Sede do Reino de Maria, entrevista concedida pelo Prof. Plinio ao jornalista Hugh O’Shaughnessy (1935-2022),12 de outubro de 1976
O entrevistador foi colaborador de vários órgãos britânicos como “Financial Times”, “The Tablet”, “The Economist” (cfr. “Meio século de epopéia anticomunista”, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1980, pag. 186)
Plinio Corrêa de Oliveira [PCO] – […] Muito obrigado. …nós começamos a lutar contra essa infiltração por meio de denúncias às autoridades eclesiásticas etc., etc. Mas notamos que a infiltração se fazia cada vez mais intensa e que a autoridade eclesiástica não só se desinteressava com as denúncias que nós fazíamos, mas algumas autoridades eclesiásticas até davam apoio a essa infiltração.
Então nós nos organizamos não mais como uma associação católica, mas uma associação civil de inspiração católica. E, portanto, pelo Direito Canônico, [constitui] uma associação que não fica sob a direção da autoridade eclesiástica. Ela é inspirada pela doutrina católica, mas não fica sob a direção da autoridade eclesiástica.
E começamos a combater especificamente esse comunismo crescente dentro da Igreja Católica.
Agora por que isso?
Porque nos pareceu que a Igreja Católica tem uma tal influência no Brasil que ela tem de tal maneira a maioria dos católicos brasileiros, que se a Igreja Católica seguisse para a esquerda, o Brasil inteiro iria para esquerda. E se a Igreja Católica não fosse para a esquerda, o Brasil não iria para a esquerda. E que era preciso, portanto, defender a Igreja e o Brasil contra a influência esquerdista e comunista, combatendo como católicos.
Naturalmente essa orientação desagradou muito a grande parte do elemento católico, cada vez mais infiltrado.
Nós chegamos a fazer numa ocasião um abaixo-assinado a Paulo VI pedindo medidas contra a infiltração comunista na Igreja, que teve em 60 dias de campanha dois milhões de assinaturas. Foi o maior abaixo-assinado que houve na história do Brasil.
Esse abaixo-assinado foi entregue pessoalmente no Vaticano. Não tivemos resposta.
O Sr. compreende, o choque, portanto, é grande.
Agora, o que é que significa esse choque? Significa um choque com uma boa parte do clero. Não com todo o clero, porque uma boa parte do clero se mantêm em silêncio, não é a favor do comunismo.
E, dos leigos, alguns são contra nós, outros são a nosso favor, mas a maioria fica indecisa. Mas a indecisão já é um meio resultado – não é um resultado inteiro – mas um meio resultado apreciável. Porque quem está indeciso não anda. E quem não anda não sai do lugar onde está. E, portanto, a derrapagem para a esquerda não se faz em setores enormes por causa de nós levantarmos a voz.
Por exemplo, esse livro que o Sr. está vendo aqui [“A Igreja ante a escalada da ameaça comunista – Apelo aos Bispos Silenciosos / A Igreja do Silêncio no Chile – A TFP andina proclama a verdade inteira”, Plinio Corrêa de Oliveira, 1ª. Edição – junho de 1976, Editora Vera Cruz, São Paulo, composto na Artpress – Papéis e Artes Gráficas Ltda., São Paulo] já tem vinte mil exemplares de tiragem. Para o Brasil é muito!
[JL: Em poucas semanas de lançamento.]
Em poucas semanas de lançamento. Quem compra esse livro? São os católicos. Às vezes o padre na Igreja fala contra o livro e nós vendemos do lado de fora, e os fiéis compram amavelmente.
Hugh O’Shrwshgni [H.O.] – Qual é a sua razão de acreditar que o seu caminho é o caminho mais indicado para a Igreja?
PCO – Eu compreendo bem a pergunta. É a seguinte: nós, católicos, somos todos firmemente persuadidos do dogma da infalibilidade papal. Agora, a infalibilidade papal não se manifesta só pelos documentos dos papas, documentos expressos, dogmáticos, mas manifesta-se também pelo seguinte, isso é opinião comum de todos os teólogos católicos: quando uma longa continuidade de papas ensinou uma matéria do mesmo modo, ainda que não com o caráter de definição dogmática em cada papa, a continuidade corporifica isto como dogma.
Tudo aquilo que defendemos contra os católicos esquerdistas são doutrinas afirmadas como dogma expresso ou corporificada, condensadas por assim dizer como dogmas pela longa continuidade dos pontifices anteriores. Logo, qualquer modificação não pode ser aceita.
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O. – Mas se a modificação seja manifestada, como foram manifestadas muitas modificações no II Concílio Vaticano, como é que os Srs. vêem as modificações feitas no Concílio Vaticano?
PCO – A sua pergunta, para eu responder, é um pouco genérica demais pelo seguinte: o Sr. pergunta “os Srs.”, portanto a nossa Sociedade.
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O. – A Sociedade.
PCO – A Sociedade sendo uma Sociedade civil não pode tomar posição perante matérias não civis. De maneira que matérias estritamente eclesiásticas como a questão da Missa nós não podemos tomar uma posição. Precisaríamos fundar uma sociedade religiosa, que não fundamos, para tomar posição sobre a questão da Missa.
Sobre a questão da propriedade, da família e da tradição nós não encontramos no Concílio um choque. Sobre as outras matérias eu intencionalmente não me pronuncio, embora eu possa ter a minha opinião pessoal formada; o Dr. [Adolpho] Lindenberg, a dele; Dr. Araújo, a dele. Mas é matéria que não entramos porque arrastaríamos a Sociedade conosco. Esta é uma Sociedade civil de inspiração religiosa, não é uma Sociedade religiosa.
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O. – Mas o Sr. deve ter uma opinião sobre as quedas de várias tradições que ocorreram no II Concílio Vaticano.
PCO – Ah! Ah! É verdade. A pergunta está muito inteligentemente feita. Mas acontece o seguinte: é que quando se trata de tradições meramente eclesiásticas, nossa Sociedade, que é civil, sobre elas não se pronuncia.
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O. – Hum… hum…