma família que está votada à maior desgraça e ameaçada do pior terror. Ele não pensa na honra que ele vai ter em que seus móveis sejam usados por essa família, e que seus móveis, por serem confortáveis, vão atenuar um pouco essa desgraça augusta. Ele não vê que ele poderia ser o Cireneu, atenuando a desgraça da família real.
O que ele deveria fazer era ter oferecido que tudo ficasse lá dentro, ter dado a chave da adega e indicado os melhores vinhos. Isso que ele deveria ter feito, e ele poderia ter entrado para a imortalidade da petit histoire, senão da grand histoire!
O contrário, é o miserável, o mesquinho, apegado, de vistas curtas, que só está pensando na sua nhonhozeira. E que então, às voltas com a bagarre, só tem pancadas, porque não há mais lugar para homem como ele. Ninguém mais pensa nessa porcaria. Trata-se de construir e de destruir. Os que querem morar, os que querem simplesmente conservar não têm mais lugar.
É o ocaso inglório, infecto, miserável, do nhonho. Eu acho que está perfeitamente nem apanhado.
“Ele contou depois, que durante várias noites vagueou pela cidade, não sabendo onde alojar-se, reduzido a pedir de empréstimo a cama dos amigos, desprovido de roupa, não tendo sequer uma camisa para mudar.”
É o castigo. Mas os senhores vão ver que o nhonho, o castigo não abre os olhos do miserável. E que ele conserva na desgraça a mesma mentalidade. Ele só está pensando que não tem cama, não tem comida, não tem roupa para mudar, os acontecimentos o deixam inteiramente indiferente. É o homem do gozo da vida por excelência!
“De todos os lados rejeitado, ele resolve redigir uma súplica. Nessa súplica contava os fatos e enumerava o que ele perdeu. A lista era longa, ainda que redigida de memória.”
 Ele se lembrava de todas suas listinhas. Era rememorando no infortúnio o seu paraisinho: tantas garrafas tantos chinelos etc.
“Ela ia desde o grande canapé de seis poltronas dita à la reine, em lampas azul e branco, até os objetos de lareira e as tenazes de sua caixa com instrumento.”
Porque o nhonho tinha para sua casa uma caixa de instrumentos de carpintaria. Então ele menciona até isto porque ele se lembrava de tudo.
“Sua reclamação ficou sem resposta. A municipalidade onde ele se apresentou pessoalmente, a fim de ativar as coisas, ele foi passar de uma repartição até a outra, conduzido até o procurador síndico, que dirigia os serviços de sequestro, o qual aconselhou a se interessar mais pela sua casa os cidadãos que compõem o conselho geral. E força de viajar nos corredores da casa comum, ele obteve que uma comissão fosse nomeada para examinar seu requerimento, o presidente dessa comissão era o cidadão Truchon. Barthélemy foi visitá-lo, certo de uma revanche.”
Os senhores estão vendo que ele queria tirar da família real este último conforto, para ele poder se instalar. Respeito, veneração, comiseração, nada! Aquela ferocidade do nhonho, porque nhonho é uma fera, uma fera preguiçosa, mas é uma fera. Ele está pensando só isso. É atroz.
“O cidadão Truchon não era um homem mau. Ele tinha maneiras sem rudez, mas um aspecto terrível. Condenado outrora por bigamia, dizia-se, ele deixou crescer sua barba, a fim de se tornar irreconhecível.”
Naquele tempo o homem barbado era raríssimo.
“Ela lhe caia quase até o abdômen.”
Isso para nhonho é assustador. Vejam aquela carinha, arranajadinha, arranjadinha…
“Essa singularidade o tinha tornado popular. Chamavam-no o homem da barbona. Membro da comuna insurrecional, Truchon era ardente sans-cullote. Na exposição do doce arquivista reclamando um grande canapé e seis poltronas ditas à la rainha com lampas azul e ses bergeres chenillèes de Monsieur, o homem com a grande barba farejou sem dúvida um aristocrata, e todo seu pelo se eriçou. Barthélemy preferiu não insistir.
