Aspectos da personalidade de São Charbel Makhlouf pouco comentados: fidelidade à Regra, afastamento da família, fervor e atenção exímia para a celebração da Santa Missa, milagres em vida e após a morte

Sede São Milas,  1º. de fevereiro de 1972 – Santo do Dia

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

O Beato Charbel Macklouf, durante sua infância, tendo recebido aquele tipo de ensino ao ar livre, como narrei aos senhores, era também pastor, e levava de vez em quando o rebanho familiar para apascentar nas redondezas.
Conta-se que ele conduzia o rebanho a um lugar que era uma espécie de gruta, que ficava em propriedades da família e que servia de refúgio para si e os animais durante a chuva. Quando um dos animais que conduzia tinha se saciado, o beato Charbel dizia para ele o seguinte: ‘Preste atenção! Agora que você se saciou não me dê trabalho, porque vou recitar minhas orações’. E o animal efetivamente se deitava e ficava quieto até ele acabar de recitar as orações. Depois retomavam. Quer dizer, havia desde já esse caráter miraculoso, a tal ponto que o lugar mudou de nome e passou e chamar-se El Quid, que quer dizer “o Santo”, porque o beato Charbel Macklouf costumava ir lá.
Ele teve uma qualquer dificuldade no tempo de criança. O livro menciona apenas de “uma misteriosa provação do tempo de criança”. E isso que quereríamos mais saber, como seria essa provação e como foi a luta dessa alma pela santidade, nesse ponto nós ficamos privados dos dados…
Depois, quando ficou mais mocinho, entrou como noviço nessa Ordem religiosa – de eremitas maronitas – e endossou o hábito, o traje de noviço, que na linguagem florida do Oriente se chama “o traje angélico”.
“Ele revestiu-se do traje dos anjos. O traje consistia numa túnica preta com abundante tecido e um cordão feito de pele de cabra. E lhe foi dado o nome de Charbel, que não era o seu nome de nascimento; que era um mártir de Edessa, do segundo século, celebrado na Igreja maronita no dia 5 de setembro”.
“A vida do noviciado era uma vida dura. O noviço era privado da palavra, quer dizer, deveria manter silêncio completo. Ele só deveria, diante dos superiores, usar a palavra se lhe perguntassem alguma coisa. Na mesa comum eles não podiam tomar parte. Os noviços tomavam parte numa mesa separada. E quando passava o superior perto dele deveria levantar-se e inclinar-se profundamente, com os olhos baixos e com as mãos cruzadas no peito. Se ele merecia alguma reprovação, ele deveria pôr-se de joelhos e escutar a reprovação em silêncio, sem nunca dar a menor explicação, sem nunca alegar nada a favor de si mesmo, nenhuma atenuante, nada”.
Quer dizer, ainda que a censura fosse injusta, ele deveria aceita-la e não discutir coisa nenhuma. Notem os senhores que nisso ele tinha, entretanto, interesse muito grande. Porque uma censura por um fato injusto podia determinar a recusa dele na hora de passar para a Ordem religiosa. Mas para praticar a completa humildade, a Regra exigia que ficasse quieto, que deixasse a censura pesar contra ele. E, se fosse o caso, saísse, fosse expulso da Ordem. Nossa Senhora providenciaria por ele. Era uma espécie de teatino, não em matéria de dinheiro, mas em matéria de reputação. Podiam lhe dar ou tomar a reputação como quisessem, defender ele não se defenderia. Nossa Senhora faria tudo por ele. Os senhores estão vendo o grau de desprendimento que essa Regra exigia.
“Enquanto era noviço, ele se destacou extraordinariamente pelo cumprimento perfeito da Regra, com uma humildade extraordinária. Mas a gente poderia pensar que esse cumprimento da Regra podia representar uma falta de personalidade. Quer dizer, um homem que não tinha muito domínio de si e que ia fazendo aquilo que os outros mandavam e não se incomodava”.
