Auditório São Miguel, 22 de fevereiro de 1986, Sábado – Santo do Dia
A D V E R T Ê N C I A
Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.
Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.
As excelentes projeções que foram feitas aqui, juntamente com os comentários que as acompanhavam, desfecharam num pedido de preparação para a “Bagarre”.
Ora, a verdadeira preparação para a “Bagarre” se faz em função dos seguintes pontos: houve algo de maravilhoso que foi objeto de uma atroz injustiça. Isto, portanto, subestimado e, no fim, foi rejeitado e, por fim foi preferido a algo de abjeto que não poderia de nenhum modo ser aceito e que, entretanto, é colocado no alto, é “encumbrado” como se diz em espanhol.
Em ambas as coisas existe algo de insuportável: que o maravilhosos seja calcado aos pés e que o execrando seja elevado até ser objeto de nosso entusiasmo, de nossa complacência, ambas as coisas são perfeitamente insuportáveis porque são contrárias à natureza do homem bem construído. Mais ainda, a coisa vai mais longe: são contrárias ao próprio Deus. E, por causa disso, a preparação para a “Bagarre” é preparação para uma luta onde o que está embaixo deve subir, e o que está em cima deve ser abaixado. Tudo que é calcado aos pés deve ser glorificado.
Eu me explico: tudo o que é calcado aos pés pelo espírito moderno deve ser glorificado no século XXI, mais do que no século XXI só, pelo milênio que vai entrando. Tudo que é calcado aos pés por eles deve ser glorificado. Tudo o quanto é glorificado por eles deve ser calcados aos pés.
Por quê?
Porque essas coisas que estão calcadas aos pés são coisas que estão de acordo com a ordem natural que Deus fez, são de acordo com o movimento da graça nas almas, dispensado pela Igreja Católica que Deus instituiu. São, portanto, reflexos de Deus. E como Deus deve estar em cima e é próprio do demônio estar embaixo, nós devemos querer que essas coisas conforme a Deus estejam no alto apontando para Ele. Pelo contrário, a obra das trevas quer o horror, quer o indecente, quer o medonho, quer o monstruoso etc., etc., porque assim é o demônio, e ela prepara os homens para tenderem para o Inferno, para onde o demônio quer levá-los por toda eternidade.
Então é preciso a gente querer que isto seja rejeitado e calcado aos pés. É um ato de amor de Deus, é um ato de fé em Deus, é um ato de amor à Igreja Católica e de fé na Igreja Católica Apostólica Romana. Assim se deve entender a “Bagarre”.
Quer dizer, é a convulsão histórica prometida por Nossa Senhora em Fátima, como castigo pelo fato de que os homens violam a lei de Deus. Ela apareceu em Fátima e disse isso. Se não houver a penitência pelos pecados que se cometem, a Rússia espalhará seus erros por toda parte, haverá agitações, haverá desordens, cataclismos, nações inteiras desaparecerão etc., etc., é o castigo. Depois a afirmação não só de que não as coisas próprias a serem castigadas serão castigadas, mas que Ela será vencedora.
Portanto, tudo quanto é magnifico, régio, conforme a Ela, vencerá. Ela disse: “Por fim Meu Imaculado Coração triunfará”. Está bem claro.
Então, a questão é nós tomarmos esses conceitos que correm o risco de ficarem um tanto aéreos em nosso espírito, e sabermos bem como sentir o maravilhoso nas coisas. Aí nós saberemos o que sentir diante dessas coisas, e que indignação ter diante do abandono delas. De outro lado, tomar o extremo oposto e sabermos bem por que ter horror aquilo, e porque se quer calcar aquilo aos pés.
Quando se compreende que o que está em jogo na “Bagarre” é a catedral e o monstro, é o castelo ou a taba de índio, mas pior do que o índio ainda, é do neo índio, do civilizado que se transforma em índio ecológico, quando se compreende isso, se entende bem por que combater na “Bagarre” com o espírito de Elias: “Zelo zelatus sum pro Domino Deo exercitum” (I Rs 19, 10 – lema da Ordem do Carmo). “Eu ardi de um grande zelo, eu tive um zelo zelozíssimo pelo Senhor Deus dos Exércitos”.
O que é ter um zelo? O que é zelo?