“Ele se desolava não poder entrar na sua torre! Os jornais, cada dia, publicavam que Luís XVI se encontrava bem instalado e dormia de um só sono, que ele lia muito, tendo descoberto numa sala da tourelle toda uma biblioteca agradavelmente composta. Barthélemy teria chorado de pesar.”
Os senhores estão vendo, em vez de dar graças a Deus que o rei ao menos fosse se distrair, não. Quer dizer, está perfeitamente bem apanhado isto no texto.
“Eram os livros que um outro lia. Os seus caros 1.400 volumes colecionados com tanto amor. Era na sua cama que se dormia tão bem. Sua boa cama com um dossel de camelot vermelho e amarelo, com seus dois colchões, com seu [inaudível] quente e a sua tafetá creme. Ele morava agora num miserável quartinho, alugado sem gosto na rua dos Padres de São Paulo, atrás da Igreja de São Luís, uma rua sórdida, torta e suja.”
Quer dizer, é o castigo do nhonho perfeito. Mas os senhores estão vendo o nhonho resistir ao castigo. Ele não abre os olhos, nem em seu coração há o mínimo de ternura. A dureza de coração do nhonho é tremenda.
Vale a pena um pouquinho, para os senhores compreenderem a situação, virarem a página e olharem um pouquinho aqui a reprodução do quadro com a cara do Barthélemy, para os senhores se darem conta de que isto é dureza de coração!
Dureza de coração, segundo o “heresia branca”, é o homem da barbona. É a “facia feroce” [cara feroz] que é o coração duro. Não! São essas carinhas que tem coração duro. Isto é assim e não é de outro jeito. E tão duros que não são apenas duros para o rei, mas coisa infinitamente pior, são duros para com Deus. Deus o prova, Deus persegue, Deus quer por esta forma chamá-lo a si ele não reage. Por quê? Ele é daquele jeito e não quer ser de outro! Esta é a dureza extraordinária, a maldade do nhonho. Esta é a falta de caridade do nhonho.
 Este artigo, muito mais do que uma descompostura, põe os pingos nos “ii” a respeito do nhonho para quem sabe ler.
“Ele tinha sabido também, porque Paris é guloso de pormenores sobre o Templo, que penetrando no quarto o rei tinha ele mesmo tirado da parede as bonitas estampas que faziam tão bom efeito sobre o tecido.”
São as tais estampas imorais, porcas.
“Não querendo, dizia ele, que sua filha pusesse os olhos sobre tais coisas.”
Porque é bem “heresia branca” de Luís XVI, porque o filho podia ver. Mas a filha não. Mulher não deve ser impura.
(…) “Encontraria ele tudo isso? No seu rancor Barthélemy se punha de novo a fazer, pela 10ª vez, a sua lista. Um grande canapé, seus poltronas à la reine… empenhando-se em nada esquecer, passeando em pensamento pela sua querida casa a fim de não esquecer nenhum objeto. Depois ele dirigia esse momento aos poderes públicos que, ocupados em outros assuntos, se obstinavam em não responder.”
A França estava em guerra com toda a Europa levantada. Havia perigo de guerra interna, havia problemas de evitar a fuga do rei, havia cisões entre os revolucionários, no meio disso, nhonho aparece requisitando suas seis poltronas, tátátá… ele era mandado embora como um fantasma dos outros tempos.
Lenotre não diz, mas insinua, que ele descia sem ter entendido. Não entendeu nada. “Por que não me atenderam? Quando eu tenho lá os meus móveis? Não, não pode ser…”
E este é o grande equívoco do nhonho. “De louco, de poeta, de sábio, de nhonho, cada um tem um pouco”… Nós podemos encontrar traços mais ou menos visíveis dessa mentalidade olhando para nosso vizinho da direita ou da esquerda. Em nós não, mas olhando para nosso vizinho da direita ou da esquerda…
“Entrando em si mesmo de novo, o arquivista julgou que ele não tinha dado bastante garantias à Revolução, e que seria talvez mais hábil fazer o papel de patriota–republicano. Antes de tudo, ele prestou um juramento cívico.”