Isso é uma lorota, porque não há nenhum homem para quem não seja duro fazer o que os outros mandam. Porque todo homem, por movimento próprio, quer fazer isso ou aquilo, e obedecer é fazer o que contrário do que lhe mandam. E se o sujeito leva a obediência a sério, a vida de obediência em si é um verdadeiro martírio. Esse martírio o beato Charbel Macklouf levava.
É muito bonito como há esse martírio da obediência em todas as Ordens religiosas. Cada uma o pratica de algum modo. O professor [Fernando Furquim] conta, por exemplo, na Ordem de Cluny, fundada na Idade Média como um ramo dos beneditinos, o cerimonial foi levado tão longe que até o próprio sistema de lavar as mãos, de lavar o rosto era feito segundo o sistema cerimonial. De maneira que a pessoa nunca podia fazer um gesto, mesmo nas coisas mais íntimas, próprias, pessoais, que fosse segundo seu gosto pessoal. Na hora de enxugar a mão, por exemplo, tinha uma regra, pega a toalha em tal ponta, mexe assim, vira, fica inteiramente enxuta.
Há coisa que a gente mais goste de fazer espontaneamente do que pegar uma toalha, enxugar de qualquer jeito e jogar a toalha de lado? Ao menos, se não jogar a toalha de lado, enxugar como der na veneta, na hora? Ou, às vezes, até deixar a mão mal enxugada, abana no caminho? Não pode. O cerimonial está proibindo: é preciso sair com as mãos enxutas e perfeitamente bem enxutas, com tantos gestos assim, que têm que ser suficiente. Nenhum a mais, nenhum a menos. Imolação na obediência, para fazer tudo de acordo com o espírito do fundador. Por quê? Provindo da ideia de que quando a pessoa faz as coisas a seu talante, no fundo faz segundo a inspiração dos círculos mundanos. Porque o nosso talante é o dos círculos mudamos. E fazendo o dos círculos mudamos vem todo o resto que os senhores bem conhecem.
Então, para marcar aquela ideia de que quem entra numa Ordem religiosa é como alguém que abandonou o velho homem que morreu e o novo homem que nasceu, tomar essa ideia então, e aplicá-la por essa forma, segundo um cerimonial estrito. E nunca ser inteiramente senhor de si mesmo. Esse era o sistema adotado lá. Eles viviam a regra por essa forma.
Mas para os senhores verem como ele era, quando se tratava da vontade de Deus, dos Mandamentos, ele tinha uma vontade de ferro até contra as suas obrigações de obediência. Os senhores vejam esse fato. Diz:
“Acontece que uma vez uma moça, que se impressionou com a seriedade e com a dignidade do noviço, quis pô-lo à prova e tentar fazer com ele uma brincadeira: por duas vezes deu-lhe na face um beijo. Querendo assim tirar Charbel de sua imperturbabilidade e do seu silêncio. O noviço ficou tão indignado com esses gestos e percebeu de tal maneira os subtendidos maliciosos que tinham, que na própria noite, sem dizer nada a ninguém, ele saiu furtivamente do convento, para ir muito mais adiante, no convento de São Maronio de Anaya, para ficar noviço lá”.
Ele tinha direito de mudar de noviciado para outro. Não era propriamente contra a Regra. Mas era sem consultar os superiores. Pelo fato de que aquele era um convento que não preservava os limites territoriais da entrada de uma pessoa de sexo feminino, ele achou que era um convento onde não podia mais ficar. Aqueles superiores – a quem era obedientíssimo – ele os mandou às favas.
“Andou a noite inteira e apareceu no Convento de São Maronio de Anaya. Foi ali que ele foi registrado e ali que passou sua vida inteira”.
Por causa da graçola dessa moça, por causa da imprudência de um porteiro que não fechou as propriedades do convento convenientemente, um grande tesouro como Charbel Macklouf passou de um convento para outro. Quer dizer, o convento primeiro perdeu esse verdadeiro tesouro a favor do convento segundo.
