Dr. Plinio, o Sr. concorda que a TFP quer o imobilismo? – Pergunta do “Globo”

Entrevista concedida a jornalista do “Globo” na sede do Conselho Nacional da TFP brasileira, 4 de novembro de 1986

 

 

Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (PCO) – Bom, vai tudo [às convocações do PCB ou do PC do B]. Ao todo comparecem no máximo cinco mil pessoas, que não ficam o tempo inteiro lá; circula muito esse negócio… Como tomar isso a sério?
Para mim, o perigoso é a derrapagem da sociedade não comunista, através das etapas intermediárias socialistas, que conduzem ao comunismo.
Globo – Se não é via PCB, nem o PC do B, quem está levando… onde está o perigo eminente… a sociedade para a possibilidade dessa derrapagem?
(PCO) – É o ambiente cultural contemporâneo, que enormemente conduz a isso por todos os lados. Tudo, ou quase tudo, quanto é ideia lançada com apoio dos mass mídia, ou quase tudo, tende para isso. Mesmo jornais que podem ter tiradas contra o comunismo favorecem essa derrapagem.
Globo – Dr. Plinio, os jornais são eminentemente anticomunistas: “O Estado de S. Paulo”, “O Globo” — a “Folha” a gente não consegue saber direito o que é — mas “O Estado de S. Paulo” (OESP) é visceralmente anticomunista…
(PCO) – Eu considero que esses jornais todos mantém a opinião pública na seguinte posição: uma espécie de horror ao comunismo e uma espécie de namoro com formas intermediárias que conduzem de longe ao comunismo. É assim que eu vejo a ação deles.
Agora eu acho que isso tem o seguinte de nocivo: é que o burguês, que adora estar na última moda, tem a sensação de que ele pode conceder cada vez mais ao socialismo, sem favorecer o advento do comunismo, porque o jornal dele é ferozmente anticomunista e protege as formas intermediárias que levem lá.
Não sei se me exprimi bem.
Globo – Sei. Eu não concordo muito não. Eu acho… eu respeito a sua opinião…
(PCO) – A sra. não concorda por quê?
Globo – Acho que eles são ferrenhamente anticomunistas. OESP por exemplo é anti-qualquer coisa que dilua…
(PCO) – A sra. sabe que OESP é também ferrenhamente anti-TFP, não é?
Globo – Gostaria de saber por quê; porque vocês defendem princípios semelhantes; alguns princípios…
(PCO) – … em comum com eles. Entretanto eu não vi OESP fazer contra uma entidade ideológica os ataques que fez contra a TFP. Por quê?
Um entendedor, pessoa muito simpatizante do OESP e não simpatizante da TFP — eu não quero dizer quem é — encontrou-se certa vez num avião com um jovem da TFP do Estado dele. Estavam lado a lado e esse senhor — no tédio da viagem do avião — puxou uma conversa com o nosso jovem. O nosso jovem sabendo que ele era muito amigo do OESP, perguntou a ele: “Por que OESP ataca tanto a TFP?”
Ele disse: “OESP, como o meu Partido, atacamos a TFP porque achamos que é preciso caminhar lentamente para uma transformação social, que não está nada distante do comunismo. Mas, temos que caminhar lentamente. O comunismo quer caminhar rapidamente e nós o combatemos. Vocês querem o imobilismo; nós os combatemos também. Não se espantem.
Globo – O senhor concorda que a TFP quer o imobilismo?
(PCO) – Na perspectiva dele, eu compreendo que ele chame isso de imobilismo. De fato, é uma coisa mais carregada: é caminhar em rumo oposto. Não é ficar parado.
Então, alguns dizem que somos medievalistas.
A resposta é: não se pode querer nenhuma cópia de nenhuma época do passado. Mas no livro “Revolução e Contra-Revolução” [RCR] eu mostro que toda a transformação do Ocidente num rumo que desfecha no comunismo, se deu nessas etapas. O Humanismo e o Protestantismo, no século XVI, é uma Revolução de caráter filosófico e cultural, (como é o Humanismo) e de caráter religioso, afim com o protestantismo. São Revoluções afins. Deram na primeira Revolução. Se se vai observar essa Revolução com lupa, vê-se que o Protestantismo fez um serviço igualitário dentro da Religião: negou o Papa; quase todas as seitas protestantes negaram os Bispos e algumas até negam os padres. Quer dizer: Igualdade, achatamento. A Igreja Católica, não: ficou o papa, ficaram os bispos, isto é, a hierarquia.
A Revolução Francesa fez a mesma transformação na ordem civil. Ela acabou com toda a hierarquia social. Ficaram apenas ricos e pobres. Desapareceram nobres e plebeus.
A Revolução Comunista faz a mesma coisa. Fica a sociedade reduzida a uma classe só.
São três Revoluções. Nós somos opostos a essas três revoluções.
Globo – Agora, como é que se caminharia em rumo oposto?
(PCO) – É preciso ter uma mentalidade fundamentalmente católica. É preciso esperar que os homens abracem uma mentalidade fundamentalmente católica e, portanto, não-progressista; que compreendam a legitimidade de uma hierarquia harmônica e proporcionada — na ordem religiosa, como na ordem política, social e econômica — na qual a todos se assegure as condições necessárias para uma vida digna, se assegure o uso largo dos direitos da natureza humana. Mas, a partir deste nível comum a todos, que haja uma hierarquia.
Globo – Isso existe no Brasil?
(PCO) – Também não somos entusiastas da ordem atual do Brasil, de nenhum modo. Agora, como é que isto existiria no futuro?
Obtida uma transformação das mentalidades a este respeito, numa situação toda ela reanalisada a partir desse princípio, haveria de surgir uma grande variedade de formas de organização política, social e econômica, de acordo com as peculiaridades do povo. Nunca admitindo duas coisas: nem a igualdade completa; nem a desigualdade que fira esse fundamento igual que devem ter todos os homens.
Não sei se estou me exprimindo com clareza… Estou quase fazendo uma conferenciazinha.
Globo – É… é verdade. Ah! Ah!
PCO – A senhora perguntou…

Nota: Para a íntegra da entrevista, clique aqui.

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