Quem é que se importava com um juramento cívico dessa pulga? Mas ele foi prestar seu juramento cívico.
Depois ele se destaca por seus dons patrióticos: ele oferece à Republica um fuzil com a coronha de aço, dá 200 libras para o equipamento de um batalhão franco; mais tarde, espaçando seus sacrifícios, ele contribuiu com 150 libras para as despesas da expedição com seus bandidos da Vandeia.”
Os senhores estão vendo nhonho que vai aderindo à Revolução para salvar os seus móveis, para constituir um pequeno interior burguês. Quer dizer, a dureza de coração vai dando em Judas. Judas ganhou 30 dinheiros. Ele dá 30 dinheiros, para ver se ele obtém a compensação dele. Ele vai se afundando na Revolução Francesa. Quer dizer, a infâmia vai cobrindo o nhonho.
Acho que seria quase o caso de os senhores acompanharem isso com uma mão aqui na fotografia, para verem a carinha, a face “poupine”. Os senhores vejam esse homenzinho prestando juramento de fidelidade à Republica, e depois dando dinheiro contra os bandidos da Vendée. O bandido não era o homem da barba grande e os outros que iam lamber as botas nos escritórios da Revolução, mas eram os heróis da Vendée. Este miserável, que não tem pena do Rei, não tem pena da Rainha, que não tem pena da religião, este miserável chama de “bandido” os heróis da Vendée.
Este é um bandido! Portanto meus caros, isto é cara de bandido. Às nossas idéias infantis e comuns sobre cara de bandido, nós temos que acrescentar outras. Nós temos a idéia de cara de bandido de uma criança de cinco anos, que forma uma cara. Isto é uma forma de bandido. São os bandidos que não vão para a cadeia. E que estragam muito mais o mundo do que os que vão para a cadeia. Esta é uma forma de banditismo.
Os senhores sabem que banditismo é esse? É o banditismo que oprime os contra-revolucionários. Esses são os escravos dos “sapos”, e que fazem para nós cara feia com medo dos “sapos”. E que são capazes de nos abandonarem, de nos venderem para salvar uma Frigidaire. Aqui está. Isso é cara de bandido. Bandido é isto. Não é só bandido comum, convencional, folclórico. O bandido mais comum, mais real, é este. Cara de bandido é isto.
(Aparte: O senhor disse há algum tempo atrás sobre um automóvel que se recusou a pegar uma pessoa ferida na estrada porque ia sujar o estofamento.)
É isto. É bem exatamente isto. Vai sujar de sangue o estofamento. Um bandido! Os senhores olham, tinha um ponto cafageste: a mentalidade do Barthélemy. Quer dizer, é o Barthélemy sem qualidade. O Barthélemy ao menos macaqueia um pouco de distinção e de nobre.
“A despeito das diversas manifestações que o classificavam, imaginava ele, entre os sólidos, os seus móveis não lhe eram restituídos. Parecia-se ter esquecido a ele. Entretanto um dia, a esperança súbitamente veio. A família real tinha deixado a Petit Tour e depois de fins de outubro ocupava os apartamentos criados por ela no donjon da fortaleza, numa torre grande. Barthélemy correu para o Templo, e depois de suas semanas de insistências chegou a penetrar no seu antigo alojamento. Era o dia 11 de Novembro de 1792.”
Essas são as anotações de Barthélemy no museu Carnavalet. Quer dizer, ele não toma nota da morte do rei, da queda da Rainha. Não. As memórias dele indicam que ele voltou para a sua casinha. A história é composta da história do conforto dele. Vejam como confere com a carinha. Essa é a dureza dessa alma. É a própria expressão do coração duro.
“Hélas! Daquilo que ele tinha deixado lá não restava senão trapos e detritos. Além dos detritos tinha sido necessário prover a uma população de carcereiros, de comissários, de cozinheiros, de fiscais e de oficiais, e seu mobiliário se tinha assim dispersado nos vários andares das duas torres do corpo de guarda, alguns de seus pobres livros era a única coisa que restava. Que miséria! Manchados, desbotados, com os cantos das encadernações quebradas, formando um monte de lado. Com o coração em pedaços, ele esboçou uma primeira classificação. Mas quantas obras tinham sido desemparelhadas: primeiro volume de um, terceiro da outra.