Os senhores estão vendo aí a intransigência de um Santo. Quer dizer, quando se trata de uma coisa que é a guarda da virtude, não tem conversa! E aí a gente vê a vontade de ferro de um homem, entretanto tão obediente. Só os homens verdadeiramente obedientes têm vontade de ferro. Só os homens que têm vontade de ferro é que são verdadeiramente obedientes. O resto é capricho, é “milecanices” [teatro], é o que queiram. Não vale coisa nenhuma!
“No convento ele foi procurado por pessoas de sua família que protestavam contra o grande isolamento em que ele se encontrava. Por exemplo, uma ocasião apareceu a mãe dele, chamada Brígida, que era uma senhora muito piedosa. Foi ao convento de Anhaia para tentar vê-lo e conversar um pouco com ele, insistindo, na portaria, sobre quanto era legítimo o desejo dela de conversar com ele. Frei Charbel resignou-se a trocar com ela algumas palavras, mas ocultado pelo véu do mosteiro.
“Enquanto a mãe estava do outro lado, sem poder nem sequer vê-lo, lhe perguntou: ‘Então meu filho, é assim que tu me privas do prazer de vê-lo?’ Ele simplesmente deu a seguinte resposta: ‘Se Deus quiser, haverá tempo para nós nos revermos no Céu’.”
E a resposta está bem dentro daquele estilo dele. “Se Deus quiser haverá tempo para nós nos revermos no Céu”…
Uma coisa um pouco esquisita: a mãe dele estava casada pela segunda vez. Muito piedosa, muito piedosa, enviuvou, casou de novo! É uma coisa que achei um pouco estranha. Como não se trata da canonização da mãe, mas dele, é uma observação que cabe.
Um outro episódio, do mesmo gênero, os senhores têm aqui:
“Uma ocasião, os parentes dele foram ao mosteiro nos primeiros anos de sua vida religiosa e suplicaram ao beato de ir pelo menos uma vez a Bekacafra – que era o lugar onde a família morava. – Mas ele se apavorou, dizendo: ‘o monge que vai uma vez visitar a casa de sua família precisa fazer um novo noviciado’”.
Os senhores estão vendo que está inteiramente de acordo com aquela cara que os senhores viram. Quer dizer, tomou um pouco de poeira do mundo, precisa fazer um novo noviciado, se é algum monge. Quer dizer, está estragado tudo. Então, nada de ir ver a casa da família.
“No dia 1º de outubro de 1853, o padre Charbel Macklouf foi admitido a receber o hábito monástico e pronunciar os seus votos solenes, que tornavam irrevogável seu propósito de oferta total a Deus e de perfeição no exercício das virtudes”.
Quer dizer, ele ficou monge para a vida inteira.
“Durante a missa, depois do Introito, ele se apresentou com cabeça descoberta, os pés descalços e sem cintura, com o rosto voltado para o Oriente…”
É liturgia maronita.
“…diante de seus superiores, rodeado por toda comunidade, enquanto os monges todos tinham em mãos uma vela acesa. O celebrante o admoestou a considerar a necessidade da prudência e da coragem na difícil vida monástica, onde não se encontra uma automática segurança, mas onde era preciso suportar a fome, a sede, as longas noites em claro rezando, o frio, o calor, as injúrias, os opróbrios e, por fim, a inimizade e a calúnia dos próprios coirmãos. E que era preciso que ele estivesse disposto que eles dissessem coisas dele que fossem mentirosas, ou fizessem acusações sem atenuantes. O noviço devia preparar-se a morrer na obediência, uma morte sem nenhuma consolação visível. Charbel repetiu que ele queria entrar no noviciado apesar disso, e então foi convidado a pronunciar a fórmula dos votos de obediência, de castidade e de pobreza, segundo a Regra da Ordem, e de renunciar a procurar qualquer dignidade e proeminência, tanto na Ordem quanto fora”.
