23 de janeiro de 1991, entrevista telefônica ao Prof. Plinio por jornalista do “Correio Braziliense”
Correio Braziliense (C.B.) – Qual a ideologia da TFP?
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (PCO) – Qual é a ideologia?
C.B. – Da TFP.
PCO – A ideologia da TFP é a sociologia católica tradicional.
C.B. – A ideologia da TFP é essa que o Sr. está colocando. Mas, digo político: que regime ideal pensa a TFP para o Brasil e para o mundo? Regime político, forma de organização política da sociedade, qual seria a ideal para o Brasil e para o mundo? O que pensa a TFP?
PCO – Eu começo por achar que não se pode querer impor para o mundo inteiro um só regime. Os regimes variam de acordo com as circunstâncias. São Tomás de Aquino ensina que há três regimes igualmente legítimos, segundo a doutrina católica: o regime monárquico que é o governo de um só; o regime aristocrático, que é o governo de uma elite; e o regime democrático, que é o governo do povo. Esses três governos são legítimos. Entretanto, convém mais ou menos a este ou àquele povo, de acordo com as circunstâncias de cada povo. Mas, acrescenta que a forma perfeita seria uma justaposição, num Estado, de elementos monárquicos, aristocráticos e democráticos. E que cabe a cada povo escolher, o regime que mais lhe convenha. Eu penso inteiramente assim.
C.B. – Dr. Plinio, em 93 acontece uma revisão constitucional…
PCO – É verdade.
C.B. – Inclusive vai ser discutido um tema com relação à forma de governo: se o governo seria parlamentarista, presidencialista ou até monárquico. A TFP faria campanha pela monarquia?
PCO – Não. De acordo com o princípio que foi dado, nenhuma dessas três formas de governo colide com a doutrina católica.
C.B. – Eu não estou ouvindo, Dr. Plinio. Está muito baixo… O Sr. poderia falar um pouco mais alto?
PCO – De acordo com… [não mexa nesse telefone porque não está funcionando bem]
De acordo com o princípio que eu dei – princípio de São Tomás, princípio de Leão XIII – de acordo com este princípio qualquer das três formas de governo é legítima. E, portanto, a TFP não tem razão para tomar posição a favor de uma ou de outra.
C.B. – Ela não tem preferência por nenhuma das três?
PCO – Nenhuma das três. Teoricamente falando, diz Leão XIII, a forma ideal é a monárquica. Mas, isso pode convir para um povo e não para outro. Não é necessariamente a melhor para todos os países.
C.B. – O Sr. não arriscaria para dar um palpite, e dizer qual seria a melhor forma para o povo brasileiro?
PCO – Eu digo: a TFP, como tal, não tem posição tomada. Mas, já antes da TFP ter sido fundada, eu era conhecido como um monarquista declarado e não-militante.
C.B. – Hum, hum. Tá… Dr. Plinio, o governo Collor agrada à TFP?
PCO – É uma pergunta embaraçosa, porque há uma hesitação muito grande entre os brasileiros a respeito da possibilidade que tenha o governo de realizar as suas promessas. Ele tem exigido do povo brasileiro duros sacrifícios. Só este confisco [das contas bancárias e de poupança], foi um sacrifício duríssimo. Agora, a sua política econômica se orienta de maneira a conseguir, de fato, os objetivos que tem em vista? Eu não sou especialista em matéria econômica, mas não tenho segurança a esse respeito.
C.B. – Hum, hum… Quer dizer, a TFP…
PCO – Não, isto não é a TFP.
C.B. – Quer dizer, a TFP está “em cima do muro” com relação ao governo, seria isso?
PCO – Ah! Ah! Ah! Ah!
C.B. – Seria isso, Dr. Plinio?
PCO – Se o Sr. considera toda naturalidade [toda posição natural] consiste em estar “em cima do muro”… ah! Ah! Ah! o Sr. há de reconhecer que o Sr. mesmo está “em cima do muro” a respeito de muita coisa, e que o “muro” é habitado por muita gente…
C.B. – O Sr. habita o “muro”, Dr. Plinio?
PCO – Em certos pontos, todo homem sensato habita o muro. Ah! Ah! Ah!
C.B. – Então, eu perguntaria ao Sr.: a TFP dá apoio ao governo Collor, mas fazendo uma certa restrição?
PCO – Não, não, não! Ela presencia de modo atento e interrogativo o curso das coisas.
C.B. – Tá… Dr. Plinio, outra coisa que eu gostaria de saber: os militares hoje reivindicam aumento de salário. Já se organizam demonstrando uma certa insatisfação diante deste governo. Os militares compõem um segmento que tem uma certa tradição golpista no país. Imaginemos, numa hipótese, que os militares, desgostosos com este governo, resolvessem tomar o poder à força, e implementar um regime militar autoritário, a exemplo do que foi feito em 64. Que posição tomaria a TFP neste caso?
PCO – O Sr. vai dizer que eu estou “em cima do muro”. Seria preciso ver como seriam as circunstâncias concretas como seriam, para ver se conviria ou não. Porque eu não sou dos que acham que um regime militar é necessariamente uma abominação. Vou lhe lembrar uma coisa que quase ninguém lembra, mas que é bom lembrar.
Quando as coisas num país chegam a ponto em que um Luís Carlos Prestes declara no Senado que se ele tiver a injunção da Rússia de tomar atitude contrária ao interesse do Brasil, ele toma e não acontece nada, então se compreende que um militar diga: isso não pode continuar assim.
E, portanto, não é dizer que qualquer golpe militar é necessariamente um mal. No golpe de 64, eu achei que foi oportuno e necessário. Acho que o regime militar cometeu muitos erros. Um dos erros que cometeu foi que alguns de seus representantes submeteram os comunistas a maus tratos verdadeiramente absurdos.
C.B. – Alguns mortos, inclusive.
PCO – Inclusive. Estou no mais inteiro desacordo com isso. Mas deduzir daí que nunca, em caso nenhum se deve apoiar um regime militar, é contrário à doutrina de São Tomás de Aquino sobre o direito de revolução. No momento presente, eu acho que um golpe militar não teria sentido.
C.B. – Hum, hum.
PCO – Agora, se o Sr. me pergunta se daqui a cinco anos poderá ter sentido ou não, eu digo ao Sr.: me telefone daqui a cinco anos.
C.B. – Ah! Ah!…
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