“Entretanto, ele se ocupava a colocá-lo um pouco em ordem, quando a ronda se ouviu à porta. Ele se apresentou no dia seguinte, esperando continuar a sua triste atividade: o guichê não se abriu.”
Os senhores vêem como a Providência chama esse homem para poder desenganá-lo. Porque tudo isso são graças para ele. Ele ver a ruína: “não conte mais, porque isso não volta. Você não terá. Pelo menos agora desapegue-se…”
Lembra-me a frase, creio de Bossuet, para um daqueles que estava muito velho e não podia mais praticar certos vícios, mas que apesar disso tentava praticá-los. O pregador que encontrou com ele, disse que tinha sabido disso e disse: “Qual, Monsieur, o vício vos abandona e vós não o abandonais?”…
São uns ditos franceses que liquidam uma situação. Aqui também: os objetos de seu apego, de seu vício, porque isso é um vício. Evidentemente é um viciado. Os objetos de seu apego o abandonam, e vós não os abandonais, está aí, Barthélemy, você já pode não mais esperar, seu paraisinho não mais ressuscitará!
Ele não se desapega. A dureza dele é maior do que a de São Paulo rejimbando com Juliano.
“Compreendendo bem agora, que jamais ele veria esses objetos amados, entre os quais estavam, se tinham transcorridos anos felizes, Barthélemy se resignou. Pelo menos ele queria ser indenizado, e nesse sentido foi que ele escreveu ao ministro. Como muitos outros, ele estava totalmente ignorante das incontáveis administrações que tinham subitamente engendrado o novo regime, e cujas atribuições, aliás, eram muito incertas. No seu tempo, na Ordem de Malta, as pessoas se dirigiam ao grande bailio, que estatuía segundo bem lhe aprazia. Mas hoje, ele ficou sabendo que do bureau dos comissários especiais encarregados de emitir um parecer, a sua petição tinha passado para as mãos dos prepostos para as construções, que tinham transmitido à administração dos trabalhos públicos.
“Este tinha consultado os comissários da comuna de serviço no Templo, de onde o requerimento dele voltou para a seção de registro, para de lá ir à seção administrativa do patrimônio, que declarando-se incompetente o dirigiu ao bureau dos bens nacionais.”

Torre do Templo (ca. 1795)

Depois isso é histórico, quer dizer, é assim. Ele vem aqui com as narrações do Barthélemy, porque depois em baixo vem as memórias do Barthélemy contando.
Agora ele está submersos sob as leis da Revolução, esmagado por uma Revolução da qual ele não é inimigo. Porque ele não quer que cesse a Revolução Francesa. Ele não quer que a história mude o curso, ele não quer que os homens mudem de mentalidade. Ele quer uma indenização. É só o que ele quer, não quer mais nada.
“O arquivista não ria mais. Ele vivia a vida do passarinho sem ninho (sur la branche), sucessivamente abatido ou reconfortado, segundo ele julgava que as peripécias revolucionárias nocivas, segundo ele estimava que as peripécias revolucionárias eram favoráveis ou nocivas às suas reivindicações. Ele era então abatido ou reconfortado. Por certo, como muitos outros, ele se teria enternecido com os infortúnios reais, se essa lamentável tragédia se tivesse passado em outro lugar que não na casa dele. Essas cartas refletem o singular estado de espírito de um homem absolutamente indiferente a tudo que não modifica a sua situação pessoal. Assim, a morte de Luís XVI lhe diz pouco.“
Vale a pena ler como eu estou lendo aqui. A morte de Luís XVI diz pouco a esse homem sensível, com aparência sensível e acessível. Banditismo.
“A Rainha e as duas crianças serão sem nenhuma dúvida, reclamadas pela Áustria e banidos para todo o sempre.”