Esse é um voto muito bonito que se faz em algumas Ordens religiosas. Além do voto de pobreza, castidade e obediência, o religioso faz um voto – quer dizer, ele peca mortalmente se ele violar o voto – faz o voto de não fazer nenhuma “política” para ocupar qualquer cargo. Quer dizer, nem sequer esse pensamento: “eu vou exercer esse cargo bem agora para ver se eu fico provincial” ele pode ter. Se ele tiver e consentir nesse pensamento, ele cometeu pecado mortal. Quer dizer, é uma tal renúncia a qualquer ambição, que o consentir num plano para conseguir um cargo já é pecado mortal, do qual ele é só absolvido confessando-se e renunciando ao plano. De maneira que o indivíduo fica imobilizado. Qualquer “carreirosa” [desejo de fazer uma carreira, n.d.c.] fica completamente parafusada.
Os senhores veem que nós temos muita coisa para aprender…
“A sua ordenação sacerdotal foi no ano de 1859”.
E, com isso, aquilo que seria a biografia externa do beato Charbel Macklouf, mais ou menos fica vista. Sobre a personalidade dele há alguns depoimentos na biografia.
Aqui diz o seguinte:
“Que um exame atentíssimo de todos os testemunhos recolhidos oficialmente no processo de beatificação do beato Charbel Macklouf dão a sensação de que, do primeiro ao último dia de sua vida religiosa, ele ficou num estilo de vida sempre igual. E era mais ou menos um relógio no qual cada segundo, cada minuto, cada hora batiam sucessivamente de um modo inteiramente certo e seguro e serviam harmoniosamente de termo para cada dia”.
Já dissemos a seu tempo que se ignoram crises juvenis de Charbel, e mais especialmente, qualquer gênero de alteração brusca em sua vida, exceto aquela mudança de um convento para outro.
“Não é fácil encontrar uma jaça na constante – e o adjetivo que vem agora me parece muito curioso – compacta santidade de Charbel Macklouf”.
Quer dizer, uma coisa compacta, onde não tem bolha, nada está estufado. É seguro, homogêneo, uniforme e vai para frente. A um certo momento, como veremos, ele passou para ser um eremita vivendo fora do convento.
E, entretanto, os testemunhas afirmam que absolutamente nada mudou no seu exterior essa mudança de condições de vida. E isso, diz ele, de tal maneira que os vários fatos da vida do Beato Charbel Macklouf poderiam ser contados numa ordem inversa – o que se deu num ano, contado no outro, ou contado dez anos depois – porque ele aparece desde o início um grande santo, e se mantém nesse planalto até o fim e assim morre. E é bem o que aquela cara anuncia. Aquela estabilidade na santidade, e aquela perfeição já adquirida logo no início. De maneira que o resto são aperfeiçoamentos pequenos, não extraordinários.
Depois ele morre, e morre na perfeição. Está nessa linha de coisas que desnorteia um pouco a gente. Quase não se vê a fraqueza humana diante de tanta continuidade e de tanta perfeição. É, a meu ver, muito o que exprime sua fisionomia.
Mas, por exemplo, a respeito da piedade, tem aqui alguns dados: era um homem profundamente de fé e em tudo quanto ele fazia se sentia uma fé profunda. Assim, por exemplo, por ocasião da Consagração na missa. Quando chegava a hora da Consagração, ele fazia a Consagração com tanta fé que às vezes até as lágrimas lhe saltavam dos olhos. O padre Francisco Sabilini (?), que é um sírio também, que conheceu o beato Charbel treze anos antes de sua morte, diz: ‘Tudo aquilo, por exemplo, que ele usava para a missa, como o sabão – porque ele tinha que levar as mãos, purificar as mãos antes da missa –, o sabão, a toalhinha de mão, ele não permitia que fosse usado para outra coisa a não ser para uso da missa’.
Quer dizer, tal era o respeito que ele tinha para a missa, que o sabão com que ele levava as mãos para a missa não podia ser o mesmo com que usava para outras coisas; nem a toalhinha de mão. Tudo era especial. E que terminada a missa, todos os dias, a primeira coisa, depois da ação de graças, era lavar a toalhinha e deixar secando, para no dia seguinte ter uma toalha modelarmente limpa para suas mãos irem perfeitamente puras para o Santo Sacrifício.
