Dr. Plinio, o Sr. se julga santo? Julga-se maior do que outros? Qual o juízo que faz a seu respeito?

Conferência no Encontro de Correspondentes Esclarecedores, 4 de agosto de 1985 (perguntas e respostas – continuação)

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

Uma outra pergunta é essa, pergunta curiosa: o Sr. se julga santo? O Sr. se julga maior do que outros Santos? Qual é o juízo que o Sr. faz a seu respeito?
Eu falo com a mão na consciência.
Quando eu era muito moço, eu tinha assim 21, 22 anos, eu li um livro de Dom Chautard, o famoso abade trapista chamado “A Alma de Todo Apostolado”.
O então arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, me aconselhou muito a leitura desse livro. Eu tinha como atrativo para a leitura desse livro uma espécie de carta prefácio, um documento dessa natureza – há tantos anos que não me lembro – do papa São Pio X, figura pela qual tive sempre a maior veneração.
E eu peguei o livro, comecei a ler e “devorei” o livro. E no livro esse trapista mostra a necessidade de uma verdadeira vida de piedade, de uma verdadeira vida interior para que uma alma possa fazer apostolado, considerando a fecundidade do apostolado uma obra de Deus muito mais do que a do homem.
O homem é o canal da graça de Deus, a obra é de Deus. E para que o homem esteja em condições de transmitir a graça de Deus para os outros, ele precisa ter as duas condições que um canal deve ter: limpo e desobstruído. Aí ele transmite.
Para ser limpo é preciso ser puro. Para ser desobstruído é preciso não ter amor-próprio. O homem que tem amor-próprio não faz apostolado fecundo.
E ele demonstra isso tão bem, com razões tão verdadeiras, numa tal nobreza de linguagem, numa tal santidade de expressão que eu até hoje ainda sinto em mim a impressão profunda, como aquilo resiste à análise da inteligência e se prova verdadeiro mesmo, e a adesão que eu dei aquilo.
Mas eu fiquei colocado diante da seguinte perspectiva: eu tinha resolvido, algum tempo antes, consagrar a minha vida inteira ao apostolado nas fileiras do laicato, é para o que me sentia chamado. E eu tinha, portanto, o propósito de servir para um apostolado fecundo, tanto quanto, através da Medianeira Universal de todas as graças, Nosso Senhor Jesus Cristo quisesse se servir de mim.
Agora encontro isso que eu não esperava encontrar: ou a minha vida é de um bobo alegre, que não tenha resultado nenhum, consagro-me a algo e não consigo aquilo a que me consagrei, um bobo alegre portanto. Ou eu tomo o amor-próprio e trituro completamente. E para triturá-lo completamente é preciso triturá-lo constantemente, porque até o último momento que eu estiver vivo, ele tentará renascer!
É preciso travar uma batalha que não acabará mais, ou dar a minha vida por frustrada e errada.
Com a graça de Nossa Senhora, eu resolvi optar pelo esmagamento do amor-próprio.
E, entre outros propósitos que eu tomei, foi o de nunca me comparar com ninguém, para me perguntar nunca se alguém é mais, para nunca me perguntar se alguém é menos. Não me comparar! E os que convivem comigo, eu penso que podem dar testamento disso: nunca viram nenhuma palavra de meus lábios que desse a entender que eu estava me comparando com quem quer que seja.
Com quem eu me compararia então? Com aquilo que eu achava que eu devia ser, com aquilo que minha consciência iluminada pela moral da Igreja me entendia que seria a perfeição para a qual eu deveria tender. Com esse ideal eu deveria me comparar continuamente.
Mas esse ideal nos escapa da mão no momento que nós julgarmos que nós o realizamos. É preciso correr atrás dele, correr atrás dele, correr atrás dele….
Correr atrás dele, incessantemente, e só parar de correr no momento em que a morte cortar a nossa respiração e a mão misericordiosa de Deus colher a nossa alma. Antes disso, não.
Se alguém me perguntar: você é santo? Você é maior do que aquele? Menor do que outro? Eu direi: não sei! Não tive tempo de pensar, porque se eu esfregar os olhos e pensar nisso, nesse esfregar de olhos me escapa o pouco que eu possa ter ganho. Não sei disso. Acabou-se!

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