É a esperança dele. Quer dizer, na morte de Luís XVI, segundo os apontamentos dele, não é conjetura do Lenotre. Lenotre explica: está nos papéis dele no Carnavalet. E a psicologia dele. Ele só vê um lado bom: a Áustria vai reclamar a rainha e os filhos e ele vai voltar… Esse é o coração duro.
Mas o Templo continua a prisão de estado.
“Por sua vez, Maria Antonieta é convocada perante os juízes e transferida para a Conciergerie: é bem o fim desta vez. A república não vai prender uma menina de 14 anos, um menino de  8, até que eles morram de velhice. E Barthélemy pode-se lisonjear que suas maiores infelicidades chegam a seu termo.”
Olhem a carinha dele… O drama terrível do menino, filho de Luís XVI e Maria Antonieta, sabia-se pelos jornais que o menino estava murado vivo, que a menina estava sozinha, sujeita, portanto, a violações, sujeita a tudo, isto para ele não era nada. O problema é que ele daqui a pouco voltasse para as muralhas. Olhem a carinha. Quanto essa carinha nos fala para nos tirar mil ilusões da cabeça!
“Mas ainda não. Ele sabe que um sapateiro é o preceptor do filho de Luís XVI. Um sapateiro! Sobre suas belas fauteuils de lampas bleu et blanc!”
Quer dizer, a preocupação dele não é o filho do Rei entregue a um revolucionário. É o sapateiro sentando-se na sua poltrona. Ai os senhores vêem a torpeza até o fim.
“Que acontecerá com seus livros, seus finos licores deixados nos seus armários na sala de jantar? Mais tarde o silêncio se faz sobre o Templo. Sinistras lendas cercam de brumas as velhas torres. Pesadelo para todos e para ele só guardando um paraíso, um prestígio de paraíso perdido. Ele não se resigna. Bom número de servidores do até aqui chamado Grão Prior estão empregados na prisão. Darque, ex-sacristão, tem um guichê lá. E ainda o inválido Manuel e o terrassier Fontaine que foram empregados do Conde de Artois; o homem que carregava lenha Gourlet, e a mulher que fazia consertos Rokenstroh, estão, eles também, no Templo, há um bom tempo. Por eles Barthélemy pode-se manter ao corrente: o pequeno Delfim está presentemente murado no apartamento onde ninguém penetra, jamais varrido, cheio de lixo, invadido pelos ratos. O apartamento está formigando de vermes. É horrível. Em que estado os móveis estarão la?”
Olhem a carinha do Barthélemy. É preciso olhar essa carinha… Uma porção de ilusões nossas a respeito de gente boa e gente ruim cai. Porque, os senhores não me levem a mal de dizer, eu digo por afeto para com os senhores. Se eu for otimista, direi que 90% dos senhores que não conhecesse essa leitura olhariam para esse homem e diriam que ele é ligeiramente impertinente, ligeiramente pedante, inofensivo, e portanto no fundo bom. Pelo menos 90%. Estas são as vivências e a educação que a minha geração deu à seguinte, deu do bem e do mal. O homem mal tem cara de bandido de conto de criança. As crianças de hoje não acreditam mais no conto de fadas. Elas ainda acreditam no conto de bandidos, também é preciso reconhecer que não há mais fadas e que os bandidos ficaram.
Mas é também verdade que por isso para eles o homem ruim é apenas o bandido, e, portanto, o homem com cara convencional de bandido. Donde mil choques psicológicos comigo. Porque começo a desconfiar de gente com essa cara, e as vivências dizem que é gente boa. Tão boa que até parece com fulano de tal… Ora, como pode fulano de tal ser um bandido? Frequenta a minha casa!? Como pode ser um bandido? Mentalidade bartelenesca. Puríssima e simplicissimamente…
“Ao voltar dessas dolorosas investigações, a amargura do pobre homem, submetida por demais pressões, estala em novas lamentações. Da sua mais bela letra ele escreve: eis a lista do que me pertence, permanecida na Torre do Templo.”