Isso assim, de um modo tão remoto, estar procurando a poeira das mãos, que os senhores podem imaginar como ele procurava a poeira da alma e vemos com que espírito de fé se preparava para o Santo Sacrifício.
“Outros religiosos diziam: Eu assistia frequentemente a missa celebrada por ele e notava que era como se ele visse com seus olhos o Filho de Deus quando ele celebrava a missa”.
Quer dizer, durante a missa tinha-se a impressão de que ele conversava com Nosso Senhor.
“A sua voz era baixa, mas o seu vulto resplandecia de uma alegria interior”.
Os senhores podem imaginar que beleza seria ver aquele homem rezando em voz baixa, mas resplandecendo de alegria interior e tendo-se a impressão de que estava conversando com o próprio Nosso Senhor durante a missa!
Parece que na liturgia maronita, durante a missa, o padre tinha que lavar as mãos várias vezes. Então ele dispunha algumas toalhinhas, mas diferentes: uma que era só para o início da missa, outra que era para a epístola e outra que era para a Consagração. De maneira tal que para cada parte a toalha estivesse perfeitamente limpa. E conta-se do caso de uma menina de 8 anos, que estava assistindo uma missa dele na igreja, junto à família dela. Por duas vezes, em duas ocasiões diferentes, a menina voltou-se para a família na hora da Consagração e disse: Mas que lindo menino! Que lindo menino! Dava a impressão de que a criança tinha tido uma visão do Menino Jesus aparecendo ao beato Charbel Macklouf durante a missa”.
“Um irmão leigo disse dele o seguinte: que ele parecia não saber fazer outra coisa senão rezar, celebrar a missa e observar a Regra. Ele se distinguia de todos os outros monges como um grande carvalho pode se distinguir de uma ervinha do campo, de tal maneira era superior aos outros.”
Também, se um monge, um eremita sabe essas coisas – rezar e observar a Regra –, o que mais querem dele? É um santo! Pio IX dizia: “Querem me dar um santo? Deem-me um frade que observe a respectiva Regra. Eu digo: Isso é um santo”.
Aqui vem relatado o famoso milagre dele com a lâmpada de azeite. O milagre, exatamente contado pelo cronista, é assim:
“Charbel, uma ocasião, voltou de seu trabalho nos campos, na hora do jantar. E na presença dos outros monges pediu ao irmão dispenseiro – que guarda as coisas e dá aos frades – de pôr óleo na lamparina dele, porque o óleo deveria servir para ele ler na sua cela. O irmão o reprovou.
“E perguntou: Por que vós não viestes antes de agora, durante o dia, para ler o Breviário? Ele disse: Eu estava no campo. O irmão disse: Por penitência, vós não tereis óleo. Ide embora. Charbel inclinou a cabeça, obedeceu e foi para a cela. Perto do refeitório havia uma jarra cheia de água sobre um banco. E Charbel, passando por lá, derramou um pouco de água no vidrinho de sua lâmpada, e foi para a cela. Com a máxima simplicidade, ele chegou, acendeu o estopim e começou a rezar o Ofício com a lâmpada bruxuleante. Durante duas horas em seguida ele esteve rezando o Breviário.
“Quando tocou a campainha do silêncio, todos os monges apagaram suas luzes e no convento só ficou acesa a luz do quarto dele. Ele era obrigado, porque tinha obrigação de rezar o Breviário. O empregado do mosteiro, chamado Sabatanusmusa (?), encontrava-se naquele momento na cela do superior. Estava exatamente regulando a lâmpada na cela do superior, onde a lâmpada não se apagava. Na hora do servente sair, o superior o acompanhou com os olhos e ocasionalmente os olhos passaram pela janela e viu uma janela onde a luz estava acesa. Então o superior perguntou: quem é que está com a luz acesa? Diz o servente: Não sei.
