Auditório Nossa Senhora Auxiliadora, Reunião extra, 3 de novembro de 1992 – Terça-feira
A D V E R T Ê N C I A
O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.
Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.
(Sr. A. Ezcurra: Qual é a diferença entre orador e conferencista?)
A distinção existe, e é a seguinte: é a diferença que vai entre o discurso e a conferência.
Ao menos na língua portuguesa, a conferência é uma exposição de uma tese ou a explanação de um assunto, mas dentro de uma linha rigorosamente lógica e que deve afastar como um defeito quaisquer considerações que tenham como finalidade muito principal ou exclusiva tocar os sentimentos; deve ser um apelo à razão.
Pelo contrário, orador é aquele que toma um tema e deve tratar o tema razoavelmente, racionalmente, mas deve ter por finalidade principal ou quase principal emocionar o ouvinte a respeito das verdades que ele está dizendo.
Quer dizer, um se dirige sobretudo à razão. Vamos dizer, a conferência se dirige principalíssimamente à razão, e algum tanto ao sentimento tolera-se em alguma passagem. Nesse ponto, a conferência teria como extremo algo que já deixa de ser conferência, que é a aula. Pelo contrário, o discurso tem como finalidade chamar atenção dos sentimentos, e nesse ponto tem como extremo alguma coisa que deixa de ser discurso, que é a poesia.
(Sr. A. Ezcurra: E, portanto, é mais nobre o discurso do que a conferência?)
Eu vou ver um pouquinho o que é que acha o meu auditório… Em primeiro lugar, foi clara a distinção ou não?
(Sr. A. Ezcurra: Sim, Sr.)
Aqueles que acham mais nobre a conferência levantem a mão.
Dr. Plinio, acho que é uns dez no máximo, não é?
(Dr. P. Xavier: Dezesseis… Qual dos dois o Sr. acha mais nobre?)
Eu acho que o mais nobre – mas isso pode ser uma decorrência do meu modo de ser – é a conferência que, de passagem, em algumas partes, sem deixar de ter o tom da conferência, comova como um discurso.
O Sr. está vendo aí a preponderância do raciocínio nessa concepção, enquanto no outro está a preponderância do sentimento. Está no meu modo de ser.
Eu creio que nenhum dos Srs. me imagina fazendo uma conferência exclusivamente para tocar gênero “a minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”. O Sr. lendo isto teria certeza de que não fui eu que fiz. É o modo de ser de cada de um. Me parece que esse estilo é um estilo muito nobre.
Eu não pus dentro uma outra categoria para a qual a nossa língua arranjou um substitutivo que não dá o sabor da coisa: é a “causerie” francesa, que foi traduzida por palestra. Uma palestra, fez uma palestra.
Mas eu tenho, aliás, a impressão de que a palavra palestra está decaindo muito. Eu tenho a impressão de que alguns dos Srs. mais novos nem sabem o que é palestra.
Eu não vou perguntar a ninguém, pergunto só: os que já ouviram falar “Fulano fez uma palestra” levantem o braço para eu ver. É quase todo o mundo. Eu pensei que estivesse mais em declínio.
A palestra não é uma causerie. “Causer” é sem dúvida conversar. A “causerie” não é qualquer conversa, é uma conversa um pouco “conferenciosa”, mas muito saltitante, muito livre no seu curso, e cheia de ditos de espírito. Os ditos de espírito também não é a chacota, nem é a graçola frajola, imbecil de que se gosta de hoje, mas são ditos interessantes em que aparece a inteligência, a graça e em todo o caso a gentileza de quem falou. De maneira que um dito numa “causerie” delicia e deixa todo o mundo à vontade. A menos que seja uma dessas alfinetadas que vara o sujeito de lado a lado, que é também muito interessante, torna uma “causerie” muito agradável.
Havia uma instituição chamada “Université des Annales” em Paris – não sei se ainda existe – que fazia umas conferências, mensais se não me engano, para um público o mais seleto possível. Eram, em geral, temas históricos, e em geral eram membros da Academia Francesa ou eram grandes literatos que eram convidados para essa “causerie”.