Os senhores estão vendo, é sempre a mesma coisa. É copiado dos papéis dele, é citação dele.
“A cada cópia, a lista se alonga. Ele estabelece de memória, e suas memórias se precisam à medida que aumenta as suas lamentações, seus pesares.”
Os senhores estão vendo o homem que fica longamente nas horas vagas, ativando a memória para não esquecer de nada para recuperar tudo. Olhem a carinha: os senhores não diriam que é um homem mole? A dureza dos homens moles quando se trata de defender a sua moleza. A energia dos homens moles quando se trata de defender a sua flanação. A atividade dos homens moles quando se trata de defender a sua preguiça.
No começo Lenotre o aponta como preguiçoso. Agora aqui o que é que ele é? É um homem infatigável. Mas é porque se trata de defender a preguiça. Isso é o terrível desse gênero de mentalidade.
“Ele pormenoriza agora as baterias de cozinha, e até as ratoeiras. Ele se lembra de suas navalhas excelentes e inteiramente novas que no dia do acontecimento ele não teve tempo de levar.”
Portanto sem navalhinhas para a carinha ficar redondinha.
“O acontecimento – jamais ele fala de outra maneira…”
Numa época cheia de acontecimentos foi que esse rato teve que sair de dentro de seu queijo. Não há outro.
Para ele, na luta formidável da Revolução contra a resistência encarnecida do antigo mundo, um só fato conta, um só vale, que vale a pena se ocupar: é sua mudança precipitada. Seu exílio numa casa da qual ele, entretanto teria o direito de gozar a vida inteira.
“Aconteceu que uma de suas súplicas – nem todas se extraviaram – fez o caminho até o comitê de saúde pública e foi colocada sobre a mesa de Couthon.”
Couthon era um revolucionário horrível. Paralítico, vivia montado a cavalo no pescoço do marinheiro. Era do “comitê de saúde pública”, que mandava matar as pessoas. Era o fundo do inferno. Também quando o comitê caiu, o marinheiro não teve cerimonias: colocou Couthon junto a uma escada, e foi embora. E Couthon foi massacrado assim.
“Era no mês de floreal do ano dois, pleno Terror…”
Notem a ironia. Mas de florial, mês das flores, pleno Terror.
O francês precisa ser lido assim, senão a gente não cheira todo o sabor. Porque ele não acentua a ironia. Pegou, pegou; se não pegou, não pegou. Quer dizer, é um sujeito que não tem o mínimo empenho que se perceba que ele fez uma coisa genial. Ele falou. Se pescou, pescou. Se não pescou…
“O tom da reclamação não era incívica, pois ela consistia numa lista de objetos. Mas a menção do fauteils à la reine e das bérgeres – ameixas de Monsieur – destacava temerariamente das circunstâncias.
“Couthon, se informando a respeito do signatário, soube que esse arquivista dos cavaleiros de Malta tinha ostentado a semi-cruz da Ordem, distinção que aliás não obrigava a nenhum voto nem conferia nobreza. Entretanto, esses títulos soavam mal, e por bem pouco Berthélemy não foi tratado como um resto impuro da odiosa tirania.”
Era a linguagem comum etc. que esse pessoal de barba comprida falava os senhores sabem que nessa época, estava votada uma lei chamada “Lei dos Suspeitos”, pela qual os suspeitos, suspeitos de parcialidade a favor, contra a Revolução, podiam ser condenados à morte. E era suspeito todo aquele, por um derrativo da lei, que sem ter provado simpatia com a Monarquia, não tinha demonstrada sua adesão à República. Vem um Barthélemy no meio disso e nem aprende o que se passou. Continua falando nas cadeiras da rainha e nas ameixas de Monsieur. Couthon vê uma coisa dessas: Eu me lembro do caso de uma família em cuja casa fizeram uma perseguição e encontraram umas colherinhas de café em cujo cabo estava desenhada uma flor de lis. Era uma dúzia de colherinhas. Por causa disso a família foi arrastada para a guilhotina. Porque não tinha jogado fora esse símbolo da Monarquia.