“O superior, preocupado por aquela infração à Regra, se dirigiu a grandes passos para o quarto onde estava a luz solitária e ali deu conta de que era a cela do beato Charbel Macklouf. Ele abriu energicamente e entrou. E perguntou: O senhor não ouviu o som do sino? Por que então não apagou a luz? Não fez por acaso voto de pobreza? Charbel se pôs de joelhos e inclinando a cabeça até o chão pediu humildemente perdão: Eu voltei do campo e sou obrigado ainda a rezar o Ofício. Eu estou agora no cumprimento desse dever. O servente que acompanhava o superior confirmou a explicação de Charbel, dizendo: É estranho! Onde é que ele pode encontrar o óleo que eu me recusei a dar a ele?
“O superior perguntou a ele: De onde é que o senhor tirou esse óleo? Charbel hesitou na resposta, se prostrou de novo com a cabeça no chão e disse: Perdoe-me, pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Quer dizer, sem dizer de onde era, fingindo-se culpado, para ocultar o milagre. “Mas o superior exigiu, em nome da obediência, que ele dissesse de onde tinha tirado o óleo. Então, ele disse o seguinte: Não, padre superior, não é óleo. É um pouco de água que está iluminando aquela lamparina. O superior estava disposto a crer apenas nos próprios olhos, quer dizer, desconfiou que o padre Charbel estivesse mentindo. Então, aproximou-se da luz e pôs dentro dela a mão.
“Mais ainda: ele mesmo vinha com uma lâmpada e aproximou-se para ver bem a coisa. Ele fez mais: ele derrubou o líquido da coisa no chão para ver bem exatamente o que era. Era água, de fato. O superior ficou quieto, retirou-se e quando estava perto da porta disse simplesmente: Reze por mim”.
Estava encerrado o caso. O caso não permite comentários… O assunto estava liquidado.
Ele morreu na vigília de Natal de 1898. E, em 1899, começou uma segunda história de Charbel Macklouf, que é a história do corpo dele. No dia 15 de Abril de 1899 começou a singular aventura do corpo do beato. Com a presença do superior do convento, dos monges e de um grupo de leigos dos quais dez tinham assistido antes a sepultura, o corpo foi retirado do subterrâneo. O local do subterrâneo, por causa de infiltrações de água, se tinha tornado um pântano, no qual literalmente o corpo do beato Charbel Macklouf boiava.
O corpo estava coberto ligeiramente por uma espécie de musgo, mas estava completamente intacto, apesar desses líquidos forçarem a putrefação. Quer dizer, é um milagre.
Estava completamente intacto, a carne tenra, flexível, as juntas todas flexíveis. Os cadáveres têm as juntas inflexíveis. Os cabelos e a barba estavam como ele os tinha em vida e com um ou outro fio prateado. Nos flancos do cadáver eram visíveis ainda os traços do cilício que ele tinha usado a vida inteira. O corpo transudava continuamente um líquido sanguinolento que não tinha explicação.
Quer dizer, depois de terem completamente secado o corpo etc., um líquido sangrento, um ano depois de morto, continuava a sair.
Esse conjunto onde ele estava, estava revestido com uma chapa de vidro, que foi retirada e mudaram os hábitos dele. Médicos do lugar e especialistas da Europa foram interpelados, em várias ocasiões, a respeito dessa transudação sanguínea, mas ninguém conseguiu dar uma explicação do fenômeno, quanto mais estranho quanto essa transudação era constante. Naturalmente essa transudação era líquido que era dado depois para curas, para milagres, para graças, era uma relíquia dele.
No dia 15 de outubro de 1926, o cadáver foi sujeito a novo e acuradíssimo exame. Dos pés até os ombros ele media 1,49 (devia ser bem baixinho então). A pele, em várias partes, ainda estava fresca e as articulações sensíveis, ainda em 1926. Tinha-se a impressão de que Charbel tinha morrido há pouco. Eram ainda visíveis os traços do cilício e, nos joelhos, os calos formados pelo muito ajoelhar. Ainda em 1926 continuava a misteriosa transudação do cadáver.