Zelo é o sentimento pelo qual a gente admirando extraordinariamente algo ou alguém, querendo extraordinariamente algo ou alguém, não tolera nenhum atentado, não tolera nenhuma injúria, não tolera nenhum menosprezo a esse algo ou alguém. Pelo contrário, exige que sejam prestadas as homenagens adequadas.
O zelo é uma atitude de justiça em relação à superioridade de quem merece. O zelo é uma atitude de justiça em relação ao que há de errado ede execrável em quem não merece senão combate. O zelo é, portanto, a Contra-Revolução em ação contra a Revolução.
E para nossos dias, o magnifico dito de Elias, a magnífica frase de Elias (“zelus zelatus sum pro Domino Deo exercitum”) se entende no seguinte sentido: “eu me tomei de uma indignação contra-revolucionária, requintadamente contra-revolucionária, pelo Senhor Deus em favor de quem eu movo a Contra-Revolução”! É disso que se trata em última análise.
Isto posto, eu sugiro que tomemos um pouco os quadros da Idade Média e vejamos ali o que há de admirável, e como foi a mentalidade dos homens que abandonaram isso, e que depois quiseram destruir isso. Então proponho que retornemos àqueles quadros.
A Torre de Belém em Lisboa. É preciso dizer que a iluminação está muito bem feita. A torre se ergue sozinha, ela não faz parte de nenhum corpo de edifício, ela está isolada. Ela é uma torre? É, mas é quase um palácio em forma de torre, porque ela é espaçosa.
Os senhores vêem que ela consta de quatro andares, ela tem um pavimento embaixo, depois tem em cima um andar onde há uma espécie de terracinho, seria quase um muxarabiê de pedra, os senhores têm aqui e têm na outra fachada parece, é a parte que está iluminada intensamente, é o 2º andar. O 3º andar está em cima, no escuro também. No 4º andar resplandecente de luz está o caminho da ronda, que percorre o horizonte à noite inteira para ver se algum inimigo vem, e para se defender contra o inimigo.
A torre está cercada de um patamar grande e os senhores notam guaritas nos ângulos, não só da torre, mas desse pátio, para ficarem aí os vigias quando há tempestade e eles têm que se abrigar, para ficarem ali pessoas que disparam armas de fogo contra quem se aproxima, e está protegido contra a arma de fogo pela pedra maciça que ali está. Então, a idéia de guerra está altamente presente nessa torre.
Bem entendido, essas iluminações não existiam naquele tempo. Essa iluminação é toda elétrica, e data, potanto, do uso de um sistema de iluminação que começou no século XIX. Esta torre é do século XVI [1515-1520], do século XV mais provavelment, talvez um pouco antes. Eu, antes de sair de casa, não verifiquei. Mas é muitíssimo anterior à luz elétrica. Mas o uso da luz elétrica favorece a beleza da torre.
Qual é a impressão que esta torre dá?
Esta torre dá a impresssão que pode dar uma pessoa de busto ereto, alto, muito certa de que ela, em si, representa uma grande dignidade de algo maior do que ela mesma. E os senhores prestem atenção neste ponto: sempre que um homem – quando se diz um homem, entende-se também uma senhora, uma mulher – se apresenta com sua própria dignidade, mas como quem diz: “prestem atenção, olhem que qualidades há em mim!” Então a pessoa mostra, vamos dizer que é um homem, mostra uma condecoração que tem, mostra um traje que tem, sei lá o quê, fala e dá a entender que tem tal cultura e que aquilo reside nele, ele não obtém a admiração que ele imagina e obtém a antipatia.
Mas, sempre que se percebe que ele está consciente de representar algo mais alto do que ele, aí ele se torna respeitável. Porque nós homens valemos na medida em que nós representamo algo de Deus. Só por homem, uns pelos outros, nós não valemos nada! Mas é na medida em que pelas nossas funções, pela nossa situação, às vezes pelas qualidades que Deus pôs em nós, como numa vitrine onde se pode colocar objetos bonitos. A vitrine não tem do que ficar mega [vaidosa] por estarem aqueles objetos lá. Foi a mão do dono da vitrine que abriu a vitrine a pôs ali dentro aqueles objetos!
A vitrine de um joalheiro… os senhores imaginem que a vitrine de um joalheiro ficasse mega e dissesse: “olha como eu reluzo…” Idiota! Você não reluz nada! Puseram em você jóias que reluzem.