O Berthélemy ouviu falar de tudo isso. E que nhonho não gosta de ouvir falar disso, em primeiro lugar. Segundo, não se interessa, porque não é questão dos móveis, que é só o que interessa. Resultado, faz essa petição maluca. Ele se conserva otimista até o fim, resistindo à graça com uma dureza de Barrabás. Esse é um pequeno Barrabás, hein?
(…) “Quando o Templo ficou vazio de todos os seus hóspedes, falou-se lhe devolver seus livros, desemparelhados, é verdade, e em mal estado. Mas ele exigia pelo resto uma indenização: 15 mil libras. O governo ofereceu 8 mil. Barthélemy recusou.” (…)
Então, ele, além do preço, quer indemnização. Ele continua otimista hein? Ele agora quer fazer negocinho. Ele não percebeu nada.
“Este mercadejar durou três anos – ele sem dinheiro hein? – Enfim, foi preciso ceder a esse horrível solicitador que fazia frente a todos os governos e no ano quarto seus móveis lhe foram restituídos. Deteriorados na maior parte. Alguns faltavam. De seus 1400 volumes folheados por tantos presos, comissários, carcereiros, no ócio da prisão, muitos tinham desaparecido. Que importa? A separação tinha sido tão dolorosa que o recuperar foi uma alegria cega.”
Os senhores estão vendo aí, o homem que depois de ser tratado com justiça, é tratado com misericórdia. Não se enternece também. Ele se apega ainda mais.
“A partir desse dia não se ouve mais falar dele. Ele deixou o país a fim de por ao abrigo seus tesouros dos golpes da política. Ele os levou a Chevru, em Seine-et-Marne, onde ele fez a compra de uma antiga casa dos Templários, aquela do seu amigo Godebeu. Era uma casa sem luz, mas confortável, com três boas adegas, vasta cozinha, grande sala de jantar, salões, quartos à vontade, e tendo em volta um gramado e um pomposo pomar com uma criação de coelhos.
“Esse amável homem não era de temperamento a correr atrás de felicidades. Ele a encontrou perto de si casando-se com a jovem pupila Catherine. E ele se deixou viver, não suspeitando que ele era uma espécie de herói: o herói da obstinação triunfante.
Ele teve vinte anos de perfeita felicidade, e morreu subitamente – sem tempo de se arrepender – num dia de verão de 1813, passeando no meio de suas coisas. Os peregrinos que vinham a Chevru numerosos, atraídos pelas relíquias que continha sua casa, relíquias ciosamente conservados depois da morte dele por sua filha única, que as transmitiu às suas crianças.
“Em 1882 somente, esses se decidiram a uma venda em que os colecionadores disputaram, como bem se imagina, esses testemunhos do cativeiro do Templo: o leito onde esteve morto o menino prisioneiro, aquele onde dormiu a Rainha, as gravuras que o Rei despendurou de suas mãos por ocasião de sua entrada no Templo, na Torre. Ainda os descendentes do arquivista conservaram uma parte desse mobiliário, por amor do qual tantas vezes seu antepassado tinha tantas vezes enfrentado a guilhotina. E é graças à liberalidade de uma dessas herdeiras, Mme. Gustave Blavot, que o Museu Carnavalet, ao qual ela fez doação disso, exporá em poucos tempos esses restos da trágica história, tão preciosos e tão incontestavelmente autênticos” (cfr. op. cit., pags. pags. 28-54).
Está acabada a história do Berthélemy. Está acabada com uma graça e um charme único, também. Mas a tragédia está aí.
Em substância, o que é? Um homem que vivia só para si, e não se interessava por mais nada. E por causa disso não queria saber de Bagarre, e por causa disso não queria saber de causas altas, nem de nada. Que lutou como uma fera, porque no fundo da alma de todo molóide há uma fera: é a fera que defende a sua própria moleza. É o dragão que defende as próprias delícias de sua própria vida. Lutou até o fim. E que resistiu à graça, resistiu ao castigo, não viu nada, e morreu estúpido como os coelhos em cuja companhia o Juízo Final foi pegá-lo.