É uma coisa que não tem explicação nenhuma. É um claríssimo milagre!
O superior de Anhaia foi gentilíssimo com o autor do livro e deu uma porção de dados a respeito das peregrinações que se fazem lá. E mostrou, entre outros, uma fotografia que há alguns meses fazia falar muito. Tinha acontecido que no dia 8 de maio de 1950 – um fato, portanto, já bem mais recente – um grupo de missionários maronitas de Kraim, fundados no ano de 1876, tinha vindo em peregrinação a Anhaia. Como lembrança desse dia de peregrinação foi feita a habitual fotografia do grupo formado por quatro pessoas, mais o padre superior que tomava conta do túmulo de Charbel Macklouf. Quando a fotografia foi revelada, além dos cinco que estavam agrupados sem ordem – assim um instantâneo, sem maior ordem – via-se, no centro, em primeiro lugar, uma figura da cabeça até os pés, de um venerável monge com a barba branca, que ninguém tinha convidado no grupo e ninguém tinha visto no local.
A fotografia foi mostrada aos monges de Anhaia e foi feito um exame de peritos, os quais puderam afirmar que não havia nenhum truque. Os monges mais antigos do convento de São Maron, que se lembravam do padre Charbel, asseguraram absolutamente que o intruso da fotografia era ele mesmo, e que o eremita se tinha feito fotografar.
Depois vem explicando que houve modificações na Ordem de Charbel Macklouf e que já não é mais uma Ordem propriamente de verdadeiros eremitas; que a Ordem foi modernizada em nossos dias.
E com essa nota tristíssima termina essa grande biografia.
Os senhores veem aí uma coisa que desconcerta. Essa santidade plena desde o começo, total, perfeitíssima e, depois da morte, milagres espetaculares! Porque esse milagre da transudação é inteiramente inexplicável. Mas o milagre da fotografia é, por assim dizer, escandaloso! Não tem palavras e é, ao mesmo tempo, muito carinhoso. É uma prova do afeto dele para com essa Ordem de missionários, nova, que se formava e que tinha ido fazer peregrinação junto à sepultura dele.
O que infelizmente não diz aí, e eu não sei também, é se a fotografia que eu mostrei aos senhores é dessa fotografia. Porque habitualmente nessas vidas de santos há uma tal falta de cabeça, que é capaz de porem a fotografia do homem quando era vivo, e não porem aquela outra fotografia depois de morto, sob o pretexto de que a primeira é mais autêntica. Porque a coisa chega até lá, e a gagueira chega até lá. Com isso está a vida dele que eu queria dizer aos senhores. E com isso também está terminada essa hagiografia.
(É a mesma fotografia. A que corre no Grupo é a mesma, miraculosa.)
Mas o senhor documentou isso de que maneira?
(No livro…).
Ah! É? Então os senhores podem ter a certeza de que os senhores têm uma fotografia miraculosa em mãos, porque aquilo é propriamente um milagre. É a primeira vez na história que um santo posa para figurar na fotografia após sua morte. É uma verdadeira maravilha! É mais miraculoso que o Santo Sudário. Porque o Santo Sudário está ali e a fotografia pegou. Ali, não. É um que não está.
(… após a morte do beato, os padres fizeram propaganda contra porque juntava muita gente. Então o enterraram atrás de uma parede muito grossa. Pouco tempo depois começou a transudação através da parede).
Isso é bem sinal da obstinação do beato Charbel Macklouf. Meus caros, eu vou encerrar agora porque temos jornais falados a serem dados.

Nota: Para conhecer mais sobre sua admirável vida, consulte Pe. PAUL DAHER, Charbel, un homme ivre de Dieu, Monastere S. Maron d’ Annaya, Jbail, Líbano, 1965, pp. 53-54, 61 a 63.

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