A coisa era feita assim:
Vamos dizer, por exemplo, que fosse a respeito de Francisco I, rei da França. Um homem muito brilhante e sobre o qual os historiadores franceses escrevem de muito bom grado. A vida dele era cheia de episódios, de circunstâncias etc. À medida que iam aparecendo personagens de que ele falava, personagens que tinham tido relações com o rei, nessa medida aparecia, um ator ou uma atriz nada mais nada menos, um ator ou uma atriz da “Comédie Française” – se possível vestida com trajes do tempo, ou ao menos com tecidos do tempo –, passava por detrás, fazia uma reverência para o público e passava do outro lado. No cravo, que é o que se tocava, alguém tocava uma canção do tempo, enquanto, ao mesmo tempo, o canto era acompanhado ou não por uma canção. E assim os personagens iam passando evocando [aquilo que na “causerie” era lembrado].
Mas palestra não dá isto, não é isto, não há palavra adequada. Não sei se talvez haja para o castelhano ou para outras línguas aqui representadas. Eu acho que o verdadeiro, se há alguém que queira fazer uma “causerie”, ainda é enunciar que vai fazer uma “causerie”.
A nossa reunião de ontem, tão generosa, mas tão brilhantemente programada, tinha muito de uma “causerie”, e daí também o brilho, em boa parte, da reunião. Foi porque as evocações vinham acompanhadas da música, acompanhadas do canto, acompanhadas de toda a espécie de coisas capaz de realçar o tema. Nesse ponto achei muito original a ideia de fazer uma coisa dessas dentro do nosso ambiente.
Aí ficou a ideia do que é “causerie”.
(Dr. Camargo: O que é mais nobre: a poesia ou a prosa?)
A poesia é mais nobre, ela tem a delicadeza e a fragilidade das coisas que tocam ao sentimento.
Estaria longe de mim de dizer que o sentimento é um privilégio do sexo feminino, isso seria uma imbecilidade. Mas é fato que o sentimento brilha no sexo feminino mais do que no sexo masculino, e que tudo aquilo por onde a mulher se diferencia do homem tem alguns aspectos que parecem mais nobres.
De maneira que também dizer de uma senhora que é poética, cabe perfeitamente. Dizer que um homem é poético… Pode-se dizer que ele é poeta, dizer que ele é poético já é muito difícil.
Dom Sebastião, rei de Portugal, foi poético, mas é uma das raras exceções que existem a esse respeito.
O nobre do raciocínio é que trabalhando com o material pobre como é a prosa, ele sabe erguer-se mais alto do que a poesia.
Há mais alguém que queira perguntar alguma coisa? Ah! Meu caro Gonzalo!
(Sr. Gonzalo Larrain: Sendo evidentemente verdade que a conferência com algo ou bastante de discurso, não sei como o Sr. dosaria, é superior, eu julgo, se não me recordo mal, ter ouvido do Sr. que o fato que não haja mais discurso desde o fim do século passado mais ou menos, foi uma decadência do gênero humano, a lógica foi sumindo do panorama e foi ficando a conferência…)
Pela razão simples de que o discurso é a conferência muito ornada. Porque o discurso não é como a poesia, ele deve ter uma estrutura lógica, mas ele não desenvolve o raciocínio didaticamente, metodicamente. Basta que ele tenha um curso lógico e sobretudo isto: ele faça ressaltar, com os recursos da língua em que o discurso é feito, ele faça ressaltar os imponderáveis das palavras que ele aplica. A beleza de todo o discurso está em usar muitas palavras imponderáveis pela qual o discursador diz coisas que os outros não sabem dizer.
Isto supõe uma certa finura e supõe uma certa elegância pela qual se pode dizer que o discurso é a conferência em traje de gala. E todos os trajes de gala foram sendo abolidos, e no mesmo ímpeto foram abolidos os discursos quase completamente.
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Alguns exemplos de discursos de Dr. Plinio:
* https://www.youtube.com/watch?v=0LEz6fE9xRg / https://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_680912_infiltracao_comunista_extratos.htm
* https://www.youtube.com/watch?v=l-hbG6cc1lE / https://www.pliniocorreadeoliveira.info/MULT_731111_pateo_do_colegio.htm
* https://www.youtube.com/watch?v=fx5HqGLuPCs / https://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_761127_Verdadeiragrandezadeumpovo.htm