Ele foi para Juízo Final inconsciente como um coelho, culpado por sua inconsciência e arrastando uma vida inglória e miserável. Os móveis são considerados com veneração.
Veio, muitos anos depois da morte dele, um Lenotre e apresentou esse homem estigmatizado, para o desprezo de todos os povos. Com essa carinha, para que nós aprendamos como são essas carinhas.
Alguém me dirá: “Mas Dr. Plínio, para o mole, o senhor deduz daí apenas essa severíssima lição?” Eu digo: eu não deduzo a lição. Eu me aproveito de um pensamento de São João Crisóstomo, já que eu o estou lendo. Um pensamento admirável. Ele diz o seguinte aos seus ouvintes: quando eu falo do inferno, eu não quero que vocês vão para lá. Eu falo para que vocês não vão!
É bem verdade. É de uma simplicidade única. Um pai que diz para a criança “não coma tal coisa, porque você fica doente”, não está torcendo para que a criança coma e fique doente. Ele está dizendo para que a criança não adoeça! Assim são aqueles que nos falam do inferno ou dos castigos de Deus nessa terra.
Aqueles dentre nós que tenham a felicidade de sentir a nhonhozeira dentro de si – porque é uma infelicidade ainda muito maior tê-la e não senti-la – fica essa recomendação: isso é um ato de amizade, um abrir de olhos que é um ato de amizade, um ato de estima.

 

Não fica uma esperança?
Fica. É o nhonho, por dentro da cápsula nojenta da nhonhozeira, tem um homem de valor. Apenas o que tem no nhonho é que o valor está posto a serviço de coisas sem valor. Está posto a serviço do egoísmo e da bagatela. Mas que no dia em que ele defender o seu ideal como esse homem defendeu suas mobílias, ele pode ser um grande homem.
Há homens que adoram coisas nulas, mas homens completamente sem força de vontade não existem. Existem homens com uma terrível força de vontade para se apegar à preguiça e à falta de força de vontade. Isso é o que existe. Toda vontade é forte. Toda inteligência é possante. Todo homem tem valor. Depende do proveito que saibamos tirar de nós mesmos. Esse proveito depende do recurso que tenhamos a graça de Deus, por meio das orações de Nossa Senhora.
Aqui está tudo. Rezemos a Nossa Senhora que nos tire da nossa nhonhozeira. Se Luís XVI tivesse tido um servidor que o servisse como esse homem serviu às suas mobílias, esse homem teria passado para a História como um herói. Nhonho é um cripto herói. Só que o heroísmo dele está posto a serviço da porcaria.
Então, se nós temos nhonhozice dentro de nós, não desanimemos. Que essas últimas palavras sirvam, para que algum nhonho que possa estar por aqui compreenda que elas são para ele um convite para o heroísmo. Mas um convite cheio de afeto, dizendo que se o heroísmo para ele é muito árduo, ele peça a Nossa Senhora que o mude.
Única coisa que eu peço a ele: é que ele não queira ficar como é, que ele queira mudar. Porque ele querendo mudar, basta virar-se para Nossa Senhora que Nossa Senhora mudará.
Aí é o que nós temos que fazer. E assim fica concluída a nossa reunião.

(*) nhonho: Forma de tratamento que os escravos utilizavam para com o patrão ou senhor; nhô, sinhô. Posteriormente tratamento usado por pessoas escravizadas para se dirigirem aos filhos jovens dos senhores de engenho ou aos rapazes da casa-grande. Mais tarde, tornou-se neologismo para se referir às pessoas que tinham cuidados excessivos para consigo mesmas, procurando evitar qualquer esforço ou sacrifício, n.d.c.

Um resumo desse artigo foi publicado na revista “Catolicismo”, n. 444, Dezembro de 1987, pag. 13 – Discernindo, distinguindo, classificando… – Um indiferente pertinaz.

Nota: Clique aqui para consultar a coletânea ESPECIAL com documentos (conferências, artigos do Prof. Plinio) sobre a Revolução Francesa.

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