Assim Deus fez conosco: Deus pode nos ter dado algumas qualidades que reluzem, mas que valem na medida em que tem como ponto de referência a Ele, o autor e o modelo supremo de todas as perfeições. Nessa medida valem. Se não é isso, não valem nada!
Alguém dirá: “Não. Mas eu para adquirir tanto saber, eu lutei, eu aprendi, eu aproveitei minha inteligência… isso não tem mérito?”. Digo: tem sim. Sabe qual foi o mérito? Foi o mérito de ter correspondido a uma graça que Deus lhe deu para isso. Como Deus deu essa graça a “X”, “X” teve coragem de fazer todo esse esforço. Então lá foi.
Mas, normalmente, sem a graça de Deus não sai nada que verdadeiramente preste. De maneira que a graça de Deus está na raiz de tudo, e tudo resplandece a Deus.
Então, daí se desprende uma certa atitude da verdadeira superioridade, que tem uma atitude qualquer de oração. E essa Torre de Belém – daqui a pouco mostrarei aos senhores – ela tem qualquer coisa que fala de algo superior a ela, algo de maior do que ela, algo de orante, algo que está orando, e orando de uma oração tão alta, que a gente pára diante dela e diz: “ó Torre de Belém”!
Vamos por um pouco aqui, agora nós vemos.
Essa torre que se ergue assim sozinha, e que tem sobre ela apenas a abóboda celeste e mais nada, essa torre considera com uma superioridade natural tudo quanto está ao pé dela. E ela é um reflexo da missão de Portugal naquele tempo.
Portugal, o que era naquele tempo?
Uma nação pequena, é verdade, mas não pequena para a Peninsula Ibérica onde o destino de Portugal, na Europa, se desenvolvia. A Espanha constava de uma soma de uma porção de reinos sucessivamente herdados por vários reis espanhóis que foram somando esses reinos e formaram um reino maior do que Portugal, mas de si Portugal era igual ou maior do que muitos dos reinos que compõem a Espanha, que compuseram a Espanha. E, durante toda a Idade Média, ele pesou como potência dentro do panorama ibérico. Mas lhe estava destinado a outra coisa muito mais alta: a expulsão dos árabes de seu próprio território, paralelamente com a expulsão dos maomentanos feita pelos espanhóis, uma obra irmã e complementar da obra dos espanhóis.
Mas, Espanha e Portugal, sobre elas sopravam outros ventos, sobre elas pousavam outros destinos históricos.
Esta torre simbolizava uma nação destinada a conquistar, a descobrir, a povoar e assimilar a seu espírito e à sua civilização povos de uma vastidão enormemente maior do que a sua. Basta pensar no Brasil, basta pensar no conjunto Angola-Moçambique para os senhores compreenderem o que é que tudo isto foi e o que tudo isto poderia ser, e tudo isto trazido para a Cristandade. E, mais ainda do que trazido para a Cristandade, ser a página quase em branco onde Nossa Senhora escreveria suas maravilhas no século XXI.
Então um misterioso vento histórico pousava sobre essa torre, do alto da qual os reis ou os almirantes e os grandes homens de Estado iam ver partir as esquadras que iam para este destino maravilhoso de Portugal. E os senhores então compreendem que todo este porvir está representado por essa torre.
Essa torre simboliza um desígnio de Deus, simboliza uma missão. E, por causa disso, a gente olhando para ela com verdadeiro espírito, a gente percebe que ela tem qualquer coisa de orante. Há qualquer coisa nela de forte, de recolhido, ao pé dela poder-se-ia dizer: estátua de um guerreiro em prece. Sério, forte, impassível, mas, com o alto de sua personalidade, de sua alma luminosa como está ali.
Comparem isso com o arranha-céu moderno em forma de grade… Suponham que alguém dissesse: “não, isto aqui está tomando espaço, nós podemos raspar isso, jogar essa pedraria velha toda no chão e construir aí um prédio, o maior do mundo, com 200 andares”. Eu nunca mais quereria ver esse lugar!
E se alguém mergulhasse ao fundo do mar, e trouxesse para fora um dos paralelepípedos dessa torre que caiu, e guardasse na sua casa restos da Torre de Belém, eu diria: me dê uma lasquinha para eu guardar comigo para levar comigo na sepultura…